Segunda-feira, 23 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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ENTRE ASPAS > SEGUNDA-FEIRA, 30/6

Crise jornalística se intensifica nos EUA

Por Leticia Nunes (seleção de textos) em 01/07/2008 na edição 492

Leia abaixo a seleção de segunda-feira para a seção Entre Aspas.


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O Estado de S. Paulo


Segunda-feira, 30 de junho de 2008


 


CRISE
AP, Nova York


Jornais dos EUA passam por período de maior retração


‘Mesmo para um setor mergulhado em más notícias, a indústria de jornais americana vem passando por um dos seus períodos de maior retração nas últimas semanas. Meia dúzia de jornais disseram nos últimos dias que devem reduzir suas folhas de pagamento, e um deles afirmou que vai terceirizar as operações de impressão. Além disso, o tradicional Tribune Co., uma das maiores publicações dos Estados Unidos, disse que deve vender seu quartel-general em Chicago, um ícone do jornalismo, além do prédio que abriga o Los Angeles Times.


O rápido e abrangente declínio do setor de jornais nos últimos meses surpreendeu até mesmo os analistas financeiros mais pessimistas. ‘Eles estão no ?modo de sobrevivência? agora’, disse Mike Simonton, analista de mídia da Fitch Ratings, agência de classificação de risco. ‘Temos expectativas muito amargas para o setor.’


Só na semana passada, cortes abrangentes de pessoal foram anunciados nos jornais The Hartford Courant e no The Baltimore Sun. Na Flórida, o The Palm Beach Post e o Daytona Beach Journal divulgaram que pretendem reduzir seus custos operacionais em 7%, por meio de sinergias. O mesmo deve acontecer com o The Detroit News e o Detroit Free Press. No The Boston Herald, até 160 funcionários serão demitidos, por conta da terceirização da impressão dos jornais. Uma semana antes, a McClatchy Co., dona do Sacramento Bee e outros jornais, anunciou um corte de 10% em sua equipe.


O Tribune anunciou na última quarta-feira que espera obter maior valor de seus imóveis ‘subutilizados’ em Chicago e Los Angeles, ampliando um programa de reajuste de custos para quitar dívidas de US$ 13 bilhões. O grupo também fechou um acordo para vender um de seus principais jornais, o Newsday, de Nova York. Segundo analistas, o Tribune tem dinheiro para pagar suas dívidas este ano, mas precisa dar um jeito de aumentar suas vendas para lidar com os débitos que estão para vencer em 2009.’


 


 


PUBLICIDADE
Marili Ribeiro


Em Cannes, prêmios perdem espaço para os negócios


‘O Festival Internacional de Publicidade de Cannes viu, este ano, as reuniões de negócios ganharem uma importância, em alguns casos, maior até mesmo que a das peças em disputa. Paulo Salles, presidente para a América Latina da rede de agências Publicis, por exemplo, admitiu sem constrangimento que, em uma semana no evento, não tinha conseguido ver um único rolo dos filmes comerciais ou qualquer trabalho em competição. ‘Desde que cheguei não faço outra coisa senão reuniões com clientes ou potenciais clientes’, disse ele durante o evento, que terminou no último dia 20.


Situação similar foi vivida por Fábio Fernandes, presidente da F/Nazca Saatchi & Saatchi. Perguntado sobre o que tinha visto no festival e para onde caminha a criatividade das peças publicitárias, foi direto ao ponto: ‘Não vi nada. Me pegaram para um monte de encontros de trabalho’.


Por trás dos trajes exóticos, das gravatas exageradas e pelo, por vezes, excessivo clima de descontração – na festa oficial de entrega dos prêmios havia publicitários envergando smokings e outros de tênis e jeans -, propaganda sempre foi um negócio em busca de lucros como qualquer outro. Mas o meio profissional sempre buscou enaltecer o núcleo de criação que, indiscutivelmente, está no cerne desse negócio de criar mensagens que cativem consumidores e os façam comprar produtos e serviços.


Nos últimos anos, o modelo de negócio vem sofrendo mudanças. Não só em função da consolidação dos grandes conglomerados de comunicação em busca de resultados para os acionistas, mas também em conseqüência da expansão das novas mídias digitais. A internet, em especial, permite rápida difusão de informação sobre as reações do público, e isso requer dos profissionais do meio outros padrões.


Os publicitários, por exemplo, estão voltando para o banco escolar. Em Berlin, na Alemanha, foi criado um MBA voltado para o segmento que formou, no ano passado, a sua primeira turma, com 20 publicitários de todo o mundo, entre os quais um brasileiro, Luis Sanches, da agência AlmapBBDO.


‘As agências em geral passam por um processo de transformação de gestão que as aproxima mais das referências dos outros negócios, como, por exemplo, aplicar controles operacionais’, avalia o engenheiro civil Fernando Mazzarolo. Ele fez carreira em postos executivos em empresas como Coca-Cola, Mead Johnson e Kellogg?s. Há menos de um mês passou a dividir a presidência da agência McCann Erickson com Adriana Cury.


Participando pela primeira vez do Festival de Cannes, Mazzarolo não escondeu que tem um olhar diverso do que se faz nesse negócio. ‘Propaganda boa é muito difícil de fazer’, disse. Agora, para que seja feita a boa propaganda, ele reconhece ser preciso vencer um certo medo de errar que ele vê na atual forma de se fazer anúncios no Brasil. ‘A nossa participação está mediana por aqui porque as agências estão contidas em arriscar e os clientes acomodados em avançar’, disse.


Mas, se a propaganda levada a Cannes não projetou o brilho que já teve no passado, os profissionais do meio não tinham do que reclamar. Foram os mais procurados. Uma das novidades que ganhou destaque este ano em Cannes foi a presença de headhunters atrás de profissionais do meio. Agências instaladas em mercados emergentes foram as que mais fizeram propostas. Os ingleses, por exemplo, dominam a publicidade tailandesa e são apontados como os responsáveis pelo sucesso na premiação obtida pelo país. Nunca a Tailândia ganhou tantos Leões como neste ano.


