Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

ENTRE ASPAS > FÚRIA DA NATUREZA

Da lama moral à lama física

Por Walter Rossignoli em 05/01/2010 na edição 571

Talvez tristeza e perplexidade sejam as palavras com que o vocabulário nos acode para definir o sentimento que tomou conta dos brasileiros nestas primeiras horas do novo ano. A fúria irrefreável da natureza ceifou vidas e vidas não perdoando aos pobres, sempre os que mais sofrem, nem aos mais abastados. Uma pena!

Vêm os técnicos e mostram causas, dão lá suas explicações embasadas na ciência, que certamente ajudam a prevenir novos desastres, mas em nada amenizam a dor daqueles que ficam sem os seus entes queridos. Vêm alguns corajosos homens do poder, solidarizam-se, apontam falhas, prometem providências, mas o custo já foi muito alto.

E a mídia está aí a nos emocionar com tantas histórias e depoimentos que nos conscientizam a todos da enorme pequenez dos homens. Sandra Annenberg, na Globo, emocionou-se e improvisou muito, num telejornal certamente preparado para mostrar o belíssimo espetáculo de fogos da noite de réveillon. Uma noite em que Copacabana viveu sob o signo da paz.

Juiz de Fora, infelizmente, não passou incólume e as três vidas perdidas são a nossa triste cota nesse mar de sofrimentos.

Na sanha do lucro fácil

‘Estou mergulhado em um mar de lama.’ Essa imagem foi usada por Getúlio Vargas quando seu governo afundava em 1954. Sabedor do ato tresloucado de Gregório Fortunato e da corrupção no governo, o presidente valeu-se da metáfora. A lama era a corrupção… Getúlio se foi, mas o mar de lama da corrupção tem-se mantido por décadas e décadas, ora com mais visibilidade, como nestes tempos de democracia, ora mais recôndito, nos períodos de obscurecimento democrático. Lama, sempre lama! Não há quem não se entristeça com um noticiário repleto de crimes contra os impostos pagos pelo cidadão de bem, que luta, que constrói o Brasil e, tantas vezes, faz sua casinha lá na encosta porque é a cota que lhe cabe no latifúndio urbano. E vem a chuva, e vem a lama, que se alimentou de lama…

Lama em que tantos inescrupulosamente se sujam na sanha do lucro fácil! Lama moral que gera a lama física dando uma mãozinha forte à natureza nessas façanhas contra o homem! Lama física que enterra vivos nossos irmãos! Uma pena!

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Professor no Instituto Federal do Sudeste Mineiro (Campus Juiz de Fora); é autor de Português; teoria e prática, pela Ática e de Problemas de morfologia portuguesa, pelo Clube de Autores

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