Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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FEITOS & DESFEITAS >

Debate sobre jornalismo e acesso à informação

Por Mariana Martins em 11/06/2009 na edição 541

A decisão da Petrobras de criar um blog para disponibilizar diretamente informações e comentar a cobertura feita sobre si neste momento de turbulência por que passa a empresa agitou a pauta da mídia brasileira na última semana. Debates envolvendo ética no jornalismo, liberdade de imprensa e expressão, acesso à informação e direito à comunicação pautaram as discussões tanto da grande mídia comercial quanto dos veículos alternativos e blogs de jornalistas renomados.


O blog ‘Fatos e Dados’ foi criado pela Petrobras, segundo o próprio, para apresentar fatos e dados recentes sobre a empresa e posicionamentos acerca de questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada em 15 de maio para investigar supostas fraudes da estatal. A página eletrônica, que foi ao ar pela primeira vez no último dia 2 de junho e tem tido uma média de mais de 20 mil acessos por dia, passou a divulgar também as respostas dadas pela empresa às perguntas feitas pelos veículos de comunicação.


Foi justamente a abertura dessas informações que geraram forte reação e provocaram calorosos debates. Acusada por jornais como Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo de quebrar a confidencialidade das perguntas envidas pelos jornalistas e também de prejudicar o trabalho da imprensa com a publicação antecipada de perguntas e respostas, a Petrobras justifica a iniciativa pelos equívocos das edições feitas pelos jornais.


A análise do tratamento incorreto às informações fornecidas é apresentado em diversas mensagens publicada no blog. ‘Sobre a matéria `Petrobras ainda financia a fracassada mamona´ publicada no dia 07/06/09, pelo jornal O Globo, a Petrobras esclarece que (…)’. Ou nesta: ‘o jornal Folha de S.Paulo afirmou em sua edição de 06 de junho que a Petrobras teria 1.150 jornalistas em sua área de comunicação. A nota de esclarecimento enviada no mesmo dia ao jornal paulista, corrigindo a informação, não foi publicada no tradicional Painel do Leitor, na seção Erramos da edição de hoje’.


O blog não apenas esclarece como avalia de maneira crítica a cobertura feita pelos veículos de mídia, como nesta mensagem: ‘a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, comete, no jargão jornalístico, uma `barriga´, ao mesmo tempo em que requenta uma nota publicada e desmentida no final do ano de 2006′.


Reação raivosa


Em editorial intitulado ‘Ataque à Imprensa’, publicado na terça-feira (9/6), o jornal O Globo afirma que a Petrobras fere a Constituição. ‘A estatal alega praticar a `transparência´ ao cometer o erro de divulgar material de propriedade de profissionais e veículos de imprensa (…). A Petrobras errou, e espera-se que volte atrás nos procedimentos nada éticos que adotou no atendimento à imprensa.’


No mesmo editorial, O Globo diz que a Petrobras tem tendência histórica de se descolar de controles públicos e acusa ainda o governo federal e o PT de aparelharem a estatal. ‘Com política de aparelhamento do Estado posta em prática por Lula, se tornou em parte, um bunker nas mãos de correntes de sindicatos, do PT e sob os jugos dos anseios fisiológicos do PMDB’, reclama.


A Associação Nacional de Jornais (ANJ) também criticou a Petrobras e acusou, em nota, a empresa de tentar intimidar jornais e jornalistas. Para a ANJ a publicação antecipada das notícias resulta numa inaceitável quebra da confidencialidade que deve orientar a relação entre jornalistas e suas fontes.


‘Como se não bastasse essa prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa, os e-mails de resposta da assessoria incluem ameaças de processo no caso de suas informações não receberem um `tratamento adequado´. Tal advertência intimidatória, mais que um desrespeito aos profissionais de imprensa, configura uma violação do direito da sociedade a ser livremente informada, pois evidencia uma política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos’, pontua a nota.


Estatal rebate críticas


Em resposta à ANJ, a Petrobras divulgou nota com alguns esclarecimentos, dentre eles o de que a empresa respeita os princípios universais de liberdade de imprensa, ‘tanto que, em nenhum momento, se esquivou de responder às perguntas enviadas, de forma direta e clara. Tampouco, usou de qualquer meio para evitar a publicação de reportagens e notas, mesmo quando a empresa está sendo atacada’.


