Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DO LEITOR > TRAGÉDIAS & ENCHENTES

Destruição sem mortes não dá notícia

Por Ligia Martins de Almeida em 26/01/2010 na edição 574

A tragédia do Haiti e a movimentação internacional para ajudar os sobreviventes do terremoto tem mobilizado a imprensa – nacional e internacional – todo os dias e, no radio, TV e internet, a toda hora. O que explica essa obsessão por corpos espalhados nas ruas, a descrição macabra que de o cheiro é insuportável etc. etc.? Gay Talese, no seu livro O Reino e o Poder, explica: ‘Os repórteres preferem ver países em ruínas e navios a pique do que uma cena sadia que compõe boa parte da vida’.

O repórter Gustavo Chacra, autor da citação (O Estado de S. Paulo, 16/1/2010), não concorda:

‘Ver todas essas coisas e escrever as reportagens, com a pressão do horário do fechamento, do texto claro, com a internet caindo, é um dos principais desafios de qualquer jornalista. Mas o importante são as histórias. Haitianos que foram queimados ou enterrados sem identificação. Nunca saberemos quem foram, suas memórias, se tinham filhos ou seus planos, interrompidos pelo terremoto. Mas várias pessoas ainda podem estar sob os escombros . É por essas histórias que pegamos filas para entrar na Faixa de Gaza e embarcamos em monomotores para Porto Príncipe.’

Na mesma edição, Lourival Sant´Anna dá uma outra visão do trabalho jornalístico, falando da abordagem que os jornalistas sofrem em Porto Príncipe:

‘Vistos como fonte de dinheiro, os repórteres são constantemente assediados. A abordagem vai de um pedido de ajuda ou de esmola até a extorsão aberta. Fazer nosso trabalho sem ceder a esses assédios, que distorcem a relação entre jornalistas e entrevistados, é talvez o maior desafio da cobertura.’

Preocupados em fazer o melhor texto, conseguir as melhores histórias – o que é absolutamente natural e talvez a essência do nosso trabalho –, os repórteres têm de buscar o lado mais trágico e, por consequência, mais motivador. E o público, acostumado a valorizar histórias sangrentas, acaba se comovendo com a tragédia de um país – que já vivia uma situação desesperadora antes do terremoto – e quer ajudar, como puder.

Campanha em curso

Podemos dizer que os repórteres estão fazendo a sua parte, que a imprensa está contribuindo para minimizar o sofrimento do povo do Haiti, que o mundo, enfim, acordou para a trágica situação de um país que talvez consiga tirar alguma coisa boa dessa tragédia.

Os repórteres vão disputar prêmios com seus textos, as redações vão comemorar uma série de edições vencedoras – e, portanto, vendedoras – e todos vão sair, em alguns dias, em busca de novas pautas tão fascinantes como o desmoronar de um país. Talvez aí sobre algum espaço para as tragédias nacionais, como Angra dos Reis (que foi notícia só até enterrar o último morto) e São Luiz do Paraitinga, que está com metade do centro histórico profundamente machucado, centenas de desalojados, crianças sem escola, arquivos da prefeitura e dos cartórios perdidos, duas igrejas históricas que viraram um amontoado de entulho. A economia parou.

Como a tragédia de São Luiz do Paraitinga deixou apenas um morto, logo saiu do radar da mídia. Foi assunto nos dois primeiros dias do drama, nas visitas oficiais, e acabou. Não fosse a internet, seria impossível saber que existe uma campanha de doações em curso para ajudar os desabrigados, ou tomar conhecimento das gestões da prefeita Ana Lúcia Billard para reerguer a cidade.

Oportunidade de marketing

A imprensa não tem, entre seus deveres, de promover campanhas de ajuda a necessitados. Mas deveria ter sensibilidade para perceber que (como disse o repórter referindo-se ao Haiti) que aqui, perto de nós, há muitas histórias de vidas destruídas que podem render belas pautas e textos melhores ainda, com o subproduto de ajudar essas pessoas. Um repórter sensível que for a São Luiz do Paraitinga e consegue fazer uma história que emocione e motive os brasileiros a ajudar os 11 mil habitantes dessa cidade histórica – todos, absolutamente todos, afetados pelo desastre.

E, quem sabe, construtoras, indústrias de geladeiras, de fogões e de alimentos vejam uma oportunidade de marketing na ajuda a esses brasileiros tão necessitados.

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Jornalista

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