Um dos mercados que vêm se abrindo também é o da Rússia. E nele os brasileiros estão agradando. Já há cinco que se esforçam para dominar o idioma. Andreas Toscano, que trabalhou na DM9DDB e Loducca no Brasil, foi para lá a convite da rede Lowe. Há três anos fora do País – trabalhou também na Ucrânia -, não tem dúvidas de que o mercado externo está favorável para os brasileiros. ‘Não faltam convites. Tenho vários amigos trabalhando no leste europeu.’


Não é para menos. Na semana passada, um dos maiores grupos do setor, o WPP, divulgou os resultados do primeiro trimestre do ano. A região do leste europeu foi a que mais cresceu, 21% no período, ante 14% da América Latina e 8% da Ásia.’


 


 


TELEVISÃO
Patrícia Villalba


Da realidade à fantasia


‘Jornalista, Andrea Maltarolli diz que resolveu se tornar novelista porque não via tanta graça em escrever sobre o mundo real. Não é à toa, então, que Beleza Pura, a novela das 7 da Globo que leva sua assinatura, seja uma comédia romântica na qual a graça está acima de qualquer apego à realidade.


No momento, por exemplo, fazem sucesso as peripécias de Olavo (Reginaldo Faria), que sobreviveu a um acidente de helicóptero e, sem memória, acha que é um índio. Ao mesmo tempo, Helena (Mônica Martelli) se veste de homem para poder trabalhar e confunde o Dr. Renato (Humberto Martins), médico machão. O público torce pelo romance, enquanto o pobre Dr. Renato duvida da própria masculinidade. E para dar um tempero especial, entra em cena Rakélli (Ísis Valverde), que é linda e deliciosamente ingênua.


Não há novidades de formato, mas um frescor no texto de Beleza Pura, primeira novela de Andrea, e que teve Silvio de Abreu como supervisor nos primeiros 30 capítulos. Uma novela daquele tipo em que o mocinho (Guilherme, Edson Celulari) está quase conquistando a mocinha (Joana, Regiane Alves) quando algum mal-entendido devolve tudo à estaca zero.


Ao contrário de muitos de sua geração, Andrea não cresceu vendo novelas porque para a mãe, professora, não era coisa para criança ver. A falta de um berço televisivo, digamos assim, não a impediu de sair vitoriosa da Oficina de Autores da Globo, em 1994, depois de decidir largar o emprego na editora Bloch para ser roteirista de TV. A chance de estar entre os que tentavam uma vaga de autor da Globo veio de um curso nada ortodoxo: ‘Uma amiga era vizinha do Antônio Grassi, que jogava no lixo os roteiros da novela em que atuava. Eu precisava saber como as novelas eram escritas, então ela pegava da lixeira dele, e me dava. Foi assim que aprendi’, confessa ela.


Seu trabalho final de curso, desenvolvido ao lado de Emanuel Jacobina, foi o projeto de Malhação, a novela para adolescentes. ‘Eu queria trabalhar com humor, mas acabei me dando conta de que o tipo de humor que eu queria fazer só poderia ser feito em novela’, explica a autora, que recebeu o Estado no seu apartamento, no Arpoador.


Antes da estréia da novela Beleza Pura, você disse que não estava nervosa e que quando ficasse, avisaria. Já que não avisou, quer dizer que está tudo bem?


Está. Mas, na verdade, não tive tempo de ficar nervosa. O único tempo que eu tenho tirado é para dormir.


Você escreve a novela com uma equipe de cinco pessoas. Já pode dizer que prefere esse modelo ou pensa que é possível escrever uma novela sozinha?


Quando eu não sabia o que era televisão, pensava que os autores escreviam sozinhos. E eu era jornalista, então não estava acostumada a dividir um texto com ninguém. Por mim, escreveria até sozinha, mas tem duas coisas: não dá tempo e é legal ter outras cabeças pensando com você, enriquece o texto. Às vezes, estou escrevendo e me lembro de tal personagem: ‘Ih, onde parou mesmo a história de fulano? Ih, há três capítulos ele parou no meio de um gesto…’


Beleza Pura tem 30 personagens, é, portanto, uma novela enxuta. Há mesmo um movimento na Globo pela redução dos elencos?


Não tem piquete na porta da emissora nem abaixo-assinado por causa disso. Acho que é uma coincidência que as novelas que estão no ar agora tenham poucos personagens. Eu gosto mais assim e o João Emanuel (Carneiro, autor da novela das 9, ?A Favorita?) também gosta de fazer com pouca gente.


Por que prefere tramas com poucos personagens?


Gosto de contar assim porque eu gosto de concentrar as histórias e desenvolver bem os personagens – adoro trabalhar os personagens. Quando são muitos, sobra pouco espaço para cada um deles. E se você dispersa muito, fica a impressão de que você está num mundo, não numa família.


Novelas passaram a ter muitos personagens, ficam mais tempo no ar, os capítulos são mais longos. Daí, o espaço a preencher é maior. Posso concluir então que, para você, esse espaço não parece tão grande?


É sim! Mas acho que não é necessário ter muitos personagens para preencher esse espaço. Quantas pessoas tem a sua família?


Seis.


É um núcleo pequeno e, aposto, vive acontecendo história, não se esgota. Em Malhação, fiquei praticamente dois anos com os mesmos personagens.


E qual é a diferença fundamental entre escrever Malhação e uma novela como Beleza Pura?


É que Beleza Pura um dia vai acabar. E teve um começo. É, então, começo, meio e fim. Malhação não é assim. Tem um final de temporada, mas tem meio o tempo todo, você sempre herda personagens da temporada anterior. O público também é bem diferente.