A empresa argumenta no texto que a noção de confidencialidade e sigilo é um princípio que protege as fontes, não os jornalistas. ‘O objetivo principal é preservar aqueles que passam informações aos jornalistas e que, por qualquer motivo, precisam ou querem se manter no anonimato. Mas não há compromisso semelhante de confidencialidade e sigilo da fonte para o jornalista, pois isso limitaria o próprio caráter público e aberto da informação’, rebate.


A argumentação da assessoria de imprensa da Petrobrás em várias passagens do blog atenta para o caráter público da empresa, o qual demanda a divulgação de informação de maneira pública. Sobre a publicação das perguntas e respostas enviadas pelos jornalistas no blog, que pode ocorrer antes da publicação da matéria, os assessores dizem ainda que isso reforça o objetivo da empresa, que seria o que alcançar o máximo de transparência possível no relacionamento com seus públicos de interesse.


Em entrevista no programa Roda Viva da TV Cultura na segunda-feira (8/6), Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, informou que não é intenção da empresa furar os veículos, mas dar transparência às informações que a Petrobrás disponibiliza aos meios de comunicação. ‘O blog foi uma forma de aproveitar os recursos disponíveis para construir uma comunicação direta com a população’, explicou.


Ética


Para o professor de Legislação e Ética da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Edgard Rebouças, não há problema ético na inovação da assessoria de imprensa da Petrobras, mesmo quando publicada a entrevista no blog. ‘Quem tem compromisso com a fonte é o jornalista e não o contrário. O compromisso da fonte é com o público e não com o jornalista’, defende. Rebouças ressalta ainda que ‘Existe problema ético caso o jornalista não publique tudo que a fonte diz. Como muitas vezes acontece.’


Alfredo Vizeu, professor de Legislação e Ética da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) considera a criação do blog um direito da empresa. ‘Todas as informações que veicula são institucionais, incluindo o olhar da Petrobras sobre as matérias veiculadas acerca da CPI. Se a preocupação foi essa não vejo nenhum problema’, avalia. Contudo, Vizeu pondera que se a intenção do blog for tentar ‘pressionar a imprensa para que faça uma cobertura mais `amena´ da CPI, isso em nada contribui para a informação que o público necessita, que deve buscar ser séria e correta’.


Jornalistas defendem iniciativa


Na contramão da avaliação da grande mídia comercial contra a suposta ação antiética da Petrobras estão alguns dos mais conhecidos blogueiros da imprensa virtual, alguns deles ex-funcionários de grandes jornais que atualmente mantêm blogs com análises freqüentes sobre a cobertura e as estratégias dos maiores veículos de comunicação comerciais. Neste time estão Paulo Henrique Amorim, Luis Nassif e Luiz Carlos Azenha.


Para Luiz Carlos Azenha, que mantém o blog ‘Vi o Mundo’, o blog ‘Fatos e Dados’ é legítimo e configura-se como apenas mais um canal de informação para que a empresa apresente sua versão dos fatos. O jornalista diz que do ponto de vista jornalístico há margem para debate sobre a divulgação no blog das perguntas e respostas das entrevistas antes da publicação das matérias realizadas a partir dessas. Segundo Azenha, essa é uma relação de confiança entre duas partes. Contudo, o jornalista reforça que esse debate toca em uma questão essencial, que é a mudança na dinâmica da informação em uma sociedade midiatizada e conectada à internet.


Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também declarou apoio à criação do Blog ‘Fatos e Dados’. Em nota, a ABI avalia como legítima a decisão da Petrobras de criar um blog para divulgação das informações que presta à imprensa e especialmente aos veículos impressos, ‘uma vez que as questões relativas ao seu funcionamento e aos seus atos de gestão interessam ao conjunto da sociedade, que não pode ficar exposta ao risco de filtragem das informações típica e inseparável do processo de edição jornalística’.


A associação destaca que os possíveis usos políticos das informações pela imprensa contribuem para tornar legítima a ferramenta da estatal. ‘O presente confronto entre a empresa e alguns veículos de comunicação tem inegável cunho político, com favorecimento de segmentos partidários que se opõem ao governo Lula. A Petrobras encontra-se, infelizmente, na linha de tiro do canhoneio contra ela assestado. Atacá-la com a virulência que se anota agora não faz bem ao País’, conclui.


