Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > CONVERSA AFIADA

De cabeça erguida

Por Jose Luiz Ribeiro da Silva em 25/03/2008 na edição 478

Não acredito em utopias. Nem na Terra, nem no Céu. Muito menos em jornalismo diletante, comprometido apenas com a verdade – e muito menos o considero como sendo a ‘última profissão romântica’. Acredito, caso exista alguma ocupação que possa ser considerada romântica, ser aquela conhecida como ‘a mais antiga do mundo’. Existe aí alguma similitude. Ambas vendem ao público uma coisa que não entregam – a verdade de suas intenções.

O jornalismo vive da ambição a ele intrínseca e à sociedade. Ambos buscam através da notícia – seja ela política, econômica ou mesmo social – atingir seus objetivos.

Com todo o respeito ao jornalista Luis Nassif, mas caso a Veja não lhe tivesse atirado a primeira pedra, talvez a blogsfera não fosse presenteada com o seu magnífico dossiê Veja, este sim, indispensável para quem quer conhecer como se faz o que há de pior em jornalismo (ver aqui). Exemplo concreto e objetivo de como a notícia se transforma em arma de manipulação das massas. Mais do que isso, demonstra como os ‘iguais’ se protegem, se dão guarita e se legitimam mutuamente.

Um desvio de rota

Infelizmente, Nassif só encontrou eco nos universos paralelos da internet e do judiciário. A chamada grande imprensa se fez de estóica e continuou em seu cotidiano imediático.

Resta saber agora qual é a ambição da Veja neste momento em que somente o senador Artur Virgilio a leva a sério. Pode ser um ‘balão de ensaio’ este novo dossiê, para a retomada de sua trajetória, afetada pelo ‘efeito Nassif’. Em todo caso, apesar da chamada tímida na capa, o seu ‘dossiê’ encontrou eco nas páginas do Estado de S.Paulo. O Estadão não precisa usar terminologias do tipo ‘rabo preso’ ou ‘indispensável’ para intuir aos seus leitores o que ele não é. O Estadão é o que é e seu público sabe disso. Daí a estranheza de dar eco a mais uma ficção jornalística da Veja.

O Estadão, como é vulgarmente conhecido, sempre foi o que sempre é – um jornal, na melhor das hipóteses, conservador. Tentou, nos anos 1980, imitar descaradamente o sucesso editorial e financeiro da Folha de S.Paulo. Mas foi apenas um desvio de rota, ditada mais pelo desespero e pela falta de idéias do que uma reformulação editorial. Aos poucos voltou a ser o que sempre foi e aqueles que abrem as suas páginas sabem, além de seus classificados, o que vão encontrar.

Conversa Afiada

Jornais como o Estadão e com a sua trajetória são inerentes a um Estado que pretende ser democrático. O que atrapalha a construção democrática são excrescências jornalísticas que se aliam a políticos menores para dar verossimilhança às suas indagações, colocando a credibilidade das instituições do país em descrédito e, conseqüentemente, ameaçando a democracia.

O que falta ao país é um contraponto – uma imprensa que atue como contraditório, essencial à democracia – que busque o chamado ‘outro lado’ da notícia e que propicie ao leitor elementos para formar a sua opinião.

O que temos no país são redutos jornalísticos, cada vez menores, como CartaCapital ou Caros Amigos, que exercem, de algum modo, esse papel.

Falar em bonapartismo – esquerda e direita – não faz sentido num país cuja tradição jornalística sempre foi ser contra ou a favor dos governantes. Daí a estranheza dos leitores dos diversos blogs hospedados no iG pelo afastamento súbito do site de Paulo Henrique Amorim – o Conversa Afiada.

De cabeça erguida

Paulo Henrique Amorim, apesar de sua trajetória controversa nas TVs do país, deixava claro em seu blog os seus afetos e desafetos. Era claro e objetivo em suas declarações e não tinha meias palavras. Além das atividades para-financeiras do banqueiro Daniel Dantas, denunciava o constante descaso e cinismo do governador de São Paulo, José Serra, em relação a questões que variavam deste a cratera do metrô que vitimou diversas pessoas, até os cartões corporativos do estado, estes sim, tão ou mais escandalosos do que os do governo federal.

Suas denúncias e questionamentos fazem falta, dentro de um contexto em que a grande imprensa, sobretudo a paulista, se cala e ou faz vista grossa perante acontecimentos tão grotescos ligados à vida pública nacional. Paulo Henrique Amorim é talvez o único jornalista a denunciar interesses tão poderosos e ao mesmo tempo tão pertinentes aos cidadãos brasileiros.

Embora pretendessem o contrário, Paulo Henrique Amorim sai do portal iG pela porta da frente e de cabeça erguida. Fortalecido em seu novo endereço e com mais credibilidade. Perdem esse portal que poderia ter encaminhado os acontecimentos de forma mais transparente e menos truculenta para com o jornalista como para com os freqüentadores do blog. Perdem também os desafetos que buscam na intimidação e na perseguição covarde o caminho mais fácil e óbvio para calar aqueles que utilizam o jornalismo de uma forma coerente com a democracia.

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Psicólogo, Curitiba, PR

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/04/2008 Marcelo Ramos

    Prezado senhor Iberê, também respeito seu direito à opinar, porém, discordo do senhor em duas coisas. Primeira, quando falei do Cacciola, não falei do fato de estar ou não no Brasil, me referi ao fato de ter sumido da imprensa; segundo, realmente, não preciso de ninguém para me tutelar, mas como estamos falando de imprensa e informação, está muito claro que há jornalistas que tem credibilidade e independência, e outros, não, são chamados de jornalistas ‘sela’, qualquer um pode cavalgar. Até este momento, não me consta que o PHA seja deste segundo tipo. O senhor até pode considerar as notícias publicadas no site do PHA como meras opiniões, é direito seu. Finalmente, espero que o senhor continue lendo mais de uma fonte. No mundo de hoje, a qualidade da informação é fundamental para tomar decisões, e a maioria dos veículos infomativos é ideologizada.

  2. Comentou em 29/03/2008 Iberê Anselmo Garcia

    O Sr. Marcelo (assim como o autor do artigo acima, José Luiz) concorda comigo quanto à parcialidade de PHA. Também concordo com ele (e, mais uma vez , com o José Luiz) quando afirma que outros veículos também são parciais. Só não concordo que um jornalista parcial, mesmo declaradamente, tenha credibilidade, mesmo que outros veículos também já tenham perdido essa virtude jornalística, pelo menos idealmente.
    A propósito, o Sr. Cacciola ainda não chegou no Brasil.

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