Já teve de fazer mudanças de planos em Beleza Pura, por causa da repercussão dos personagens?


Não, fiz acréscimos. Não ia investir tanto no romance de Helena/Mateus e Renato. Mas as pessoas gostaram muito, e querem ver o casamento dos dois. E tem também a Rakélli. Não mudei nada no personagem, mas investi mais nele.


E quando decidiu ser novelista?


Quando eu era jornalista, achava tudo exaustivo, difícil. Pensava que seria bom se pudesse inventar as reportagens, mas não dá para inventar sendo jornalista. Trabalhei em várias revistas da Editora Bloch, uma mais chata que a outra. A que fiquei mais tempo foi uma revista feminina de serviço, chamada Mulher de Hoje. Por isso, acho que é fácil para mim escrever sobre beleza para a novela – até hoje uso as matérias que fiz. Um dia, no elevador da Editora Bloch, eu encontrei um pessoal da extinta TV Manchete, que fazia novela. Pensei: ‘Taí, é isso que eu quero fazer.’’


 


 


Keila Jimenez


Digitalização na faixa


‘Cinco anos. Esse é o prazo estipulado pela RedeTV! para que a TV digital, que ainda não emplacou, chegue para valer às casas de classe média do País. Enquanto o futuro não vem, a emissora festeja hoje em evento, com a presença de autoridades e de grandes agências e anunciantes, o fato de já estar toda digitalizada.


‘Essa história de que a TV digital ainda não emplacou me lembra o mesmo papo que surgiu com a chegada da TV em cores, depois do videocassete e, mais adiante, com o DVD’, fala o vice-presidente da emissora, Marcelo Carvalho. ‘Não há como fugir dessa tecnologia. No Japão, acaba de ser fechada a última fábrica de TV com tubos de imagem’, continua. ‘Aqui, quando as TVs de plasma e LCD baratearem para valer, a coisa anda. Não tem nem a ver com o preço do conversor.’


No evento de hoje, a RedeTV! pretende incentivar o mercado a produzir filmes em alta definição, prometendo a digitalização desse material, de graça. ‘A Globo diz que sairia uma fortuna digitalizar todos os comercias. A gente vai fazer isso sem custo nenhum’, provoca Carvalho. ‘Assim, atraímos mais anunciantes e saímos na frente.’’


 


 


Etienne Jacintho


Mixer exporta formato para dois países


‘A Mixer vai exportar formato para México e Argentina. Trata-se do programa TNT + Filme, co-produção com a Turner. A atração, aqui apresentada por Rubens Ewald Filho e Virgínia Cavendish, será feita nos dois países, em espanhol e com apresentadores locais, claro. A produtora, que tem parcerias de sucesso há tempos com GNT e Multishow, está emplacando produções fora da Globosat, com Discovery, Turner e Eurochannel, entre outros. Hoje, às 23 horas, estréia a série Destino: Lua-de-mel, em 14 episódios, no Discovery Travel & Living.’


 


 


CINEMA
Roberta Pennafort


A Lapa é do samba, hip-hop, funk…


‘A Lapa é o cenário da renovação do samba carioca, certo? Sim – mas a definição nem de longe dá conta de tudo que acontece sob seus arcos. A Lapa do pandeiro e do cavaquinho é a mesma do hip-hop e do funk. É por onde circulam rappers, MCs e os muitos fãs das letras vigorosas e rimas improvisadas que brotam de suas batalhas musicais. Para mostrar quanta coisa boa sai desse caldeirão sonoro, os jovens cineastas Cavi Borges e Emílio Domingos apontaram sua câmera para a L.A.P.A. É assim, letra por letra, que os rappers pronunciam o nome da região, e é esse o nome de seu documentário.


Exibido timidamente na última Virada Cultural, L.A.P.A, o filme, já circulou por festivais no Brasil, na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Holanda, e deve participar do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, em agosto. Na terça-feira, foi exibido no Oi Futuro, no Rio, para uma platéia onde estavam alguns de seus personagens principais: os rappers Funkero, Iky Castilho, Marechal e Chapadão.


O documentário é resultado de dois anos de filmagens, período no qual Cavi e Emílio seguiram esses e outros rapazes pelas esquinas da Lapa e pelos bairros onde moram – em geral, bem distantes de lá: Funkero, por exemplo, é do Jardim Catarina, em São Gonçalo (recentemente se mudou pra Lapa); Marechal é de Itaipu, em Niterói, e leva duas horas de ônibus para chegar ao centro do Rio.


Mas por que a Lapa como eixo narrativo? ‘Percebemos que era um lugar para onde todos eles convergiam. Acabou virando um personagem do filme’, explica Cavi. ‘A gente percebe que o rap do Rio tem influência do reggae e do rock e isso tem a ver com a interferência da Lapa, porque lá tem de tudo.’


O ponto de partida dessa história foi a festa Zoeira, realizada num casarão da Rua do Riachuelo entre o fim de 1990 e início de 2000, reunindo-os, eles e muitos outros aficionados por hip-hop. Hoje em São Paulo, a festa era pouso certo de Marcelo D2, outro que participa do filme. ‘O rap do Rio nasceu na Lapa. Aqui sempre foi um ponto de referência, porque tem ônibus pra tudo quanto é lugar’, diz D2. B Negão, também ex-Planet Hemp, e o rapper Black Alien dão depoimentos.


Em 2000, o cientista social Emílio já havia rodado o documentário A Palavra Que me Leva Além, focado no hip-hop carioca. Agora, volta ao tema. ‘Os MCs são personagens incríveis. Têm um circuito próprio, conseguem sobreviver de música com muita dificuldade, pela paixão pela poesia’, acredita Emílio, que também atende pela alcunha de DJ Saenz Peña – ele é um dos criadores da Festa Phunk!, há sete anos na Lapa.


