Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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FEITOS & DESFEITAS >

Diferentes, mas sempre iguais

Por Vilson Vieira Jr. em 15/08/2006 na edição 394

‘Nunca houve tanta falta de pluralismo na mídia brasileira como nos tempos atuais de hegemonia do neoliberalismo (…). Os jornais de referência nacional se tornaram tão parecidos que é comum confundir um com o outro nas bancas de revistas. Trazem as mesmas manchetes, as mesmas fotos dispostas da mesma forma, e os mesmos nomes de colunistas’.

Esse trecho, retirado do artigo ‘Do discurso da ditadura à ditadura do discurso’, escrito por Bernardo Kucinski em edição do Cadernos Le Monde Diplomatique (número e data da edição desconhecidos), foi o que me levou a observar as primeiras páginas dos principais jornais brasileiros datados de 11 de agosto de 2006. Ao visitar um sítio internacional que dispõe as capas dos maiores e mais influentes diários do mundo – indicado ocasionalmente por minha professora do curso de Jornalismo – pude constatar, na prática, em certos aspectos, o que Kucinski bem descreveu.

Com o intuito de uma simples análise comparativa, sem adotar meios e/ou estratégias de pesquisas mais complexas, resolvi checar até que ponto, no que se refere aos assuntos em destaque (as manchetes), os jornais por mim escolhidos se assemelhavam. Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e O Globo foram os periódicos selecionados, tendo em vista a expressão política e também sua influência em todo o Brasil, não somente no eixo Rio-São Paulo.

Como que por decreto ou consenso, os quatro jornais repetem a grande manchete do dia: a polícia britânica conseguiu desarmar um plano terrorista para explodir aviões de passageiros entre Inglaterra e Estados Unidos. Tal manchete divide espaço com outra grande notícia, o relatório divulgado pela CPI das Sanguessugas, envolvendo dezenas de parlamentares em esquema de corrupção. Em O Globo, a ameaça de novos atentados, sob o título ‘A globalização do medo’, divide a atenção com outra informação não menos ‘bombástica’: ‘CPI quer cassar 72, mas eleitor pode punir antes’, seguida do subtítulo ‘Relatório aponta envolvimento de 69 deputados e 3 senadores com sanguessugas’. O Jornal do Brasil oferece destaque ainda maior ao ‘grande feito da polícia britânica’ com o título ‘Terror no ar’ e, logo abaixo, grande infográfico explicativo. Ao contrário de O Globo, o JB não dá destaque ao relatório dos ‘sanguessugas’ na primeira página do jornal.

Visão uniforme

Repetindo a dose, Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo também trazem com especial destaque de primeira página o desmantelamento, pela Scotland Yard, do plano para a explosão de 10 aeronaves com destino aos EUA. No Estadão: ‘Ingleses frustram maior plano terrorista desde 11/09’. Globo e Estadão fazem questão de frisar que o plano terrorista desfeito, caso fosse à frente, seria o maior atentado desde o 11 de setembro de 2001. A Folha resolve partir de outro enfoque: ‘Inglaterra diz que evitou atentados’. Ambos os jornais tratam do caos instaurado nos aeroportos espalhados por todo o mundo em virtude da ‘ameaça terrorista’ em Londres. Quanto ao relatório da CPI dos Sanguessugas, o Estado lhe dedica espaço menor no canto superior direito da página, com o título ‘CPI acusa 12% do Congresso em relatório’. Já a Folha reserva lugar mais generoso ao assunto, bem abaixo da notícia vinda de Londres: ‘CPI dos Sanguessugas pede a cassação de 72 congressistas’. Mas as chamadas nos levam a abordagens muito semelhantes.

Também chama a atenção pela semelhança de títulos e enfoques a notícia da entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, do candidato à reeleição para a presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, destaque de primeira página apenas nos dois jornais cariocas. Tanto O Globo quanto Jornal do Brasil fornecem ao leitor o mesmo recorte jornalístico. Com os títulos ‘Nervoso, Lula erra em entrevista’ (O Globo) e ‘Atos falhos denunciam tensão de Lula na Globo’ (JB), os dois jornais, como num consenso, decidiram que o eixo da matéria seriam os ‘deslizes’ do candidato na entrevista a William Bonner e Fátima Bernardes.

Um leitor mais atento pode se perguntar: que motivos levam a essa mesmice nos jornais brasileiros? Entre tantos possíveis, a concentração desses veículos em mãos de poucas famílias ou grupos, menos de uma dezena, todos igualmente fiéis representantes das classes mais elitizadas da sociedade, além de interesses comerciais e políticos comuns. Fatores que acabam se refletindo, de uma forma ou de outra, na identidade dos jornais, padronizando seu conteúdo e, conseqüentemente, imprimindo-lhes uma visão uniforme, com raras divergências, sobre os fatos.

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Estudante de Jornalismo, 26 anos, Serra, ES

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