Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > EXPLOSÃO ÁRABE

Ditadura, não

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 08/03/2011 na edição 632

Mais uma ditadura dá sinais de exaustão nos países do norte da África e do Oriente Médio. Depois da Tunísia, Egito, Bahrein, Marrocos e Arábia Saudita (onde o rei Fahd bin Abdul Aziz Al-Saud, com medo de ser deposto, anuncia bondades para a população), agora é a Líbia. Há 42 anos no poder, o presidente Muamar Kadafi se recusa a deixar o comando do país e, como todo ditador, acusa a oposição de tentar apeá-lo do governo. E já avisou que resistirá até a morte para não deixar o controle da Líbia – que ele parece considerar sua propriedade. ‘Ditadura representa o esmagamento de todas as liberdades, como mostram os países que tiveram a desventura de vê-la vitoriosa’, como dizia José de Freitas Nobre (1921-1990).

Freitas Nobre, além de advogado e professor, foi também político, filiado ao velho MDB. Não deu trégua à ditadura militar no Brasil na década de 1970 e em nenhum momento transigiu com aquele regime de exceção. Ao contrário, combateu-o. Para ele, ‘o Estado, nas mãos de um partido ou de uma classe que se apoia na força e na violência em proveito de uma única fração da sociedade, leva aos piores excessos e conduz qualquer país à ruína, à regressão, à barbárie’. Aí estão as ditaduras nos países árabes a comprovar as palavras do saudoso parlamentar.

Agora, é esperar para ver

Mas, afinal, o que motivou o povo árabe a se insurgir contra os seus governantes de uma hora para outra? Opiniões as mais diversas entraram em campo. Para a esquerda, as rebeliões árabes são movidas por ideais socialistas. Até o slogan ‘trabalhadores do mundo inteiro, uni-vos!’ foi retirado do Manifesto do Partido Comunista (1848), de Marx e Engels, para reforçar suas convicções. Para a direita, toda aquela movimentação popular tem por objetivo a instalação de democracias liberais – nos moldes dos Estados Unidos e de alguns países europeus. Já Rémy Ourdan (Le Monde, 22/02/2011) diz acreditar que as revoluções se devem ao entusiasmo dos jovens ligados à rede mundial de computadores. ‘Os internautas e blogueiros, adeptos do Facebook, Twitter e YouTube, desencadearam uma mobilização popular que vem se estendendo a quase todos os países árabes. O ícone dessa geração se chama Wael Ghonim e ele é egípcio.’

Esta, aliás, é uma das opiniões mais recorrentes na internet e nos meios de comunicação. Não há, para decepção dos ideólogos, nenhum indício de que as revoltas no Oriente Médio foram incentivadas por algum partido ligado à direita ou à esquerda. As novas tecnologias da informação, sim (para citar Ourdan), são os agentes impulsores de tais inquietações. A minha dúvida é quem, ou que modelo político, vai prevalecer naquelas nações depois de todo esse reboliço. Ouvi opiniões de vários cientistas políticos sobre o assunto e não vi consenso entre eles. Agora, é esperar para ver que destino o povo árabe vai escolher. Tomara que aquela gente sofrida não ceda aos apelos encantatórios dos espertalhões, prontos para dar o bote e levá-la de volta ao obscurantismo através de novas autocracias opressoras – como o fazem há séculos.

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Jornalista, Salvador, BA

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