‘Pra mim, a Lapa foi a escola. Eu vejo essas imagens da Zoeira e dá uma saudade… Acho que o hip-hop mudou, e pra pior’, opina o MC Marechal, que começou a circular por ali há dez anos, quando era um garoto de 17. Na Zoeira, fez de tudo; foi de porteiro a DJ. ‘Comecei a mandar o rap que inventava na hora.’ Marechal já compôs mais de 300 músicas. Em Espírito Independente, resume: ‘Não sei fazer o som do momento/ mas sei fazer do momento um som.’’


 


 


AP


Sindicato dos atores ameaça entrar em greve


‘Os atores ligados ao sindicato americano podem entrar em greve amanhã, iniciando um movimento que voltará a assombrar a indústria cinematográfica e de televisão, depois da greve levada pelos roteiristas até o início do ano. Como termina hoje o contrato entre o Sindicato dos Atores (SAG) e a Aliança de Produtores de Filmes e de Televisão, sem que as negociações ocorridas nas últimas semanas tivessem avançado, a ameaça de greve não foi descartada e poderá ser seguida por eletricistas, cenógrafos e cozinheiros. A paralisação certamente comprometeria a estréia dos programas previstos para estrear em setembro.’


 


 


CHINA
Matthew Shirts


Aprenda a falar o inglês maluco


‘Há quem reclame que o mundo está plano; a experiência, cada vez mais homogênea. Quem viaja entre grandes capitais, de avião, já teve essa sensação. Sai de um hotel para o aeroporto e chega a outro. No caminho, passa pelas mesmas lojas, vendendo produtos iguais em vitrines semelhantes. As notícias se espalham por televisores ligados à CNN em todas as partes. O futuro já chegou e se parece com Dubai.


A globalização nivela os povos. Mas aproxima as culturas, destacando as diferenças, também.


Nunca estive na China. O processo de incorporação daquele país ao capitalismo mundial me fascina, no entanto. A velocidade e escala da transformação tiram o fôlego. Encontrei na revista New Yorker, de 28 de abril, reportagem sobre o esforço dos chineses para aprender o inglês a tempo de se comunicarem com os estrangeiros que vão para lá assistir às Olimpíadas. Não podia deixar de notar as particularidades culturais. Tentam dominar a globalização. Mas ao fazê-lo, tornam-se, ao que parece, cada vez mais chineses.


O grande astro do ensino de inglês na China chama-se Li Yang. Tem 38 anos. Vendeu já milhões de livros. Viaja o país dando cursos, muitas vezes em auditórios para 10 mil alunos de uma só vez. Seus fãs ficam emocionados ao encontrá-lo. Suas aulas geram a mesma energia de shows de rock, provocando frenesi e crises de choro. É comparado a Elvis. Li Yang deu o nome de ‘inglês maluco’ ao seu método de ensino, o ‘crazy english’, também conhecido como ‘inglês falado aos berros’ pelos menos entusiasmados.


Segundo a reportagem, de Evan Osnos, correspondente em Beijing, Li Yang incentiva os alunos a gritar mesmo. É um dos ‘segredos’ do seu sucesso. Gritar o inglês, de acordo com Li, é uma maneira de desenvolver os ‘músculos internacionais’. Seu método de ensino combina auto-ajuda com nacionalismo. Muitos alunos na China estudam o idioma de Shakespeare durante anos sem conseguir falar nada. São tímidos demais. Li motiva-os a soltar a língua, aos berros. É uma maneira de vencer o acanhamento e fortalecer o país ao mesmo tempo, segundo o professor. Ele ensina inglês, diz, para fortalecer a China.


O astro do ensino do inglês não é fã do Ocidente. Seus alunos aprendem o idioma porque ‘têm pena dos que não conseguem falar chinês’. Os Estados Unidos, a Inglaterra e o Japão não querem uma China forte, diz ele na página principal do seu site. ‘O que eles mais querem é que a juventude chinesa deixe o cabelo crescer, use roupas estranhas, beba refrigerantes, ouça música ocidental e perca seu espírito de luta em nome do prazer e do conforto.’


Alguns ficam preocupados com essa mistura peculiar de nacionalismo, auto-ajuda e ensino de idioma estrangeiro. O romancista Wang Shuo escreve, em um ensaio sobre Li: ‘É uma bruxaria antiga: chame uma multidão, incite-a com palavras e gerará um sentimento de poder capaz de mover montanhas…’ Pode acabar em racismo, isso, de acordo com o escritor.


Seja como for, e não sou capaz de julgar, li apenas a reportagem na New Yorker, é curioso, convenhamos. Só na China, quero crer, seria possível um nacionalismo baseado no ensino de uma língua… estrangeira, e o inglês, ainda por cima.


No século 20, os movimentos nacionalistas cultivavam os próprios idiomas. No caso brasileiro, alguns integralistas chegaram a defender o uso do tupi-guarani. Segundo a reportagem, Li Yang pretende agora abrir o Starbucks do ensino da língua inglesa. Nas suas palavras, ‘as pessoas sairiam do trabalho e passariam no Centro de Treinamento do Músculo Lingual Inglês Maluco’, uma espécie de academia de ginástica do idioma. Arnold Schwarzenegger poderia ser o garoto-propaganda, depois de terminar seu último mandato como governador da Califórnia, mas esta é apenas uma sugestão minha.


No meu caso, como já falo inglês, e desde pequeno, acho que vou poder ficar no Starbucks mesmo. O século 21 promete.’


