Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Cumplicidade informativa

Por Guilherme Azevedo em 07/12/2010 na edição 619

O relacionamento aberto e próximo, favorecido por redes sociais virtuais como o Twitter, o Facebook e o Orkut, estimula o estabelecimento de uma estrutura de ensino em que professor e aluno se tornam companheiros e cúmplices de uma mesma aventura pelo conhecimento. Bom que seja assim: porque as redes sociais virtuais corrigem um status já meio desgastado e obsoleto: o do professor como a principal fonte de conhecimento, numa posição superior.

Ao professor, por sua experiência e conhecimento específico, cabe, nos novos tempos, muito mais a posição de um apontador de caminhos que, às vezes, nem ele mesmo sabe aonde vão chegar. Não é mais ele o caminho, primordialmente. Com a parceria dos alunos, os itinerários sugeridos poderão se transformar em outros itinerários, com novidades no percurso e no ponto de chegada. Do ponto de vista do professor e do aluno, isso torna o ensino e a aprendizagem uma louca aventura, mais instigante e surpreendente, sem fórmulas prontas, sem GPS.

Com esse modelo que se consolida, o trabalho do professor deverá se distinguir, também, pela capacidade de identificar e explorar os conhecimentos que os alunos já detêm e compartilhá-los com toda a classe, com um objetivo comum. Naturalmente, se descobrirão afinidades e habilidades muitas vezes diferentes, entre os alunos; e o professor, então, será o profissional que colaborará para que essas mesmas potencialidades trabalhem complementarmente.

Paulo Freire tem tudo a ver

As redes sociais virtuais também podem acelerar a formação de uma comunidade de destino entre professor e alunos, isto é, a formação de uma rede com interesses e objetivos compartilhados, pois ciente de que somos todos interdependentes. A construção de conhecimentos, vista assim, sublinha o caráter de compromisso coletivo da produção do saber.

Via redes, também reunimos informação extra, que era, antes, dificilmente disponível: os alunos saem do anonimato e da invisibilidade, mercê do modelo anterior, cuja estrutura se baseava eminentemente em hierarquia e reputação estanques e isolava e ‘protegia’ o professor e distanciava sempre os alunos. Agora, cada um pode ser observado em sua individualidade, tanto alunos quanto professores. Sei quem são meus alunos, acompanho seu movimento íntimo, suas ideias, trajetória e eles me conhecem, dialogam comigo, igualitária e livremente. Não sou o professor distante, catedrático, imaculado. E não sei tudo, muito longe disso. Estou em constante e necessária evolução e conto com meus alunos para melhorar.

Essa estrutura sobre a qual deve se assentar a educação, a rigor, talvez não seja nova. A pedagogia do oprimido, de Paulo Freire, e seu ensino semeado no (re)conhecimento preexistente do aluno, tem tudo a ver com o momento. E parece-me muito mais honesto, democrático e efetivo esse modo de ensinar.

Um gestor de comunicação social

No caso do ensino do jornalismo online, em específico, a transformação da relação entre professor e aluno coincide com a mudança da relação entre jornalista e cidadão-leitor-telespectador-ouvinte. A relação quase sempre unilateral do jornalista, e das empresas jornalísticas, com o leitor-cidadão vai, paulatina e um tanto conflituosamente, desaparecendo, à medida que avançam as transformações do jornalismo na era digital.

Em posse de ferramentas de produção de conteúdo e beneficiado por uma mídia aberta e mais livre, a internet, o cidadão ganhou força como produtor de notícias, formas de participar (e corrigir, conforme o caso) notícias publicadas pelos grandes grupos de comunicação e, de modo geral, deu vazão à sua necessidade insubstituível de expressão.

Na preparação do futuro jornalista para esse novo contexto social e informativo, o incentivo e prática do trabalho jornalístico em rede é imprescindível. O futuro jornalista será o profissional com aptidão para articular, com as comunidades, relacionamentos baseados na confiança recíproca e coletar e organizar dados e temas para o debate.

Talvez tenha mesmo razão quem diz que o lugar do jornalista não seja mais nas redações como conhecemos, mesmo porque elas têm reduzido o tamanho ao longo dos anos, e sim, assentado diretamente nas comunidades, organizando, qualificando e articulando vozes. Um gestor de comunicação social.

Revalorização da informação

Certos atributos, contudo, não podem ser abandonados pelo futuro jornalista, esteja onde estiver, trabalhe com o que trabalhar, seja qual for a mídia: conhecimento e responsabilidade. Para que a profissão tenha validade, precisará ser percebida por sua qualidade intrínseca, técnica e humana, valor prático e cotidiano, relevância para um grupo bem carnal de cidadãos.

Aí, sim, talvez, ocorra a revalorização de um bem tão valorizado e necessário, mas curiosa e contraditoriamente tão desprezado nos dias de hoje: a informação propriamente dita, com tudo que tem de transformadora. Parece que o jornalismo vai virar jornalismo outra vez. Tomara.

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Jornalista

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