Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & CONSUMO

Dia das Mães ou Dia do Comércio?

Por Ligia Martins de Almeida em 06/05/2008 na edição 484

A proximidade do Dia das Mães já pode ser sentida na imprensa. Por enquanto, nos anúncios, que prometem eletrodomésticos, telefones celulares, TVs, carros a preços especiais para a mulher que já foi a ‘rainha do lar’ e hoje é dissecada em pesquisas que procuram determinar que tipo de consumidora ela é. Os cadernos femininos capricham na lista de presentes, que vão de louças e roupa de cama a artigos de moda para as mães ‘clássicas’, ‘moderninhas’, ‘bacanas’ e outras.

Mas não duvide que Carolina, a mãe de Isabella Nardoni, vai ser a personagem principal, a mãe-símbolo em todos os jornais. Embora o assunto já tenha esfriado – não é todo dia que um ídolo como Ronaldo (o fenômeno) é envolvido num belo escândalo –, a imprensa não vai perder essa chance de voltar ao crime do ano. E assim, entre o melhor presente e a imagem da jovem mãe que perdeu a filha num crime que ainda vai dar muito que falar, teremos mais um dia para o comércio comemorar suas vendas extraordinárias, previstas para esse período de economia farta como o que vivemos.

Vai faltar, como sempre, uma boa matéria discutindo a verdadeira situação da mãe trabalhadora, da mãe que não tem dinheiro para dar aos filhos e permita que eles possam entrar na roda do consumo, da mãe que, no máximo, vai ver, no programa do Faustão ou no Fantástico como foi o dia das mães das celebridades.

Anúncios e dinheiro

Em tempos em que se discute se o aborto deve – ou não – ser considerado crime e o governo cria um cadastro nacional de crianças adotáveis, para tornar o processo mais fácil, seria interessante discutir, com maior profundidade, o quanto mudou o papel da mãe na nossa sociedade. Afinal, é a própria imprensa que nos mostra o aumento da gravidez indesejada entre adolescentes, do planejamento familiar que as famílias de classe média já praticam e das mulheres que adiam a gravidez em função do desejo de construir uma carreira profissional sólida.

Maternidade vira assunto só quando uma criança é morta ou quando se torna um comportamento diferenciado – e envolvendo muito dinheiro –, como na matéria Gravidez a Soldo:

‘No Brasil, o aluguel de uma barriga é permitido somente em ‘caráter solidário’. Ou seja, entre mulheres com algum vínculo afetivo e sem a presença de dinheiro. Assim determinam as normas dos Conselhos Regionais de Medicina. Na prática, porém, a história é outra. Dos 170 centros brasileiros de medicina reprodutiva, 10% oferecem a suas clientes um cadastro de mulheres dispostas a locar seu útero – e receber por isso. Uma única clínica de São Paulo, só no ano passado, intermediou doze transações do gênero. As incubadoras humanas também podem ser facilmente encontradas na internet, em sites gratuitos de classificados’ (Veja, 04/05/2008).

Seria oportuno aproveitar o Dia das Mães para ir um pouco além da lista de presentes, de como foi o dia de mães famosas e das cifras que o comércio faturou com a data. Seria oportuno até mostrar a situação das crianças que agora vão fazer parte do cadastro nacional. E a situação das mulheres que abortam ou doam os filhos porque não têm condições de criar e educar crianças. Seria oportuno, enfim, ver, na mídia, o lado não comercial desta data que rende tantos anúncios e gera tanto dinheiro.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/05/2008 José Ricardo

    O dia das mães é uma data oportunista para ver cansativas propagandas, prometendo os melhores preços e felicidade total para sua mãe. O problema é que a maioria das compras não chega no dia combninado e traz infelicidade para o consumidor que aguenta OS PREÇOS aumentando nessa data. O consumidor ainda é muito desrespeitado no Brasil.

  2. Comentou em 09/05/2008 Felipe Faria

    Pô , Dr silvio, comemorar o dia das mães com aborto?

  3. Comentou em 08/05/2008 Nathalia dos Santos

    O dia das mães é um dia que proporciona lucro para todas as partes, e a industria se beneficia do mesmo jeito que as mães se beneficiam. E se a senhora fala que o caso da Nardoni está esfriando, porque continua no assunto? O Brasil parou para esse assunto, mas agora ele já não sofre mais, porque isso, no nosso país, está ficando comum.

  4. Comentou em 07/05/2008 Felipe Faria

    A autora deveria comprar um belo presentinho para sua genitora, passar o dia com ela, e deixar de implicar com o comercio, pois é ele e a industria que proporcionam os empregos tão necessários para o bom funcionamento do país, o governo agradece.

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