Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

Descontrole jornalístico em Franca

Por Messias Colenghi Stival Júnior em 28/11/2006 na edição 409

Em recente edição de um jornal de Franca (SP), foi publicada matéria expondo sérios problemas pelos quais passaria um querido professor local, com chamada de capa contendo os seguintes dizeres: ‘Professor Ângelo Persicano vai para o Allan Kardec’. E ainda complementa com um texto introdutório que diz: ‘Um dos mais antigos professores da Faculdade de Direito de Franca foi interditado por dilapidar seu patrimônio. Persicano acumula uma dívida estimada em R$ 400 mil e é réu em 50 ações de cobrança. Laudo médico aponta ‘desequilíbrio’ e ‘descontrole’.’

Minha pergunta inicial é: precisava disso? Com que finalidade social uma matéria desta é publicada? E ainda com chamada de capa! Reflexões me fazem pensar sobre o que leva um editor a escrever a respeito de algo tão pessoal assim; teria sido algum revide? Pode ser, visto que um advogado com a categoria de Ângelo Persicano, talvez, já tenha algum dia sido opositor em alguma das tantas causas trabalhistas e outras mais em que o tal jornal já foi réu… Quem sabe, não foi uma forma de se chutar a honra do professor, aproveitando-se da sua condição de indefeso? Que mal terá feito Persicano a este jornal para que ajam de forma tão cruel com a honra deste que é, sem dúvida, um dos maiores expoentes da carreira jurídica francana?

Dez mil vozes

A ética da vida diz que há certas coisas que não se deve sair por aí, espalhando, feito fofoca; fatos muito pessoais, principalmente aqueles que podem acontecer a qualquer um, não podem ser esparramados assim, sem o devido respeito. Ou será que em quase toda família não há um ‘desequilibrado’ e ‘descontrolado’ que precisou ser interditado para não dilapidar todo o patrimônio familiar? Ou será que em quase todas as famílias não há alguém internado em clínica de repouso para recuperação de alguma anormalidade? Ou será que em toda família não há alguém que seja réu em 50 ações? Então, que tal este jornal começar a divulgar todos os casos, a partir de agora?

Além de usar este espaço para um desabafo, pensei em usá-lo também para enaltecer a pessoa do professor Persicano, mas chego à conclusão de que, por mais que eu escreva, ainda assim será pouco para registrar toda a trajetória deste homem. Até porque apenas tive a oportunidade de conhecê-lo em 2005, em seu último ano letivo na Faculdade de Direito de Franca. Para nossa turma de 1ª série, ele lecionou Ciência Política, mas consta da história da faculdade que passou por inúmeras cadeiras do curso, sendo capaz de ministrar aula de qualquer disciplina da grade curricular. Contam seus alunos mais velhos que jamais tiveram aulas tão dinâmicas quanto as ministradas pelo antigo professor. É claro que, por já tê-lo conhecido em fim de carreira, não tive a sorte de ser brindado com magníficas aulas, mas sabíamos que estávamos diante de um mestre, exímio conhecedor da ciência jurídica.

A vida deste homem não cabe nem aqui e nem nas páginas deslustradas de um matutino sensacionalista; a história deste homem, para ser contada, precisa que se ouçam as vozes dos seus mais de 10 mil alunos, espalhados por todo este gigantesco Brasil e pelo exterior. As fronteiras dos ensinamentos do professor Persicano atravessaram divisas incalculáveis e inimagináveis. Para escrever sobre a vida deste homem, precisaríamos, sim, de uma enciclopédia, escrita por todos aqueles que, um dia, tiveram a oportunidade de, em um banco de faculdade, ouvir os ensinamentos deste mestre.

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Dentista, estudante de Direito, Franca, SP

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