 


 


 


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Folha de S. Paulo


Segunda-feira, 30 de junho de 2008


 


FOTOGRAFIA
Fernando Barros e Silva


Aquele abraço


‘SÃO PAULO – A imagem do abraço emocionado entre Fernando Henrique e Lula no velório de Ruth Cardoso comoveu muita gente, além dos amigos. Primeiro, pela expressão de dor inconsolável do ex-presidente, mas também pela intensidade espontânea do carinho recíproco que fotógrafos puderam registrar.


A cena também provocou, é verdade, reações mesquinhas de algumas poucas figuras malsãs, prontas a denunciar a hipocrisia e outras conveniências do teatro político naquele gesto de solidariedade.


O que prevaleceu, contudo, reforçado pela menção do próprio Lula aos ‘fortes laços entre PT e PSDB’, foi o sentimento de cumplicidade, que da esfera afetiva logo derivou, de lado a lado, para comentários cujo resumo seria uma indagação em tom de lamento: se somos tão parecidos, por que não estamos juntos?


Destampados pelo trauma da perda de uma vida exemplar, vieram à tona na Sala São Paulo a história comum, as identidades, o fato de que, a despeito de eventuais divergências, seriam todos membros da mesma família, alguns próximos, como irmãos queridos, outros primos distantes, sem grandes afinidades e com reservas recíprocas -afinal, parente também é serpente.


Na vida real, porém, as coisas não parecem pender para posições esclarecidas, como a do prefeito de BH, Fernando Pimentel. Está certa Eliane Cantanhêde ao dizer que ‘a foto, tão forte, remete ao passado, mas não projeta o futuro’.


Mais do que isso, é como se a imagem do abraço de FHC e Lula nos devolvesse o tamanho real de suas figuras, como se, naquele instante, ficasse evidente que ambos foram e serão mais importantes ‘na história deste país’ do que o presidente que um já foi e o outro ainda é.


Que esse reconhecimento seja acompanhado pela relativa frustração com o que realizaram no poder faz parte do show brasileiro. Entre nós, mesmo quando avança, a história carrega as marcas do atraso e deixa de cumprir promessas que acumulou. Isso já dizia um jovem sociólogo no início dos anos 60.’


 


 


TELES
Valdo Cruz


Santa incompetência!


‘BRASÍLIA – Pequeno exemplo de como a ineficiência administrativa e a disputa política dentro do governo federal, não necessariamente nessa ordem, ferem os interesses do próprio governo e prejudicam o setor privado.


No início de junho, o governo descobriu que sua incompetência e/ou descaso com as agências reguladoras estava atrasando a oficialização de uma operação estimulada por ele mesmo: a fusão das teles Brasil Telecom e Oi.


Faltava um conselheiro na Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) para acabar com um impasse na votação da proposta que permitirá a formalização do negócio. De uma vaga aberta desde novembro de 2007.


Depois de pressões palacianas, com a ameaça de indicação de um conselheiro substituto, que não precisa passar pelo Senado, a Anatel tomou uma decisão no dia 12 de junho. Só que o texto não agradou nem governo nem mercado.


Tudo bem, confidenciaram assessores presidenciais. Em breve sairia a indicação do quinto conselheiro da agência, que mudaria a proposta. Passados quinze dias, tudo está como antes.


Inacreditável. Oito meses e o governo não tomou a simples decisão de encaminhar ao Senado o nome do conselheiro escolhido. Se o Planalto não sair da sua lerdeza, em agosto a Anatel se reúne de novo para aprovar o texto final com seu conselho ainda incompleto.


Afinal, daqui a duas semanas o Senado entra em recesso. Em agosto, com eleição, será difícil juntar político por aqui. Quem sabe a indicação sai nessa semana. Dizem que o nome já está escolhido, de Emília Ribeiro, com apoio do PMDB, apesar das resistências de Dilma Rousseff (Casa Civil).


Mesmo assim, o governo terá de correr contra o tempo. Caso contrário, terá de cumprir a ameaça de indicar um conselheiro substituto. Será acusado de interferir nos rumos da agência. Não poderá se queixar. Terá se enrolado na sua própria incompetência.’


 


 


TODA MÍDIA
Nelson de Sá


Aqui, ‘você fez dinheiro’


‘O primeiro semestre de 2008 termina hoje. Para a manchete do site do ‘Financial Times’, ontem, foi ‘uma carnificina’, o pior semestre em 26 anos para o mercado financeiro. Na home page do ‘Wall Street Journal’, ontem, avaliação semelhante -de que foi ‘um primeiro semestre áspero’ (rough) e o segundo, sem sinal de recuperação, promete ser igual ou pior.


Mas não no Brasil, segundo o ‘FT’. Em outras duas reportagens, para mostrar o que se salva, registrou que, ‘essencialmente, se você está em commodities, no Brasil e no Oriente Médio, você fez dinheiro’. Dá como exemplo a britânica BG, que tem parte de Tupi.


‘A NÚMERO 1?’


Ken Heebner, recém-eleito ‘o investidor mais quente da América’ pela ‘Fortune’, diz que a Petrobras caminha para ser a empresa de maior valor da Terra. ‘A número 1’, noticia a ‘Newsweek’. Entrevistado no CNBC (acima), ele detalha que em cinco anos a estatal brasileira vai crescer de cinco a dez vezes.


Daí por que o que mais ecoou de Brasil no fim de semana, nos sites de busca de notícia e agências dos EUA à China, seja o anúncio pela Petrobras de que vai ‘começar a bombear petróleo na Nigéria’ em julho, do seu campo de Agbami.


E daí por que, diz Lauro Jardim, ‘o esporte preferido dos líderes do PMDB é mandar a borduna em cima do presidente da Petrobras’. Por ‘cargos, cargos e cargos’.


EM CAMPANHA


O encontro de Lula e Hugo Chávez foi noticiado por Dow Jones, Xinhua e outras com atenção para a compra de gás venezuelano, pelo Brasil, e para a injeção, no Banco do Sul, de US$ 2 bilhões cada um.


