Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Depois daquele beijo

Por Norma Couri em 04/02/2014 na edição 784

Nada será como antes depois que Felix (Mateus Solano) beijou Niko (Thiago Fragoso) na boca no último capítulo (nº 221) que afinal explicou o título da novela Amor À Vida. Não só pelo recado aos deputados da “cura gay”, Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano, e aos furiosos skinheads, mas pela mensagem subliminar às donas de casa, guardiãs da moral e dos bons costumes. O capítulo registrou a média de 44 pontos de audiência e o Ibope, 77% de participação de brasileiros. Como alega Manoel Carlos, foi a Globo que hesitou em liberar, mas o beijo valeu como um choque, semelhante ao da cerca que eletrocutou Aline (Vanessa Giacomo). Contra a obsessão por sexo que muitas vezes provoca suicídio, tortura e morte.

O site Other News republica o artigo de Nazanin Armanian (“De deuses e genitálias humanas”, publico.es, 27/1/2014) que admite: a obsessão também existe na católica Espanha. Ele explica, a importância dos genitais é de tal ordem que Abraão selou sua aliança com os deuses através da circuncisão (Gen.17). Por causa das religiões, sexo sempre esteve relacionado com vergonha, pecado, culpa. Atraindo a curiosidade mórbida das sociedades.

Semana passada, Valérie Trierweiller deu a primeira entrevista à revista onde trabalhou, Paris Match. Desde que outra revista, Closer, publicou o caso do seu ex-marido e presidente da França, François Hollande, com a atriz Julie Gayet, Valérie foi hospitalizada e justificou: “Foi como se um arranha-céu tivesse desmontado sobre a minha cabeça”. A ex-primeira-dama e jornalista reconhece que o trauma maior foi por se tratar de uma crise “midiática”, tudo aconteceu através da mídia, uma exposição aos olhos do mundo. Valérie perdeu o Palácio do Eliseu mas não a chance de usar a mídia. Percebeu o interesse especulativo do assunto na cabeça do leitor voyeur e vai contar sua história num livro. Quanto à Julie Gayet, segundo a revista do El País de sábado (1/2), agora a atriz vive “o grande papel (papélon) de sua vida”, insinuando que até aqui os papéis vividos por ela foram pequenos como a ponta no filme Azul da trilogia de Kieslowski.

Momento de sorte

Sobre a França, neste momento, nada interessa mais ao mundo do que o triângulo Hollande-Valérie-Julie, e as espetaculares fugidas noturnas de moto do palácio, com apenas um guarda-costas, do presidente mais antissedutor do segundo país na escala de importância da União Europeia. Hollande meteu-se numa guerra, como escreveu a correspondente do The New York Times, Elaine Sciolino, no livro A Sedução, que tenta analisar a psique dos franceses com suas ramificações carnais: “A sedução não é um assunto frívolo. É a guerra”.

No domingo (2/2), o New York Times deflagrou outra guerra. Deu manchete com um assunto de alcova, a carta de Dylan, filha adotiva de Woody Allen e Mia Farrow, sobre um suposto assédio sexual do cineasta que, segundo sua memória de duas décadas atrás, a levava para o sótão mal iluminado da casa onde moravam quando ela tinha 7 anos. A notícia saiu no blog de Nicholas Kristof, especialista no tema, mas já percorreu os jornais do mundo (segunda-feira, 3/2, no Globo, Estadão e Folha de S. Paulo).

Dylan, hoje com 28 anos, diz que Allen mandava que ela se deitasse de bruços para brincar com o trenzinho elétrico do irmão Ronan enquanto a acariciava prometendo que faria dela uma atriz em Paris. “Este é o nosso segredo”, teria dito o cineasta – pelo menos é o que Dylan, ou sua memória de 21 anos atrás, garante ter ouvido.

