Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1060
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Desenhos mais que animados

Por Robson Terra em 10/03/2009 na edição 528

Desenhos animados sempre foram pauta de diversão e boas conversas para adultos e crianças. Servem também como tapa-buracos na grade de programação das emissoras. A magia da animação consiste em ‘dar vida a coisas inanimadas ou dar uma espécie de vida diferente a coisas vivas. Eles efetuam uma metamorfose, maravilhosamente presente nos animais, plantas e nuvens de tempestade…’ E com a sincronia de efeitos sonoros mágicos ou onomatopéicos que a sonoplastia pode estimular. Desde o encantamento de Branca de Neve, nos anos 1930, que introduziu a figura humana, e Fantasia, que transformou em imagens grande obras musicais, porém, de resultado discutível, até as novas produções, os traços em movimento promovem ilusão e envolvimento.

Muitos questionamentos são feitos ao conteúdo das animações. Dia desses, na TV Globinho, o catecismo da programação televisiva, um filmete mostrava o professor Pateta. Os alunos da escola do mestre cão/homem lerdo eram absurdamente ousados, irreverentes, inconseqüentes, malvados, dissimulados, usavam revólveres em alguns takes, detonavam a escola, agrediam os colegas e ridicularizam o professor. Também, com esse nome: Pateta! O desenho estava recheado de maldades e medo… Medo pelas crianças. Naquele horário muitas delas estão ligadinhas na telinha, são os ‘tele-dependentes’, e vão, com certeza, reproduzir o modelo de comportamento na escola da vida real. Os efeitos nocivos e os significantes da cena são incorporados inocentemente ao comportamento delas como se fossem adequados, pois a TV ensina como viver melhor, ou como diz um slogan ‘A gente se vê por aqui!’

Brigas nas escolas

A maioria das animações é composta por elementos sado-masoquistas com agressividade gratuita. A ausência do pai é substituída pelas mensagens de concepção adulta da realidade. Outra característica já revelada por estudiosos é a de que os parentes são secundários: tios, vovós e primos na ausência da autoridade e o reforço das figuras masculinas, os eternos solitários. Para Erwin Panofsky ‘os primeiros filmes de Disney, representaram, por assim dizer, uma destilação quimicamente pura de possibilidades cinematográficas. Eles conservam os elementos folclóricos mais importantes – sadismo, pornografia, o humor gerado por ambos, e a justiça moral – quase sem diluição e amiúde fundem esses elementos numa variação sobre o motivo primitivo e inexaurível de David e Golias, o domínio do aparentemente fraco sobre o aparentemente forte […]’. Existe cena mais sádica que Branca de Neve perdida na floresta? Existe: o incêndio na floresta que resulta na morte da mãe de Bambi. E as linhas sinuosas do corpo em strip-tease de Jéssica, a namorada sexy do coelho Roger Rabbit?

Os inocentes, coloridos e atraentes desenhos, a partir dos anos 1950 e 1960, podem fazem parte do cerco ao ser humano através da televisão, rádio, cinema, publicidade ou anúncios. E Zillman chamou de transferência de excitação quando assistir a cenas violentas implica num estado de excitação fisiológica que pode ser transferido para outras situações da vida real. Os telespectadores mirins, inocentes midiáticos, reagem de maneira mais agressiva do que o normal quando expostos a situações que provocam emoções e transferem para a nova provocação o modelo em que estão de excitação anterior. Por isso as brigas e algazarras nas escolas?

Motivações ocultas nas condutas

Dar forma de vida diferente a coisas vivas nos desenhos animados promove a nova forma de reação social. Na concepção dos desenhos trabalham-se esses conceitos. A produção dos videogames, um dos maiores nichos da indústria do entretenimento, segue a estratégia de produção inspirada na natureza humana denotada por Panofsky, no artigo ‘Estilo e meio no filme’.

Na recepção das mensagens subliminares estão acontecendo deformações de comportamentos sociais que a comunidade escolar ou familiar não pode controlar. A alfabetização midiática faz parte da construção social da realidade desde os anos setenta. Os desenhos, mais que animados, criam a ilusão de que protegem, dentro dos apartamentos, os pequenos das maldades da rua, mas na concepção de Piaget ‘as crianças menores se detêm nos aspectos mais superficiais das interações representadas nos filmes (ambiente físico e condutas explícitas) e os meninos maiores chegam a atribuir as motivações ocultas nas condutas, conjeturando sentimentos’.

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Jornalista, professor universitário e mestrando em Comunicação e Tecnologia

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