Mas o que ganhou destaque por Market Watch e outros foi a informação, por Chávez, de que não vai elevar o preço da gasolina na Venezuela, que é subsidiado. Diz a Bloomberg que o candidato chavista a prefeito de Caracas, no pleito de novembro, lidera a corrida.


DÍVIDA E DECLÍNIO


Thomas L. Friedman, do ‘New York Times’, escreveu ontem sobre a ‘ansiedade’ dos americanos com seu país ‘em dívida e em declínio’. Ele mesmo se diz angustiado, pois democratas e republicanos não acertam uma estratégia para ‘a nova indústria global -energia renovável e limpa’.


Se Friedman segue devoto de combustíveis alternativos, a ‘Newsweek’ ataca o etanol brasileiro. Agora, às portas da reunião do G8 no Japão, com o Brasil, para voltar à pressão.


SEM ‘ARMAGEDDON’


O ‘NYT’ entrou no jogo nacionalista que enredou InBev e Anheuser-Busch. Diz que a promessa da primeira, aos acionistas da segunda, de fazer da Budweiser uma marca global já deu errado antes. A Brahma, ‘popular no Brasil’, três anos após ser lançada no exterior pela mesma InBev, se firmou em ‘poucos mercados’.


O mesmo ‘NYT’ saúda o recém-lançado ‘Globality’ (acima). O livro diz que o ‘Armageddon econômico’ dos EUA não está tão perto quanto a invasão emergente faz crer. Por exemplo, a Whirlpool demorou a entender, mas afinal criou uma lava-roupas barata e venceu no Brasil.


GUERRA ELEITORAL


A nova ‘The New Yorker’ publica reportagem de Seymour Hersh, sob o título ‘Preparando o campo de batalha’, que detalha ‘operações sem o conhecimento e o controle dos comandantes militares’ dos EUA, contra o Iraque, ordenadas pelo ‘governo Bush’, diretamente’


 


 


TELEVISÃO
Daniel Castro


Novela terá ‘Kill Bill’ para seduzir jovem


‘Próxima novela das seis da Globo, ‘Negócio da China’ vai lutar muito pelo público jovem. Literalmente. Terá um núcleo de lutadores de kung fu, arte marcial chinesa disseminada pelos filmes de Bruce Lee.


Para tornar a luta ainda mais atraente aos jovens, ela terá elementos de ‘Kill Bill’, filme repleto de referências pop contemporâneas. ‘Vamos brincar de ‘Kill Bill’, de uma forma bem pop, legal, com uma história interessante’, diz o autor, Miguel Falabella. Por causa do horário, as lutas se limitarão a coreografias. ‘O kung fu vai ser um balé’, anuncia Falabella.


Pesquisas da Globo indicam que o jovem urbano está assumindo o comando do televisor na faixa das 18h. Quando a novela do horário não lhe interesse, ele troca a TV pela internet. Isso justificaria a relativa baixa audiência de ‘Ciranda de Pedra’, que tem registrado menos ibope do que ‘Malhação’.


Na novela de Falabella, um golpista desvia 1 bilhão da máfia chinesa, que passa a persegui-lo. Antes de morrer, ele esconde o pendrive com as informações de onde está o dinheiro na bolsa de uma portuguesa em viagem para o Brasil.


A trama terá gravações em Portugal e em Macau. Será ambientada no Rio e em São Paulo _estratégia da Globo para agradar à audiência paulistana.


Com estréia prevista para 6 de outubro, ‘Negócio da China’ enfrenta dificuldade na escalação da protagonista.


DEGELO Carlos Massa, o Ratinho, terá uma última chance no SBT. Voltará ao ar em julho, com um programa popular, das 14h às 18h dos sábados. O contrato de Ratinho vence no final do ano. Silvio Santos achou melhor aproveitá-lo e desistiu de contratar Netinho de Paula.


ENCOMENDA A troca de mensagens eletrônicas em que um funcionário da Globo passou informações sigilosas à Record começou com um e-mail de um profissional da rede de Edir Macedo.


GUERRA A Gazeta enviará hoje à Sky notificação pleiteando a distribuição de seu sinal. Até 2006, a Gazeta era carregada pela DirecTV, que se fundiu à Sky. A Gazeta se queixa de discriminação. A Sky não comentou.


BAFO 1 O Ministério da Justiça advertiu a Globo pela exibição de ‘Os Simpsons’ pelo ‘TV Globinho’. O problema foi a exibição do selo ‘livre’ durante o desenho, classificado como impróprio para menores de dez anos. Como a faixa de dez anos não é atrelada a horário, ‘Os Simpsons’ pode continuar às 11h30.


BAFO 2 O ministério também questionou a falta de classificação para o ‘TV Globinho’, o que a Globo foi providenciou.


UHUUU Festa na TV Brasil. A emissora pública federal finalmente saiu do traço no Ibope. No último dia 16, o ‘Repórter Brasil’ foi visto em 1,7% dos domicílios do Grande Rio. A TV ainda não tem data para estrear em sinal aberto em São Paulo.’


 


 


Audrey Furlaneto


‘Guia’ é olhar frívolo da mulher moderna


‘As mulheres modernas guardam, em belas bolsas Gucci, Prada e afins, apenas questionamentos… sobre qual será a próxima bolsa -ou o próximo marido. Não, marido, não. Elas se perguntam quem será o próximo: caso, cabeleireiro, maquiador ou amigo gay. Ao menos é assim que elas são pintadas (e muito pintadas) no ‘Guia de Sobrevivência da Mulher Moderna’, série canadense que o GNT estréia hoje.


O cenário é a produção de um programa fictício, o ‘Smart Woman’, com uma apresentadora com mania de grandeza (Tricia Braun) que, adivinhe, dá conselhos à mulher moderna.


