Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > CAIXOTINS

Dígito não é papel

Por Carlos Brickmann em 17/02/2004 na edição 264

A coisa passou meio batida, a imprensa não deixou de noticiá-la, mas o fez com a maior discrição possível – e, no entanto, é a criação, por portaria, de novas obrigações tributárias não previstas em lei. Recordemos: a primeira função do Poder Legislativo é cuidar de tributos. O nosso não tem cuidado disso nem mesmo quando é pago para reunir-se extraordinariamente.

A nova obrigação tributária, definida por portaria da Receita Federal, é a declaração de renda por internet para quem tiver renda superior a R$ 100 mil anuais. Declarações de renda em papel, nessa faixa, simplesmente não serão aceitas. E quem não tem computador – por opção ou por não saber manejá-lo? Simples: tem de pagar um contador que a faça, aumentando suas despesas com o pagamento de impostos sem que nenhuma lei o autorize.

Aceitar declarações por internet é um avanço; exigir que sejam feitas por internet é um avanço na renda do cidadão. A lei exige que a renda seja declarada. Conhecer informática, ou pagar para alguém que a conheça, não é exigido em lei nenhuma. Alô, companheiros jornalistas, formadores de opinião! Vamos ficar quietos até que o MSC, Movimento dos Sem-Computador, resolva manifestar-se?

 

A profissão dos outros

Tudo bem, pessoas que se candidatam a aparecer no Big Brother não podem ser avessas à exposição. Mas não é preciso exagerar – e essa discussão sobre a vida pessoal dos BBBs, em outros canais de televisão, ultrapassa os limites do que é aceitável. Se a moça exerce a profissão de garota de programa, se o rapaz é namorado de outro, qual é o problema? Em que isso afeta seu desempenho no Big Brother Brasil?

Vamos com calma: não é porque se expõem 24 horas por dia durante alguns meses que os candidatos devem ter sua vida pessoal escancarada nas tevês e rádios. Exposição é lá dentro da casa. Fora da casa, todos têm direito à intimidade – e os jornalistas precisam conter-se para não invadi-la.

 

País certo

Na coluna anterior, comentava-se a notícia, de uma revista, de que o fotógrafo Helmut Newton teria deixado a Alemanha pela Áustria para fugir do nazismo – ou seja, fugira de um país nazista para outro. A leitora Marguerita, que mantém o sítio www.themindofmarguerita.com, conta a história toda: Helmut Newton fugiu de Berlim para Cingapura e viveu na Austrália durante a guerra.

 

Boa notícia

Anote: em http://www.camara.gov.br/internet/contas/vi/pesquisa.asp, você tem acesso ao relatório dos gastos de cada deputado federal para hospedagem, alimentação, compra de softwares, material de escritório, tudo o que se inclui na chamada ‘verba indenizatória’. Não é tudo o que os nobres parlamentares gastam, mas este endereço eletrônico já é um bom começo.

 

Tudo falso

Uma mensagem que circula há meses na internet acusa o deputado federal Jutahy Magalhães Jr. (que seria do PFL) de apresentar um projeto que proibiria a investigação de denúncias de corrupção contra autoridades em geral. Tudo falso: este projeto não existe, Jutahy Magalhães Jr. é do PSDB e ninguém está proibido de investigar denúncias. O que existe é um projeto que transfere acusações contra autoridades da primeira para a segunda instância – ou seja, o julgamento é feito pelo Tribunal, e não por juiz singular. Motivo do projeto: evitar que autoridades e ex-autoridades tenham de passar o tempo enviando advogados a cada cidade remota de seu Estado para responder a processos. Todos são julgados nas capitais.

Cuidado com a internet! Um instrumento tão útil para divulgar informações acaba sendo utilizado muito mais para a contra-informação.

 

A estrela volta

Beyla Genauer, atriz que, com Sérgio Cardoso, Sérgio Britto e outros formou o Teatro dos Doze, que revolucionou o palco nas décadas de 50 e 60, retorna como escritora – e escreve tão bem como representa. Acaba de lançar três livros de contos curtos, Galo de Chagall, O Lobo e Levantar Vôo.

Trecho de Galo de Chagall (Massao Ohno Editores, capa de Glauco Rodrigues, ilustrações da própria autora), que interessa diretamente a nós:

‘Vieram jornalistas do mundo inteiro, convictos de sua importância, megalomaníacos, certos de que sem eles não aconteceria nada. Como é que o mundo poderia continuar se eles não notificassem os acontecimentos? As guerras não existiriam. O Sol não nasceria. A Lua se afogaria no mar. Nada seria projetado nas televisões do mundo, com seus cabos e vassouras.’

 

Lá e cá

O New York Times está discutindo os limites de concentração da mídia nos Estados Unidos. E lá a lei é muito mais rígida do que aqui – impedindo, por exemplo, a propriedade cruzada de meios de comunicação na mesma cidade. Essa história de uma só empresa ser dona de rádio, televisão, jornal e revista no mesmo lugar é coisa de Terceiro Mundo.

 

Oba, oba

A leitora Flávia, estudante de jornalismo, elogia esta coluna: ‘Li seu texto no Observatório da Imprensa sobre o episódio de Ms Jackson…e pela primeira vez li uma coisa que faz total sentido…que coisa…só o que se lê em jornais e revistas é sobre esse assunto…como se não existissem coisas mais escandalosas acontecendo e coisas mais importantes…quanta mediocridade…Parabéns pelo texto’

Flávia: pelo jeito, nossos meios de comunicação encontraram, além deste, outro assunto importante. Claro: as atividades dos participantes do Big Brother Brasil antes de participar da prova.

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Jornalista, e-mail carlos@brickmann.com.br

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