Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > OI NO RÁDIO

Dilma e o bispo, PCC e o mensalão

Por Mauro Malin em 28/07/2012 na edição 704

Sobre comentário para o programa radiofônico do OI, 27/7/2012

 

Os caminhos de Deus são infinitos. As possibilidades de editar uma notícia não chegam a tanto, mas são variadas. Na sexta-feira (27/8), cada um dos três jornais mais importantes do país apresentou de modo diferente a visita da presidente Dilma Rousseff aos estúdios da Rede Record, em Londres.

O Estado de S. Paulo publica foto em que Dilma aparece ao lado do bispo Edir Macedo, dono da Record. A Folha dá três fotos. A primeira é a mesma usada pelo Estado. A segunda é a que saiu no site do Planalto: Macedo não aparece. Lembra as montagens do titio Stálin. Na terceira, o bispo milagreiro está encoberto por um celular.

O Globo não dá nada. No primeiro caderno, Dilma aparece em foto ao lado de Eduardo Paes e de Sérgio Cabral Filho. No caderno de esportes, Dilma está diante do presidente da Fifa, Joseph Blatter, que não é bispo mas se acha um chefe de Estado. Blatter, segundo a cobertura do Globo, escrita em português estropiado, disse que ele e Dilma combinaram encontros “a nível” presidencial.

Virgílio escreveu que a sorte ajuda os audazes. Macedo e Blatter concordariam com o poeta da Eneida.

A bem da verdade, registre-se que o site do Planalto oferece aos visitantes um vídeo em que a presidente da República aparece ao lado do bispo. Mas a imagem em destaque no site é a foto sem bispo.

 

Estruturas criminosas

Desde o início da década de 1990, o governo paulista ignora oficialmente a existência do PCC, hoje a maior organização criminosa do país. Em 2006, o Primeiro Comando da Capital, ajudado por emissoras de rádio e televisão sensacionalistas, parou São Paulo. A situação foi contornada mediante um acordo entre representantes das duas partes, governo e PCC, este na pessoa de Marcos Camacho, o Marcola, num presídio de segurança máxima.

O governo paulista ignora também a existência de organizações criminosas dentro das polícias militar e civil do estado. Assassinatos em série de PMs e represálias contra “suspeitos” ocorridos desde meados de junho na Grande São Paulo parecem indicar que a estratégia de deixar as quadrilhas se autorregularem não funciona mais.

Agora, sempre negando, o governo paulista está diante de duas poderosas estruturas criminosas. A estrutura simplesmente ilegal, hegemonizada pelo PCC, e estruturas duplamente ilegais abrigadas dentro do aparelho de Estado.

A imprensa caiu no conto do vigário das estatísticas criminais. Não é que elas não sejam úteis. São. Mas a análise da criminalidade e da violência não pode ser regida por números, muitas vezes enganadores e sempre suscetíveis de manipulação.

 

A primeira denúncia do mensalão

O mensalão também foi longamente ignorado entre a primeira denúncia e a operação de Roberto Jefferson, em maio de 2005. Quem deu a notícia foi o jornalista Carlos Chagas, numa coluna publicada em fevereiro de 2004 na Tribuna da Imprensa, hoje extinta.

Em setembro daquele ano, o deputado Miro Teixeira fez uma denúncia formal. O então presidente da Câmara, João Paulo Cunha, disse que ia mandar apurar. Em outubro, comunicou que a investigação não apontara nenhuma irregularidade. Cunha é um dos acusados de pertencer à grei dos mensaleiros.

Carlos Chagas falou ao Observatório da Imprensa sobre esse episódio. Diz que um dos mensaleiros recebia o dinheiro em espécie em Belo Horizonte e ficava com medo de levá-lo de avião para Brasília.

Carlos Chagas – Poderia haver um roubo, abrir a mala, qualquer coisa assim. Foi por aí, através desse pombo-correio, que eu fiquei sabendo.

E você já mencionava o nome do famoso Marcos Valério.

C.C. – Exatamente. Eu tive o nome dele, que era quem distribuía o dinheiro. Quem mandava: “Vai no banco tal”, o Rural, banco…

A que você atribui o fato de não se ter falado nisso?

C.C. – Porque certas notícias… Aí entra um pouco… Quem não deu fica com ciúmes. E quem deu também não vai ficar insistindo numa coisa que… é só aquilo que você tem. Eu não ia sair investigando.

E o Marcos Valério não moveu nenhuma ação, não contestou?

C.C. – Não deve nem ter lido. A minha coluna sai ainda, mas saía em outros jornais [além da Tribuna da Imprensa], mas nenhum lá em Minas. Passou. É dessas coisas que… quando o dono da fazenda viaja, e lá um capataz dele, um peão dele, sai roubando um cabrito. Pega o cabrito, bota no ombro e sai roubando. Mas o patrão aí volta e diz: “Tá roubando o meu cabrito!”. “Cabrito, que cabrito? Sai daí, bicho, sai daí!” É a mesma coisa, esse tipo de notícia.

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