Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > RIO SHOW

Descompromisso com o leitor

Por Anthenor Ramos em 01/03/2005 na edição 318

Na sexta-feira (18/2) saiu matéria de capa no caderno Rio Show, do Globo, que apresenta a programação cultural no Rio de Janeiro. Indicava uma festa, denominada Ploc’s 80, como um bom lugar para se passar horas agradáveis ao som de músicas da década de 1980.

Depois de ler o editorial assinado pela editora-assistente Gabriela Goulart, e a matéria do repórter Jefferson Lessa, resolvi conhecer o local naquela noite, pois parecia ser bom mesmo. Para minha surpresa, descobri que a casa tinha sido interditada pela Defesa Civil naquele dia, por falta de alvará e devida vistoria de suas condições de segurança.

Perplexo com o ocorrido, lembrando que outros locais em iguais condições haviam sido palco de tragédias – em Buenos Aires, em Belo Horizonte ou em Osasco –, no dia seguinte telefonei ao Globo para criticar o fato de o jornal ter feito matéria que induzia seus leitores a freqüentar um evento sem segurança; pois quem pode me garantir que não seria nessa sexta o dia da desdita no local?

Ressalto que telefonei na ilusão de que o jornal tinha esquecido de apurar esse detalhe fundamental sobre segurança, o que comprometia sua credibilidade, devendo portanto uma satisfação aos leitores pela falha.

Na quarta-feira (23/2) recebi telefonema do Globo, e a pessoa de nome Neli disse que estava ali para esclarecer o ocorrido. Ressaltou que o jornal não tem nenhuma responsabilidade quanto à interdição, pois fecha a edição da revista Rio Show na quarta-feira anterior à publicação. Alegou que a matéria tinha sido enviada pela assessoria de imprensa da casa e que eles não podiam prever que o local seria interditado. Contrapus que o jornal deveria ter apurado sobre as condições de segurança do local antes de indicá-lo; segurança, acredito eu, é item fundamental para a tranqüilidade das pessoas. Ao fazer matéria de capa o jornal estava corroborando a situação, que poderia acabar em tragédia envolvendo seus leitores.

Otários somos nós

Tive que ouvir que o jornal não tem obrigação de apurar se o local está ou não legalizado e seguro na forma da lei, que não tem esse compromisso com os leitores, que um caderno cultural apenas indica, e se a pessoa vai é por sua própria conta. Aí fiquei indignado. Afinal, compro um jornal porque acredito nele, compro um jornal para saber a opinião do jornal, e não de um assessor de imprensa. Se o jornal me envia a uma arapuca é porque acredito nele, e não porque gosto de arriscar minha vida por aí.

A encarregada me pediu então para aguardar, que consultaria a redação do jornal sobre o assunto. Veio então a decepção maior. O editor Artur Xexéo, um jornalista que considero formador de opinião (pelo menos colabora com a formação da minha), confirmou, segundo ela, que o jornal não tem obrigação de verificar se um local por ele indicado é ou não vistoriado pela Defesa Civil, se é ou não seguro para seus leitores.

A alegação faz pouco da minha inteligência, pois quando um jornal quer descobre até declaração de renda de corrupto.

Pergunto: quem deve fazer isso? Eu? A gente que se vire? Otários somos nós, que acreditamos em tudo que lemos? Lamentável.

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Engenheiro e tecnologista da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen)

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/03/2005 Sergio Luis dos Santos

    Sou obrigado a discordar completamente do autor do texto. Considero não ser responsabilidade do jornal saber se cada evento anunciado está de acordo com a legislação, se será realizado na hora e local anunciado e assim por diante. Seria o mesmo que obrigar o jornal a verificar a idoneidade de cada anunciante na seção de classificados, se cada imóvel está em situação regular quanto aos impostos, se cada carro está em dia com a documentação… O autor acha prático verificar se cada filme, novela ou transmissão esportiva ocorrerá como anunciado antecipadamente? Cabe ao leitor, após fazer sua escolha procurar se informar se o evento em questão se realizará e esperar que quem anuncia tenha cumprido todas as exigências, não ao jornal. Já pensaram se os jornais publicasem os horários de partidas dos vôos dos aviões e na hora ‘H’, o vôo não sai por algum motivo e culpar o jornal por não ter se informado antecipadamente se tal vôo sairia ou seria cancelado?

  2. Comentou em 02/03/2005 Cybelle Bittencourt

    Caro colega, o Espaço Marun possui todas as condições para seu funcionamento, tudo vistoriado pelo Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro. O que ocorre é que, no Rio de Janeiro, pelo menos 5 boates são fechadas por acharcamento de fiscais, afinal, eles tem poder de cassar ou não alvarás se não é pago o que é pedido por eles.

    Tanto a produção da festa PLOC quanto o dono do Espaço Marun foram avisados logo após a publicação da matéria de sexta-feira de que deveriam ‘colaborar’ com os fiscais para que a casa pudesse funcionar naquela noite.

    O que aconteceu foi que tanto a produção da festa quando a direção da casa não quis compactuar com isso, por isso aquela palhaçada na sexta-feira. Inclusive, a casa abriu as suas portas naquele mesmo dia, meia-noite e meia, na cara dos fiscais, que não estavam dispostos a ficar ali a noite toda e foram embora. No dia seguinte, a festa funcionou normalmente, com público recorde de 937 pessoas, praticamente o mesmo público de sexta passada, quando a festa novamente funcionou normalmente no local.

    Agora vc me pergunta porque o fato nao foi levado a policia? PQ senao nunca mais nem os produtores da festa nem o dono do local poderiam fazer algo na noite carioca, infelizmente dominada por uma corja de funcionarios da prefeitura marginais e corruptos.

    Cybelle Bittencourt
    assessora de imprensa

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