Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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FEITOS & DESFEITAS > JORNAL PESSOAL

Da velha tipografia à internet: jornal-cidadão

Por Célia Trindade Amorim em 26/08/2008 na edição 500

O aniversário de 21 anos do Jornal Pessoal chega em grande estilo para os padrões da contemporaneidade. Colocar um dos mais radicais e longevos alternativos do Brasil em atividade na rede mundial de computadores era algo inimaginável para leitores e inimigos da publicação. Agora, com um clicar de mouse, o pequeno jornal, que durante toda sua existência permanecia adepto da velha tipografia de padrão gutenberguiano, aparece por meio das teias da www (world wide web).

No espírito e na letra, como não poderia deixar de ser, o site do alternativo contraria a linguagem da internet. Todos os textos do JP de papel não recebem nenhum tratamento para se adaptar ao formato na web. A narrativa de Lúcio Flávio Pinto, que tem a crítica como método por excelência de fazer jornalismo, continua a mesma: extensa, analítica, questionadora. Quem esperava texto curto, superficial, menos problematizador sobre os assuntos que afligem a Amazônia, terá que procurar outro endereço eletrônico.

Amante da cultura letrada, Lúcio Flávio Pinto ainda anunciou na edição de n. 422, por ocasião do lançamento do site, que o JP de papel chegará primeiro às mãos dos leitores. Somente depois será veiculado na internet. Além de contrariar a linguagem na web, o Jornal Pessoal no ‘ciberespaço’ também não aceitará publicidade.

Princípios éticos

O Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, não casa com publicidade. É sabido que a publicidade impulsionou o desenvolvimento da chamada grande imprensa burguesa sobretudo no século 19, consolidando a informação como mercadoria. Hoje, como enfatiza Martín-Barbero, a imprensa, primordialmente política na sua gestação, é uma imprensa essencialmente publicitária.

O Jornal Pessoal nega a forma-mercadoria-notícia, que faz das pessoas meras consumidoras. Desde seu nascimento, em setembro de 1987, se dedica a fazer um jornalismo cidadão na Amazônia. Por meio de análise crítico-reflexiva, os textos de Lúcio Flávio Pinto perseguem de forma cabal o sentido público da informação por meio da denúncia, da publicação dos fatos sociais, do metajornalismo.

O metajornalismo é uma reflexão crítica sobre o jornalismo. Toda a história do Jornal Pessoal é dedicada não só a noticiar os grandes e graves problemas da Amazônia como trabalho escravo, grilagem de terras, devastação e queimadas, conflitos agrários, a atuação dos grandes projetos econômicos, como os da CVRD, entre outros; mas exterioriza, também, um Fazer e um Dever Ser jornalismo na região. Em outras palavras: o periódico faz e se impõe com um instrumental analítico-crítico indicando como se deveria fazer jornalismo. É tamanha presunção? A resposta é NÃO!

Quem for pesquisar a coleção completa do JP, que agora chega aos poucos à internet, poderá conferir a complexidade do seu metajornalismo: a capacidade de realizar não só crítica de mídia, ao desnudar em 21 anos (1987-2008) o jornalismo amazônico, como está constituído e como se mantém, como também sedimentar credibilidade, um jornal que é capaz de conjugar princípios éticos com prática jornalística na região.

Aqui subjaz a importância de ter o Jornal Pessoal como objeto de pesquisa no curso de doutorado, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), cuja tese foi recentemente defendida, em junho de 2008, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Princípios éticos que a cada dia estão se distanciando das páginas do nosso jornalismo.

Parabéns, Lúcio Flávio Pinto.

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Jornalista, mestre e doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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