Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > LÍNGUA PORTUGUESA

Desacordo no Acordo

Por Walter Rossignoli em 27/01/2009 na edição 522

Em recente edição de Veja, li re-eleição, grafado assim, com hífen. Estranhei e corri a dois minidicionários já publicados segundo as normas do novo Acordo Ortográfico, vigente a partir de 1º de janeiro.

O dicionário Soares Amora, lançado pela Saraiva, registra re-edição, re-edificar, re-editar, re-educar, re-eleger, re-eleição, re-encarnar, re-entrar etc., amparando, portanto, a grafia da famosa revista do Grupo Abril.

No MiniAurélio, editado pela Positivo, todos os vocábulos citados são escritos sem o hífen. Como se vê, uma bela confusão, a que a ortografia antiga estava imune, nos tempos em que se podia discutir a legitimidade da reeleição, mas jamais a sua grafia.

Na verdade, o que ocorreu foram interpretações diferentes do que reza o Acordo Ortográfico. Assim, na Base XVI, o Acordo ensina que só se emprega o hífen ‘nas formações em que o prefixo ou pseudoprefixo termina na mesma vogal com que se inicia o segundo elemento’ e exemplifica, entre outras, com anti-ibérico, contra-almirante e autoobservação. Na exemplificação, não se registrou o prefixo -re, mas o etecétera abriu espaço para ele e a consequente (o computador teima em tremar!) re-eleição.

A busca da convergência gráfica

O que terá, então, motivado os redatores do Mini Aurélio? Creio que a influência dos prefixos pré– e pró-, também monossílabos e terminados em vogal. O Acordo prescreve que quando esses elementos forem tônicos o hífen será de rigor, não importando a inicial da palavra seguinte. Assim, grafam-se pró-europeu e pré-escolar, mas não se justifica o hífen, por exemplo, em prever e promover, pois os prefixos são átonos. A nosso ver, portanto, é exatamente a atonicidade do prefixo que torna a grafia reeleição mais coerente.

É bem possível que surjam outras divergências em virtude de lacunas no texto do Acordo ou mesmo de situações que deem margem a subjetividade. Ainda quanto ao emprego do hífen, lê-se que ‘certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente’. O que seria, na verdade, perder a noção da composição em certa medida? Os legisladores respondem apenas com exemplos, entre os quais a palavra girassol, em que existem dois radicais (girar + sol), mas o usuário da língua não os percebe com a mesma clareza com que identifica os elementos formadores de cirurgiãodentista e saláriofamília, entre tantas outras.

Amora e Aurélio grafam parabrisa e pararraios (antigos pára-brisa e pára-raios), alicerçados na tal certa medida que indica a perda da composição. Versões ampliadas do Aurélio e do Houaiss chegarão ao mercado, e é possível antever divergências no que tange ao emprego do hífen. O mínimo que se espera é que, nos casos dúbios, os dicionaristas procurem se entender antes de publicar e busquem a convergência gráfica. Afinal, não é esse o propósito do Acordo?

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Professor de Língua Portuguesa no Instituto Federal do Sudeste Mineiro e autor de Português; teoria e prática, pela Ática

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