A sinopse: Lana, a apresentadora, fala muito de sexo, mas não quer namorar; Brooke (Joanne Alderson) tem medo de se apaixonar, mas está à caça de sexo; Liz (Siobhan Murphy) quer o pacote sexo-amor, e Natalie (Laura McLean) não sabe o que quer.


Se o espectador acredita que as inquietações da tal mulher moderna vão além disso, o seriado serve, então, para rir, certo? Errado. Não há nada de natural na interpretação das mulheres frívolas que possa provocar o riso. O seriado é esquemático e elas não escondem que estão interpretando. Nele, a mulher moderna não sofre -ou sofre apenas por casos e bolsas.


GUIA DE SOBREVIVÊNCIA DA MULHER MODERNA


Quando: estréia hoje, às 23h30; classificação indicativa não informada


Onde: no GNT’


 


 


REVISTA
Mônica Bergamo


Só para altinhos


‘A ex-’BBB’ Natália Casassola, que posou para a capa da ‘Playboy’ de julho em imagens com tema ‘campestre’, na serra do Rio do Rastro (SC), diz que foi Xuxa quem deu a idéia do ensaio. A apresentadora, inclusive, chegou a mandar para ela dez imagens de modelos vestidas de camponesas em um gramado, que depois foram enviadas como referências à equipe da revista.’


 


 


Álvaro Pereira Júnior


Seja bem-vindo a uma revista do contra


‘‘ENFRENTAR AS vacas sagradas, divertir as pessoas, e regularmente dar uma bela chacoalhada no status quo.’ Eu gostaria de ter escrito essa frase, porque ela poderia ser o lema de Escuta Aqui. Mas o autor é Maer Roshan, editor-chefe da revista americana ‘Radar’. A filosofia da ‘Radar’ tem origem direta na ‘Spy’, revista dos anos 80/90 que, a partir de Nova York, ao mesmo tempo desafiou e encantou o mundo ‘hip’.


Se existisse hoje, estaria satirizando Obama, ‘Lost’, Radiohead, Anderson Cooper (jornalista), Junot Diaz (escritor), só para ficar em algumas unanimidades. E não pense que a ‘Spy’ -e sua filhote ‘Radar’- se alimentam de rancor ou de ressentimento. Têm sangue nos olhos e veneno nos dentes, é verdade, mas seu combustível é o que se poderia chamar de mordacidade esclarecida. A criatividade ‘do contra’, com sofisticação.


A edição de maio/junho da ‘Radar’ traz na seção de cartas uma foto da über-bruxa Anna Wintour, editora-chefe (‘editrix’, para a ‘Radar’) da revista ‘Vogue’, inspiradora do filme ‘O Diabo Veste Prada’. Na imagem, Wintour está ao celular, cercada de cadeiras brancas vazias, sozinha. Legenda: ‘Anna Wintour e amigos’. Entendeu?


O texto de Maer Roshan foi escrito para comemorar que a ‘Radar’, publicação independente, ficou entre as cinco finalistas do principal prêmio americano para revistas, o National Magazine Award. Foi surpresa, especialmente para quem há pouco tempo enfrentava sérios problemas de grana. Acabou não ganhando (o prêmio foi para a ‘Mother Jones’, encrenqueira e politicamente correta). Mas a indicação já foi uma vitória.


Minha geração foi muito influenciada por revistas, a ponto de você pertencer a esta ou àquela tribo (detesto a palavra) conforme as revistas que lia. Continuo viciado nelas, mas cada vez mais me dou conta que lê-las é coisa de museu. São publicações como a ‘Radar’, tão inteligente, que espantam essa sensação.’


 


 


ERROS
Laura Mattos


Cia. das Letras faz recall de livro de Borges


‘A Companhia das Letras anunciou um recall (chamada para realização de trocas) do livro ‘O Fazedor’, do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986).


A decisão foi tomada pela editora em razão de 12 erros de grafia encontrados em poemas publicados em espanhol -a edição traz também tradução dos textos em português.


O procedimento de recall, cada vez mais comum em outras áreas, especialmente no mercado automobilístico, ainda é raro no meio literário. O mais comum é que as editoras, após descobrirem os erros, coloquem adesivos com uma ‘errata’ nos exemplares à venda.


‘É a primeira vez que fazemos recall. Com esse número de erros, poderíamos ter optado por colocar uma errata, que é o procedimento que normalmente se adota. O custo do recall certamente será bem maior para nós, mas não queríamos deixar essa edição com errata. ‘O Fazedor’ é um dos livros seminais do Borges’, afirmou Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras.


O livro custa R$ 29.


De acordo com Schwarcz, os erros foram conseqüência de falhas no processo de revisão feito por meio de computador.


A convocação aos leitores foi divulgada no último sábado, em anúncio publicado na Folha. O comunicado fala na troca da edição ‘impressa em março de 2008’. Na verdade, qualquer exemplar de ‘O Fazedor’ da Companhia das Letras contém os erros e pode ser trocado, mesmo alguns que marcam abril como data de impressão. Até agora, segundo Schwarcz, só houve essa primeira edição da obra, com 3.000 exemplares.


Os livros devem ser trocados nas livrarias nas quais foram adquiridos. Schwarcz explicou que a Companhia das Letras também poderá realizar a substituição, no caso, por exemplo, de alguém que recebeu o livro como presente e não sabe onde o exemplar foi adquirido. O telefone da editora é 0/xx/11/ 3707-3500 e o site, www.companhiadasletras.com.br.


A versão corrigida, diz o anúncio, trará a indicação ‘1ª edição’ na página 3. A Companhia ainda não definiu o que fará com os exemplares devolvidos. É possível que sejam doados, com erratas, a bibliotecas.’