Ano passado, Dylan já havia exposto o assédio à Vanity Fair numa entrevista concedida por Mia e agora, mais ferina e midiática, pergunta o que o ator Alec Baldwin e a atriz Cate Blanchet, ambos protagonistas do último filme de Allen, Blue Jasmine, fariam se o caso acontecesse com a filha deles. (Baldwin, no Twitter, respondeu aos fãs que cobravam uma resposta: “Vocês estão errados se acham que há lugar para mim, ou qualquer outra pessoa de fora, neste problema familiar”). Na carta, Dylan faz a mesma pergunta a atrizes de memoráveis filmes de Allen, como Diane Keaton ( Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1977; Manhattan, 1979, entre muitos) e Scarlett Johansson (Match Point, 2005; Scoop: o Grande Furo, 2006; Vicky Cristina Barcelona, 2008).

A onda contra Allen recomeçou depois que Ronan, 23 anos, único filho biológico da relação do diretor com Mia, ironizou junto com a mãe a premiação do pai no último Globo de Ouro. Tuitou: “Perdi o tributo. Eles colocaram a parte em que uma mulher confirma que foi molestada por ele aos 7 anos antes ou depois de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa?”

Mas a revolta da família vem desde a separação do casal, depois que Mia visitou em 1992 o apartamento do cineasta. Mia e Allen ficaram juntos 12 anos, em casas separadas. Ela encontrou fotos da filha adotiva Soon-Yi Previn nua. Allen e Soon-Yi ficaram juntos desde então e se casaram em 1997, segundo ele, o momento de sorte da sua vida. Em 2005, prestes a completar 70 anos, Allen declarou que chamaria de maluco qualquer pessoa que previsse que ele se casaria com uma coreana fora do show business, 35 anos mais jovem.

Audiência garantida

Estrela de vários dos bons filmes do ex-companheiro (Ana e Suas Irmãs , 1986; Radio Days, 1987; Histórias de Nova York, 1989, entre outros), mãe de 14 filhos, nove adotados, Mia Farrow tornou-se inimiga número 1 de Allen e colocou a família contra ele. Na época do divórcio, já mencionava que Allen teria abusado da filha adotiva Dylan, o que o cineasta sempre negou. Na época, os advogados especializados em divórcios de alta tensão alegaram ser uma acusação recorrente das mulheres, insinuando que eram falsas. Então Allen processou Mia pela custódia de Dylan e Moses, adotados por ele, além do filho biológico Satchel, mais tarde rebatizado Ronan pela mãe. Os promotores do caso decidiram não apresentar denúncia contra o cineasta na questão do abuso por não encontrar uma prova incriminatória.

Na segunda-feira (3/4), Leslee-Dart, porta-voz de Allen que se recusa a revidar a família, comentou no site The Wrap que as acusações são “inverídicas e nojentas”. A assessoria de imprensa de Allen enviou a resposta do cineasta para o site da revista The Hollywood Repórter: as acusações são “mentirosas e infames”. O filho Moses defende o pai. Moses se aproximou de Allen, Soon-Yi e dos filhos deles depois de se afastar da mãe, que acusou de promover “lavagem cerebral” na família. Mia completou a vingança deixando em dúvida se o filho biológico dos dois, Satchel/Ronan, seria filho de Frank Sinatra, com quem foi casada durante dois anos.

Os casos de alcova atraem o público e aumentam as vendas, como provou o sexo oral de Monica Lewinsky com o então presidente Bill Clinton no Salão Oval da Casa Branca, em 1998. Ou em 2011, com a faxineira de um hotel em Nova York e o socialista Dominique Strauss-Kahn, forte candidato ao Palácio do Eliseu, que por causa do escândalo perdeu o lugar para François Hollande.

Novelas reais, ou ficcionais, desde que o mundo é mundo, desde a Bíblia, Adão e Eva, Maria concebendo sem pecado original, passando por Cleópatra, Inês de Castro, Romeu e Julieta, e o beijo gay da Globo semana passada, fazem história e sempre garantem o maior Ibope.

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Norma Couri é jornalista

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