Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CARTA À VEJA

De um menino leitor de revistas

Por Ildo Perondi em 16/05/2006 na edição 318

À Editora Abril


Revista Veja


Lembro-me muito bem da primeira revista que eu li na minha vida. Foi no ano de 1969. O homem havia pisado na Lua. Meu pai era professor em Linha Esperança, município de Romelândia, no interior de Santa Catarina. Éramos colonos e estávamos por fora deste mundo.


Meu pai, sabendo pelo rádio do notável feito da humanidade, foi à cidade e procurou um amigo que vez por outra ia até a cidade grande. Deu o dinheiro e pediu que trouxesse uma revista. Tempos depois chegou a “Veja e Leia” (era assim que se chamava a revista na época em que as revistas eram para ver e ler).


Quantas vezes li a revista? Nunca saberei. Mas ela ficou gravada na minha memória. Tanto assim que passados quase quarenta anos lembro tão bem do seu conteúdo. Além do homem ter ido à Lua, tinha a entrevista nas páginas amarelas. Tinha uma reportagem sobre Bob Kennedy (recordo de uma frase estranha, que dizia mais ou menos assim: “Bob sabia que cedo ou tarde iria para a Casa Branca”; para nós “Casa Branca” significava o cemitério… e não entendíamos o que queriam dizer).


Havia a reportagem sobre os Novos Baianos. Sim, foi aí que eu soube que existia Gil e Caetano (coincidência, meu pai se chamava Caetano). E tantos outros assuntos que ainda hoje me lembro… Uma revista boa fazia um bem tão grande assim! E ficou na memória e na história.


Quanto tempo?


Passou-se o tempo e eu estava em Florianópolis e tornei-me assinante da Veja. Não era mais a mesma. Até o nome havia mudado. Era só Veja, mas uma revista não seria também para ler? Não renovei a assinatura… Esporadicamente fui lendo ainda aqui ou lá alguma edição…


Mas ultimamente não dá mais para ler e nem para ver. A revista Veja se tornou um covil onde se mente, inventa, conspira. Basta um olhar sobre as capas das edições dos últimos anos e podemos ver pessoas, autoridades, organizações sociais, Igreja… a cuja imagem a revista agrediu, distorceu, sem chance nenhuma de defesa. É para isso que serve uma revista?


Que saudade da primeira revista que eu li e que guardamos por tantos anos. Ela informava, ficava dentro de nós.


Neste fim de semana [13-14/5] estava participando em curso de formação. Pedi que os participantes trouxessem um símbolo que precisamos destruir, algo que não serve para construir uma nova sociedade. Um dos participantes queimou a revista Veja desta semana. Curiosamente, ele também apresentou um rolo de papel higiênico e afirmou: “Este, pelo menos, tem uma boa serventia”.


Não preciso queimar no fogo a revista. A Abril mesmo, com sua prática e falta de ética, queimou a sua imagem, tanto que não quero nunca mais ver e ler esta revista. Espero apenas que não queimem dentro de mim a doce lembrança de menino que viu e leu pela primeira vez uma revista!


Peço a estes novos donos e jornalistas da Abril que busquem em seus arquivos este número importante da revista. E que, encontrando-o, “vejam e leiam”. Talvez criem um pouco de vergonha, talvez… Mas antes de elaborar a próxima edição pensem no que vão fazer. Talvez esta seja a primeira revista que um menino vai ler. Por quanto tempo ele irá recordar do que vocês vão escrever?

******

Professor, Londrina (PR)

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/05/2006 Luiz Paulo Santana

    Cara Samyle P. de Carvalho, sobre sugestões acerca de uma fonte de informação de qualidade: nenhuma e todas elas. Faça como recomenda o Observatório da Imprensa, um espaço aberto a toda e qualquer voz (jornalística ou não) destinado ao debate sobre o trabalho da própria imprensa: ‘Assistindo ao OI, você nunca mais vai ler jornal (ou revista) do mesmo jeito’.
    Em síntese: nunca tenha uma única fonte de informação. Diversifique. Leia à esquerda e à direita, passando pelo centro. Sempre com um pé atrás, confie antes de tudo, no seu próprio discernimento.
    no que você vê e ouve nas proximidades,

  2. Comentou em 16/05/2006 Pedro Tardelli

    B R A V O !!!

  3. Comentou em 16/05/2006 Djalma Prado

    Eventualmente, numa sala de espera, não tendo nada pra ler, eu leio a Veja. Mas antes, procuro obter uma luva cirúrgica para evitar qualquer contiminação através das mãos.
    Em casa, quando chega um envelope da Abril propondo assinatura desta porcaria, na falta de uma pinça, uso cuidadosamente a ponta da unha para leva-lo à cesta de papel higiênico da privada mais próxima para arquiva-lo.

  4. Comentou em 16/05/2006 Djalma Prado

    Eventualmente, numa sala de espera, não tendo nada pra ler, eu leio a Veja. Mas antes, procuro obter uma luva cirúrgica para evitar qualquer contiminação através das mãos.
    Em casa, quando chega um envelope da Abril propondo assinatura desta porcaria, na falta de uma pinça, uso cuidadosamente a ponta da unha para leva-lo à cesta de papel higiênico da privada mais próxima para arquiva-lo.

  5. Comentou em 16/05/2006 Maurício Binas

    É esse o espírito que prevalece, e que está muito bem expresso no comentário acima. Se qualquer meio de comunicação se presta a examizar friamente levas de denúncias; se seleciona com calma o que deve ser divulgado, quando se trata de assunto, além de relevante, ATESTADO, provavelmente esse meio de comunicação é petista, protege o governo, é corrupto…

  6. Comentou em 06/10/2005 virmondes Vieira Machado

    Os conselhos de medicina no Brasil,não aceitam a presença da imprensa nos seus julgamentos,como acontece na maioria dos países civilizados.Como se sabe,é a imprensa livre, a grande guardiã da legalidade e da justiça,em qualquer lugar do mundo. A lei que criou os conselhos de medicina,é inconstitucional na medida que aplica pena perpétua, não comina penas,como manda a CF,portanto não estabelece parâmetros para julgar ninguém. O código de ética,não define imperícia,imprudencia ou negligência, fatores decisivos para cassação de médicos,deixando o profissional, à mercê do humor de quem vai julgá-lo.Portanto,tudo pode acontecer:Da omissão com relação aos maus profissionais,à perseguição de médicos éticos e competentes.Há precedentes em todos os conselhos do país.Um arrematado absurdo,inadmissível em um país,cuja democracia já deveria ter alcançado todas as instituições.Está explicado,portanto, porque a imprensa não é bem aceita nesses tribunais de exceção.
    virmondes vieira machado
    fone 06232839462.
    rua viterita qd88 lt27 Goiania go
    cic 124412 ssp go

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