Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

FEITOS & DESFEITAS > TELENOVELAS

Duas Caras way of life

Por Bruno Mourão Paiva em 13/11/2007 na edição 459

A novela global ‘das oito’, Duas Caras, de Aguinaldo Silva, dramatizou, na última semana, uma disputa que merece a atenção. Ainda que haja melhor programação no horário ‘nobre’, é importante pensar sobre o que o produto disse. Mas, antes de qualquer reflexão, contextualizemos o que anda acontecendo na trama.

Uma das personagens, Branca Barreto (a atriz Suzana Vieira), é dona de uma instituição de ensino superior e deseja que esta se torne padrão de excelência no país. Para isso, convoca para ser reitor o professor Fernando Macieira (José Wilker), que morava em Paris há muitos anos. Na última semana, o núcleo da universidade ‘viveu’ um confronto entre movimentos sociais e a direção da universidade. É aí que entra a necessidade de reflexão a respeito do discurso do produto midiático.

O discurso que Duas Caras vem fazendo é explícito. Em conversas entre os personagens Branca e Macieira, o tema abordado é o sistema educacional no Brasil e suas descrenças nas universidades públicas e no Estado como gestor da educação nacional. Quando convidado para ser reitor da universidade de Branca, o personagem encarnado por Wilker conta que ele possui idéias revolucionárias quanto à educação superior e a participação privada no processo como uma das principais saídas.

‘Direito de votar’

Em momento delicado da vida real, em que o financiamento estudantil cresce e as universidades públicas sofrem sem verbas, uma novela com a força inegável que possui a ‘das oito’ ‘joga’ no ar esse discurso camuflado em uma estética parisiense e sem muito tempo de raciocínio ou intervenções de outros personagens que poderiam alimentar discussões entre os telespectadores. Até que…

Até que estudantes invadem a universidade, incentivados pelo professor que deseja ser o reitor. Haverá um debate então? Não. O que se viu foi outro monólogo turvo que reforçou o que era feito até os novos acontecimentos. Os objetivos e meios dos movimentos civis da sociedade foram o alvo da vez.

Durante a invasão da reitoria-Projac, aliam-se aos estudantes movimentos como o ‘Movimento dos Sem-Casa’. Os personagens que ali estão para contrapor a dona da universidade pouco têm a dizer. Basta ver as faixas que pedem ‘direito de votar’.

Sem postura crítica

Enfim, eles, os ‘baderneiros’ – assim são vistos na trama – devem enfrentar uma polícia fantasiada de capitão Nascimento e, depois, cederem à tropa, confirmando o discurso que agora diz: movimentos da sociedade civil não possuem objetivos definidos (afinal, o que os personagens queriam com a invasão?); a iniciativa privada é quem tem o bom-senso para resolver situações como essas (a personagem Branca mais parecia uma heroína que não cedia às pressões e não deixava a sua universidade); o poder público é praticamente invisível em todo o processo (a única instituição do poder público que apareceu nas cenas foi a polícia, para enfrentar os manifestantes).

Ora, frente a essa dramaturgia, fica difícil não lembrar a sátira feita no fim da novela anterior, Paraíso Tropical, em que CPIs foram motivos de ironia bem realizada no último capítulo da novela. Resta saber como o público encara (ou engole) as explicitações de Duas Caras.

A teledramaturgia não possui tradicionalmente postura jornalístico-crítica, mas a responsabilidade de seu conteúdo é clara para observadores das mídias e dos autores. Portanto, quantas caras uma novela deve ter? Várias? Uma? Nenhuma?

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Graduando em Comunicação Social, Juiz de Fora, MG

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