Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > IGREJA CATÓLICA

Dinheiro sempre dá confusão

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 09/10/2007 na edição 454

Na Itália, desconta-se do pagamento recebido 0,8% (o oito por mil) de Imposto de Renda, que aqui é chamado imposta sul reddito delle persone fisiche IRPEF. O contribuinte tem seis entidades religiosas e o Estado para escolher para onde irá seu dinheiro [Igreja Católica Apostólica Romana, o Estado, Igreja Evangélica Valdelsa, União das Comunidades Hebraicas Italianas, Igreja Evangélica Luterana na Itália, Assembléia de Deus e União das Igrejas Cristãs Adventistas do Sétimo dia]. A Igreja Católica Apostólica Romana abocanha 89,81% do total dessa arrecadação, o que, traduzido em dinheiro, equivale a 1 bilhão de euros (mais de R$ 2 bilhões).

Nesta última quarta feira (3/10), o jornalista Curzio Maltese, de la Repubblica, publicou artigo em que o título já diz tudo: ‘Aonde vai acabar o oito por mil, segredo de um bilhão de euros’ (Dove finisce l’otto per mille segreto da um miliardo di euro).

O mundo publicitário considera as campanhas do oito por mil um modelo de comunicação, que a Igreja Católica, a cada primavera, veicula na mídia. Boas tomadas, excelentes fotografias e músicas de Morricone. Foi exatamente nos gastos dessa área que Maltese fez suas pesquisa. Na campanha para acudir os atingidos pelo tsunami que em 26/12/2005 atingiu a Tailândia e Indonésia deixando 230 mil mortos, a Igreja contratou a Saatchi&Saatchi por 9 milhões de euros, mas, segundo a Conferência Episcopal Italiana, foram doados aos flagelados somente 3 milhões, isto é gastou três vezes mais com a propaganda do que com o objetivo da campanha.

Hipocrisias e meias-verdades

Fiéis e não fiéis estão convencidos (pela propaganda) que a Igreja Católica usa os fundos do oito por mil acima de tudo para a caridade na Itália e nos países do terceiro mundo. Todavia, a realidade se mostra bem diferente: do total para esse fim são gastos somente 20% e os restantes 80% ficam na Igreja.

Em 1996, uma voz já esquecida resolveu falar sobre o assunto. Foi a católica ministra para a Solidariedade Lívia Turco, que propôs destinar a cota estatal do oito por mil a projetos para a infância carente. O fato abespinhou o tesoureiro do Vaticano, monsenhor Attilio Nicora, que de forma seca encerrou o assunto: ‘O Estado não pode fazer concorrência desleal à Igreja’. Maltese procurou a ex-ministra e dela ouviu: ‘Na minha ingenuidade, pensei que a proposta encontrasse a boa recepção de todos, inclusive da igreja, uma vez que a Itália é o país da União Européia com mais alto percentual de pobreza infantil. Ao contrário, a reação da Igreja foi duríssima e, aborrecida, logo me isolei da política: vivi a vicissitude com grande amargura.’

Para a Igreja, o trabalho de Maltese não passou batido. O jornal dos bispos Avvenire e o hebdomadário Famiglia Cristiana lançaram-se contra a pesquisa de la Repubblica.

O Avvenire fala de totais hipocrisias e meias-verdades, enquanto a Famiglia Cristiana pergunta: ‘Quem quer reduzir ao silêncio os católicos?’ E continua: ‘Os padres são vistos como libertinos pedófilos e molestadores sexuais, verdadeiros filhos de Sodoma e Gomorra, enquanto a Igreja é apresentada como um peso falimentar que necessita de ajudas do Estado.’

Deus não quer que sobreviva

Ezio Mauro, diretor de redação de la Repubblica, por seu lado, não fez a resposta esperar:

‘Conduzir uma investigação jornalística, recolher opiniões, apresentar cifras e balanços tomados de fontes oficiais católicas, por que deve constituir uma ameaça ou uma conspiração para eliminar o pensamento católico do espaço público? Não me consta que na Concordata (Tratado de Latrão, que separou o Reino da Itália do Vaticano), conste talvez uma cláusula desconhecida, que estabeleça áreas para o exercício do jornalismo livre. Ou que os financiamentos da Igreja devam sofrer uma censura não prevista a outras instituições italianas e ocidentais em vigor somente nos países não democráticos?’

A Igreja Evangélica Valdelsa (do século 12), à qual são destinados 1,43% da arrecadação do oito por mil, dá sua opinião através da ‘moderadora’ Maria Bonafede: ‘O dinheiro dos oito por mil vem da sociedade e para ela deve voltar. Se uma Igreja não se consegue manter com as contribuições espontâneas, é sinal que Deus não quer fazer com que tenha sobrevivência.’

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Jornalista

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