 


 


 


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Primeira Página


Segunda-feira, 30 de junho de 2008


 


SOLANGE RECH
Deonísio da Silva


Solange Rech: profano, sagrado e misterioso


‘‘Calei muito/ e não fui reclamado:/ minha voz não era a esperada./ Mas, o que disseram/ durante o meu silêncio?’. (Alberto da Cunha Melo)


Há alguns autores que raramente encontraremos nos 2400 pontos de venda de livros no Brasil. Dois deles morreram recentemente: o pernambucano Alberto da Cunha Melo e o catarinense Solange Rech, para minha sorte meus queridos amigos os dois. Cada vez que começo a escrever sobre eles, meus olhos molham e não sai nada. Vou tentar escrever apenas sobre Solange Rech. Vamos ver se hoje o texto sai.


Gosto do olhar das pessoas. Alberto tinha olhos como âncoras. E Solange tinha olhos-hélices. As amadas são âncoras ou hélices. Isto é, firmam o amado em seguranças das quais ele se descuida na navegação da vida ou o empurram adiante para voar. As duas esposas estão cuidando da memória desses dois poetas. Pois alguns amados preferem navegar; outros, voar.


Em boa hora a UNISUL, resolveu manter a defesa da dissertação de mestrado de Solange Rech, a ocorrer em Florianópolis, dia 27 deste junho.


O orientador foi Antonio Carlos Gonçalves dos Santos, professor de sólida formação intelectual, que lê bem, entre outras línguas, grego e alemão. Lauro Junkes, conhecido crítico literário e historiador da literatura catarinense, e o autor desta coluna integrarão a banca examinadora. Será uma defesa póstuma. Solange Rech se defenderá como sempre se defendeu quando vivo e como continua a defender-se depois que morreu: com a palavra!


O tema de sua dissertação é a teoria do soneto. Assim, não veremos aqueles belos versos que em vida o poeta produziu e que tanto nos alegraram. Na verdade, veremos um soneto do autor, na epígrafe, dedicado a Téia, sua esposa, que começa assim: ‘Tu és, amada minha, a mesa posta/ Do amor intemporal que me alimenta’.


Ele pesquisou o soneto, que começa com o italiano Giacomo da Lentini, no século XIII, e chega ao século XXI.


Agradavam ao Solange Rech esses grandes olhares diacrônicos, a filosofia, a teologia e a teogonia pulsantes por trás das palavras, das rimas, dos versos de sete, oito, nove, dez, onze e doze sílabas, estes últimos mais conhecidos como alexandrinos. Receberam este nome porque surgiram na literatura francesa, no poema Le Roman d’Alexandre, escrito por Alexandre du Bernay.


Solange Rech recolheu o primeiro soneto impresso, escrito originalmente em italiano, cuja autoria é atribuída a Pier delle Vigne (1197-1249), que anuncia logo nos primeiros versos: ‘Però ch’amore non si pò vedere/ e no si tratta corporalemente’, ‘ch’amore si face sentire dentro dal cor signoreggiare la gente’. (O amor não se pode ver, e não se trata corporalmente, amor se faz sentir dentro do coração a governar as pessoas).


Quem inspirou estes versos a Delle Vigne foi um amor proibido, uma dama da corte de Frederico II, chamada Florismunda. Denunciado por ‘arrebatamento impulsivo’, perdeu o emprego no palácio e se suicidou. Dante Alighieri, na Comédia, conhecida como Divina Comédia depois das aulas de Giovanni Boccaccio, que sempre se referia à obra como ‘divina’, pôs Della Vigne no sétimo círculo do Inferno, que destinou aos suicidas.


Solange Rech foi nosso colega nos seminários de São Ludgero e de Tubarão. A Confraria de ex-seminaristas que se reúne periodicamente em Florianópolis, presidida pelo empresário José de Souza Patrício, e integrada por homens do direito como Jaime Sprícigo e Wilson Volpato (este sempre escreveu melhor do que eu, mas tem coisas mais úteis a fazer…), perdeu um de seus membros mais queridos. Gostava de conversar com ele, ateu de carteirinha, para, entre tantos sabores de sua prosa, reafirmar meu catolicismo.


Com ar resignado, com uma ponta de sorriso irônico, ao final dessas conversas me dava parabéns como quem me apresentasse os sentimentos pela morte de um ente querido, a razão: ‘você está ficando cada vez mais doido’. A mim sempre soaram como elogiosas estas palavras.


Mais doido, porém, foi aquele padre que, no primeiro dia do seminário, discretamente, abriu o pijama de Solange Rech enquanto ele dormia para ver se o pároco de sua aldeia não se tinha enganado e mandado uma menina para o seminário. Fez isso por causa do nome, pois Solange é, como Darcy, nome de homem e de mulher.


Não, não tivemos um Solange-Diadorim. Sua filha, Suzana, me mantinha informado das peripécias do pai num hospital de Curitiba, de onde enfim partiu para a eternidade.


Ela tem o timbre doce da voz do pai. Os filhos levam as vozes e a memória dos pais adiante, de geração em geração, é das leis da vida. E uma dessas leis levou Solange Rech.


Mas sua memória é eterna, sobretudo pelos belos sonetos que escreveu e também por este livro com que obterá o inédito título (póstumo) de mestre em Letras. Ele já era, de fato, mestre, há várias décadas! A Unisul agora reconhece esta verdade oficialmente.


Não entendo os meus amigos ateus. Eu os aceito, mas não os entendo. E sei que este sentimento é recíproco. Para mim, eles são paradoxalmente profanos, sagrados e misteriosos. Mas cada um de nós é um mistério, uma ilha no oceano da razão. E cada um de nós faz coisas de doido com estonteante freqüência.


Transcrito do jornal Primeira Página, São Carlos (SP), edição de 29 de junho de 2008, p. 2′


 


 


 


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