Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

De um menino leitor de revistas

Por Ildo Perondi em 16/05/2006 na edição 318

À Editora Abril


Revista Veja


Lembro-me muito bem da primeira revista que eu li na minha vida. Foi no ano de 1969. O homem havia pisado na Lua. Meu pai era professor em Linha Esperança, município de Romelândia, no interior de Santa Catarina. Éramos colonos e estávamos por fora deste mundo.


Meu pai, sabendo pelo rádio do notável feito da humanidade, foi à cidade e procurou um amigo que vez por outra ia até a cidade grande. Deu o dinheiro e pediu que trouxesse uma revista. Tempos depois chegou a “Veja e Leia” (era assim que se chamava a revista na época em que as revistas eram para ver e ler).


Quantas vezes li a revista? Nunca saberei. Mas ela ficou gravada na minha memória. Tanto assim que passados quase quarenta anos lembro tão bem do seu conteúdo. Além do homem ter ido à Lua, tinha a entrevista nas páginas amarelas. Tinha uma reportagem sobre Bob Kennedy (recordo de uma frase estranha, que dizia mais ou menos assim: “Bob sabia que cedo ou tarde iria para a Casa Branca”; para nós “Casa Branca” significava o cemitério… e não entendíamos o que queriam dizer).


Havia a reportagem sobre os Novos Baianos. Sim, foi aí que eu soube que existia Gil e Caetano (coincidência, meu pai se chamava Caetano). E tantos outros assuntos que ainda hoje me lembro… Uma revista boa fazia um bem tão grande assim! E ficou na memória e na história.


Quanto tempo?


Passou-se o tempo e eu estava em Florianópolis e tornei-me assinante da Veja. Não era mais a mesma. Até o nome havia mudado. Era só Veja, mas uma revista não seria também para ler? Não renovei a assinatura… Esporadicamente fui lendo ainda aqui ou lá alguma edição…


Mas ultimamente não dá mais para ler e nem para ver. A revista Veja se tornou um covil onde se mente, inventa, conspira. Basta um olhar sobre as capas das edições dos últimos anos e podemos ver pessoas, autoridades, organizações sociais, Igreja… a cuja imagem a revista agrediu, distorceu, sem chance nenhuma de defesa. É para isso que serve uma revista?


Que saudade da primeira revista que eu li e que guardamos por tantos anos. Ela informava, ficava dentro de nós.


Neste fim de semana [13-14/5] estava participando em curso de formação. Pedi que os participantes trouxessem um símbolo que precisamos destruir, algo que não serve para construir uma nova sociedade. Um dos participantes queimou a revista Veja desta semana. Curiosamente, ele também apresentou um rolo de papel higiênico e afirmou: “Este, pelo menos, tem uma boa serventia”.


Não preciso queimar no fogo a revista. A Abril mesmo, com sua prática e falta de ética, queimou a sua imagem, tanto que não quero nunca mais ver e ler esta revista. Espero apenas que não queimem dentro de mim a doce lembrança de menino que viu e leu pela primeira vez uma revista!


Peço a estes novos donos e jornalistas da Abril que busquem em seus arquivos este número importante da revista. E que, encontrando-o, “vejam e leiam”. Talvez criem um pouco de vergonha, talvez… Mas antes de elaborar a próxima edição pensem no que vão fazer. Talvez esta seja a primeira revista que um menino vai ler. Por quanto tempo ele irá recordar do que vocês vão escrever?

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Professor, Londrina (PR)

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