Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

ENTRE ASPAS > TELEJORNALISMO EM CLOSE

Debates são notícias e não eventos de outra emissora

Por Paulo José Cunha em 19/10/2010 na edição 612

As emissoras de televisão estão sonegando informações sobre os candidatos à presidência da República. ‘Grande novidade. Se elas se pautam pelas inclinações ideológicas de seus donos ou por seus interesses patrimoniais, nada demais, ora.’ Mas não falo disso: falo de informações essenciais do dia-a-dia dos candidatos. ‘Como assim, se todo dia os telejornais trazem informações sobre o dia dos candidatos?’ Também não me refiro a isso, mas a informações fundamentais, relacionadas a posicionamentos que vêm assumindo ou a opiniões que vêm externando sobre temas os mais diversos, como o aborto, por exemplo. Ou sobre a baixaria da campanha. ‘Então se refere a quê, infeliz? Desembucha!’

Refiro-me ao conteúdo dos debates eleitorais, que fica restrito à emissora responsável pela sua promoção. Dessa forma, um debate como o da Band, que redefiniu os rumos da campanha eleitoral em curso, foi solenemente ignorado pela Rede Globo e pelas demais emissoras, como um fato à parte, uma ocorrência que só diz respeito à emissora que veiculou o evento. Como se isso não tivesse a ver com o que o eleitorado precisa saber para definir, confirmar ou reformar seu voto, já que estamos num segundo turno e um segundo turno serve precisamente pra isso.

O fato é que nossas emissoras de televisão ainda não se habituaram a encarar o fato jornalístico acima de suas conveniências empresariais. E se pautam pela velha e carcomida fórmula segundo a qual ‘só me diz respeito o que eu noticio e tudo o que a concorrência realiza não é da minha alçada e que se dane o eleitor. Se quiser saber detalhes do debate da Band, que ligue na Band e tamos conversados’.

A Dilma como ela é

Ainda falta muita estrada para atingirmos um grau de compreensão da notícia acima e além da conveniência editorial/empresarial de nossas empresas. Os jornais impressos, os blogs e as emissoras de rádio já avançaram muito e não estão nem aí: repercutem, analisam e debatem o que as outras puseram no ar, como o debate da Band, que abriu a temporada dos confrontos diretos dos dois candidatos no segundo turno. Mas as grandes redes de TV e os grandes telejornais ainda não se habituaram a tratar os fatos produzidos pela concorrência como fatos, e sim, como produtos exógenos, aos quais não se deve dar maior importância. Resultado: manipulação por parte das duas campanhas, que selecionam o que chamam de ‘melhores’ momentos, conforme suas conveniências, e reproduzem no horário eleitoral. Informação com isenção jornalística? Ah, o eleitor que se dane. Seleção jornalística dos melhores momentos? Nem sonhando! Depois do que aconteceu com o debate Lula-Collor, ninguém se arrisca. Cê é doido, cara, vou lá me meter nisso…

E o eleitor? Ah, o eleitor é que nem o povo para uma certa Zélia Cardoso de Mello. Lembra-se? É apenas de um detalhe… Mas será que um dia ainda assistiremos a um Jornal Nacional em que o debate da Band será analisado, comentado, contextualizado como ‘notícia’, e não apenas como um produto da concorrência – e que por ser isso deve ser solenemente escanteado e subtraído do eleitor, como ocorre hoje? É difícil. Justamente por isso defendo uma proposta que ainda parece remota, mas que pode ser um ponto de partida para a democratização desse aspecto da campanha eleitoral: a realização de debates em rede nacional, patrocinados pela Justiça Eleitoral e com regras definidas por ela, tal como ela define normas para a propaganda gratuita pelo rádio e pela TV.

Se a cada semana, um dia da propaganda fosse destinado a debates aos cargos de presidente e governador, teríamos um eleitor bem menos dominado pela efusão de edulcorantes da propaganda de laboratório e bem mais consciente do que efetivamente pensam e defendem os candidatos. É da confrontação que ressuma alguma verdade, e nunca do discurso de mão única. Porque no cara-a-cara, no frente-a-frente, no tête-à-tête, é bem mais difícil alguém parecer ser o que não é. Como a Dilma, que revelou-se bem menos paz, amor, sorrisos & botox, como vinha pretendendo aparentar. E muito mais lampião, pit-bull e Kill Bill, como ela realmente é. Se foi a marquetagem que mandou ela aparecer como é, palmas para a marquetagem. Se foi ela mesma que quis aparecer daquele jeito, palmas pra nós, que voltamos a vê-la por inteiro, e na real. E o Serra? Ah, o Serra, com aquela cara de espanto, vai continuar a ser o picolé de chuchu de sempre, que a gente já conhece.

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Jornalista, professor universitário e poeta

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