Em off…


Outra discussão que passou a ser feita a partir da polêmica gerada pelo blog ‘Fatos e Dados’ foi o uso do off the record. Off , termo utilizado como abreviação da expressão, são aquelas falas obtidas a partir de uma negociação do jornalista com a fonte para que a mesma não seja revelada, especialmente no caso de sua declaração possa representar algum tipo de perigo nos textos jornalísticos.


No caso do blog da Petrobras, houve também por parte da grande mídia comercial a cobrança de sigilo para com as perguntas e respostas enviadas por parte da fonte, o que parecer ser algo novo no jornalismo e provocado, principalmente, pela dinâmica dos novos meios de comunicação. Já que antes não havia como existir esse tipo de publicação.


Em mensagem publicada no blog ‘Luis Nassif Online’, o jornalista chegou avaliar a iniciativa de divulgação das entrevistas pelo blog da Petrobrás como ‘o fim da era das perguntas em off‘. Nassif argumenta que ‘depois de abusar de declarações em off, a imprensa começa a trabalhar o conceito das perguntas em off, uma inovação extraordinária’.


A questão do off no jornalismo há tempos e questionada por alguns críticos da mídia, principalmente com relação ao seu uso em veículos públicos e como fontes principais. O mais recente manual de jornalismo da Radiobrás, publicado em 2006, diz que a empresa ‘não pública informação off the record porque essa forma dá ao público o direito de duvidar da origem da informação’.


Em relação a este assunto, o professor Edgard Rebouças pondera: ‘É um mecanismo que deve ser usado como forma de acesso à informação e não como sendo a fonte principal. O off é condenado se usado diretamente, se colocarmos diretamente na matéria informação, por exemplo’.


Novas ferramentas e novo jornalismo


As novas ferramentas propiciadas pelo desenvolvimento tecnológico, como portais eletrônicos, blogs e redes sociais, vêm mudando também ao longo dos anos o próprio caráter da informação jornalística, da função dos veículos tradicionais e da relação entre a fonte primária da informação e o público, como no caso da Petrobras.


Na avaliação de Luiz Carlos Azenha, todas essas mudanças vêm gerando reações dos veículos tradicionais, que ainda estão no caminho de aprendizado sobre como lidar com as inovações tecnológicas. ‘Posso especular que os jornais se sentem incomodados com uma nova dinâmica que não os favorece. Os jornais já chegam claramente envelhecidos às bancas. Como contornar isso? Com notícias exclusivas. Denúncias extraordinárias. Isso pressupõe, no entanto, que todos os atores sociais continuem aceitando o jornalismo como era: o monopólio da informação controlado por algumas empresas que vendem informação.’


A lógica do ‘esperem o jornal de amanhã para saber o que acontece’ está sendo rompida pela internet, diz o jornalista. ‘A internet rompe essa lógica. O Twitter, os blogs e as redes de relacionamento social (Facebook, Orkut) oferecem informação instantânea. Na medida em que a Petrobras, maior empresa do Brasil, entra nesse bonde, ele se torna mais importante’, avalia.


Contudo, o blogueiro sugere certa cautela para as dificuldades de manter também a responsabilidade que requer a criação de uma ferramenta interativa. ‘A Petrobras terá de se sujeitar às regras dos internautas ou acabará perdendo credibilidade. Na rede não tem `embromation´ com o leitor.’


O mecanismo de criação de blogs para diminuir as distâncias entre a fonte da informação e seu público de interesse é saudada também pelo professor Edgard Rebouças, que vê nesse instrumento uma ótima ferramenta. ‘Os blogs dão essa possibilidade de contato direto, eu acho ótimo. Tanto as empresas públicas como as privadas deveriam usar, mas as públicas principalmente’, comenta.


Já para Azenha, este é um bom instrumento em um momento de ‘crise’, em que a empresa se vê alvo de múltiplas denúncias dos três jornais mais importantes do Brasil. ‘Esses acessos [média superior a 20 mil acessos diários], francamente, não representam grande coisa, ainda. O maior valor está em desenvolver, ao longo do tempo, uma ferramenta de contato com um público de qualidade. Mas a Petrobras se engana se acha que entrará nessa de mãos abanando. Os próprios internautas exigirão transparência absoluta da empresa. É uma via de duas mãos’, prevê.

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Do Observatório do Direito à Comunicação

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