Quarta-feira, 18 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Ditadura, nunca mais

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 02/06/2009 na edição 540

Ditadura, seja de direita ou de esquerda, representa o esmagamento de todas as liberdades, como mostram os países que tiveram a desventura de vê-la vitoriosa. O Brasil e a Rússia são dois exemplos. Aqui, em 31 de março de 1964, os militares derrubaram João Goulart do poder e mergulharam o país na mais obscura e cruel fase da sua história. 21 anos em que a nação viveu sob o regime ditatorial marcaram seu povo e suas instituições. Duas décadas de confronto entre governo e oposição, em que ambos os lados se utilizaram de todos os recursos disponíveis: o governo, a censura e a tortura; a oposição, o sonho libertário e a coragem. Em 1985, com a campanha das ‘Diretas já’, surgiu uma luz no fim do túnel e os brasileiros entenderam que era hora de lutar pelo que lhes parecia justo – ver seus sonhos de liberdade realizados; viver em um país socialmente justo; eleger seus representantes livremente.

Na Rússia, em março de 1917, o czar Nicolau II foi retirado do poder. Assumiu Kerenski (menchevique) em seu lugar, como governo provisório. Como Kerenski não se mostrou capaz de mudar as coisas, os bolcheviques, liderados por Lênin, organizaram uma nova revolução, que ocorreu em outubro de 1917. A partir daí, implantou-se o comunismo, cujo regime desembocou numa ditadura sangrenta, distante do que Marx e Engels disseram acreditar ser a sociedade ideal do futuro. Em 1956, o mundo tomou conhecimento dos primeiros sinais de exaustão da ordem social implantada na Rússia após a imprensa revelar o Relatório Kruchev, documento que expôs as atrocidades de Stalin enquanto esteve à frente dos destinos daquele país.

Golpistas inescrupulosos

Como observa o historiador marxista e comunista heterodoxo Eric Hobsbawm (Tempos Interessantes – uma vida no século XX, 2002, p. 229), ‘o que perturbou a grande massa de seus membros foi o fato de que a brutal e impiedosa denúncia de crimes de Stalin não vinha da `imprensa burguesa´, cujos artigos, ainda que fossem lidos, sempre podiam ser rejeitados como calúnias e imposturas, mas sim, da própria Moscou’. Em 1991, o regime russo desmoronou completamente, deixando atrás de si um panorama de ruína moral e material, terminando uma era histórica. Para Hobsbawm, ‘o que restava do antigo movimento comunista internacional jazia como uma baleia numa praia de maré baixa’ (id., p. 173).

Podem-se tirar lições dessas aventuras desastrosas? Sim. A principal é a que mostra que o Estado, nas mãos de um partido ou de uma classe que se apóia na força e na violência em proveito de uma única fração da sociedade, leva aos piores excessos e conduz qualquer país à ruína, à regressão, e à barbárie. Infelizmente, porém, nem todos os brasileiros aprenderam com a história, principalmente aqueles que fazem parte da esfera política nacional. Não é que surgiu na Câmara Federal um deputado saudoso dos tempos da ditadura a apresentar uma proposta de emenda à Constituição que possibilite um terceiro mandato para o presidente LuiZ Inácio Lula da Silva? Esse tipo de político é um daqueles que insistem em se manter em estado larvar, escondidos em casulos, de onde raras vezes saem, e quando saem é para deixar seus rastros pegajosos atrás dos poderosos de plantão. Para essa gente, só uma coisa interessa: manter seus privilégios. País? Povo? Liberdade? Democracia? Que se danem…

Esse tipo de político é daqueles que se queixam da imprensa quando esta estampa em manchetes os absurdos que surgem diariamente no Congresso Nacional. Eles se esquecem que os escândalos são notícias; e estas, a matéria-prima do jornalismo. A polêmica está criada. De um lado, aqueles que acham que Lula deve se perpetuar no poder, ainda que isso possa representar um desserviço à democracia e possa levar o país a seguir os mesmos caminhos de outras ‘democracias’ da América da Sul e do Caribe. Do outro, os que entendem que mudanças nas regras do jogo para atender a interesses pessoais é golpe. Por isso, estão vigilantes e não abrem mão da prudência na hora de votar porque não estão dispostos a aceitar que golpistas inescrupulosos acabem os sonhos de liberdade que custaram tão caro a eles e à nação brasileira.

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Jornalista, Salvador, BA

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