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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > OLIMPÍADA 2008

E ninguém se lembrou de Ray Ewry…

Por Odir Cunha em 19/08/2008 na edição 499

Mais uma Olimpíada, mais uma grande oportunidade de se avaliar o nível da imprensa esportiva brasileira e mais uma vez a triste constatação de que meus colegas do esporte, com raríssimas exceções, só conseguem analisar as nuances do velho e bom futebol.

Como muletas que fazem o jornalismo esportivo andar, novamente ex-atletas de inúmeras modalidades se espalham pelos veículos de comunicação, dominando microfones com seu português constrangedor, derrapando na ética, ocupando um espaço que deveria ser nosso, mas que perdemos por negligência, arrogância e incompetência.

Somos novamente obrigados a ouvir frases do tipo ‘tal time está marcando sob pressão’, como se a equipe que estivesse marcando é que fosse pressionada (o certo, estamos carecas de saber, é ‘por pressão’). Também já ouvi, em uma prova entre mulheres, que um dos times marcava ‘homem a homem’!… Bem, vou parar por aqui, pois a lista de gafes é imensa.

Estatísticas, tecnologia e mercantilismo

Mas essa multidão de ‘convidados’ entende de suas especialidades? Claro que sim. Tecnicamente, há jornalistas que poderiam substituí-los? Na maioria dos esportes olímpicos, temos de admitir que não. Então, eles são imprescindíveis para uma boa transmissão olímpica? Infelizmente, a resposta ainda é sim, o que apenas demonstra a precariedade de nossa mídia esportiva.

Se você não conhece profundamente o assunto sobre o qual está falando, ou escrevendo, isso certamente empobrece sua visão dos fatos, sua intuição, seus enfoques, suas pautas. Você acaba tendo de acreditar nos outros, de seguir o rebanho, o que torna as coberturas parecidas, burocráticas.

Quem é esse Michael Phelps que já bateu em Pequim os recordes de medalhas de ouro em Jogos Olímpicos? O que ele pensa das coisas? Vai votar no Obama? Ouve que tipo de música? Namora? É gay? Por que ele é tão bom? Como se apaixonou pela contagem de azulejos? Gosta de ler, ou é um obtuso?

Acho que eu, como a maioria das pessoas que está acompanhando a Olimpíada pela TV, vou chegar ao desfile de encerramento sem conhecer esse cara de verdade, apesar de ouvir falar dele todo dia. Sabe por quê? Por que esta é a Olimpíada dos números, das estatísticas, dos recordes, dos milésimos de segundo, da tecnologia, do mercantilismo. Mas não é a Olimpíada dos seres humanos, aquela que eu aprendi a admirar.

‘O atleta mais maravilhoso do mundo’

Aliás, o jornalismo brasileiro entrou nessa onda estatística. A memória prodigiosa para lembrar escalações e fatos nunca foi tão valorizada, apesar de apenas repetir dados que podem ser obtidos com um clique no computador. Por outro lado, o bom texto, a análise perspicaz dos acontecimentos e a decodificação desses números todos parecem ter saído de moda.

Se é verdade que os números não mentem, também é inegável que é preciso conhecimento e sabedoria para descobrir o seu real significado. Dizer que Michael Phelps é o maior atleta olímpico de todos os tempos porque ganhou mais medalhas de ouro é uma maneira demasiadamente simplista de entender a história olímpica.

Alguém se lembrou do índio Jim Thorpe que, nos Jogos de Estocolmo, em 1912, conquistou a proeza inédita de ser campeão no pentatlo e no decatlo? Sabe o que é vencer em um esporte com cinco modalidades diferentes e, seis dias depois, repetir a façanha em outro com dez modalidades? Ao entregar-lhe a medalha de ouro, o rei Gustavo V, da Suécia, exclamou: ‘O senhor é o atleta mais maravilhoso do mundo!’ (hoje o feito de Thorpe é impossível, pois os homens não disputam mais o pentatlo).

Ray não aceitou a derrota

Bem, eu, que fui criado na redação do Jornal da Tarde, onde se cultivava o jornalismo com interesse humano, gostaria de ter conhecido mais o outro lado dessas máquinas de competir que estão na China, um pouco mais da alma e do coração desses homens e dessas mulheres que pulsam atrás dos recordes.

Não me conformo, por exemplo, de não ter ouvido nada sobre Ray Ewry, que além de ter uma história de vida fantástica, também é um dos maiores ganhadores de medalhas de ouro em Jogos Olímpicos. Não entendo mesmo como não falaram dele. E seria tão fácil saber mais sobre esse grande cara!

O garoto Raymond Clarence Ewry vivia uma infância tranqüila em Lafayette, Indiana, quando, aos 12 anos, contraiu a poliomielite e ficou paralisado da cintura para baixo. Era o ano de 1885 e a medicina não tinha o que fazer nos casos de pólio, mesmo nos Estados Unidos. Seus pais também acreditaram que não havia remédio. Mas Ray não aceitou a derrota.

Dez medalhas de ouro

Por sua conta, criou uma rotina de exercícios físicos de sua invenção para recuperar a força das pernas. Sua dedicação acabou amplamente recompensada: após cinco anos de cadeira de rodas, não só voltou a andar, como se tornou um fanático pelo exercício físico, tornando-se um precursor da ginástica isométrica, baseada na contração do músculo sem movimento.

Em 1897, aos 24 anos, após concluir a graduação em Engenharia e motivado pela realização dos Jogos de Atenas no ano anterior, Ray Ewry, então um rapaz alto e forte, passou a treinar com os atletas do New York Athletic Club para participar da Olimpíada seguinte, em Paris.

Em Paris, competiu nas provas estreantes de salto parado, que consistiam em saltar altura, distância e triplo sem correr. Venceu as três, com recordes mundiais. Agachando-se ao máximo, ficando na ponta dos pés e usando os braços estirados para trás para dar equilíbrio, obteve 1,65m no salto em altura, 3,21m no alto em distância e 10,58m no triplo.

Mesmo os estatisticistas deveriam ter lembrado de Ewry, pois além das oito medalhas de ouro em Jogos Olímpicos, ganhou mais duas douradas na edição especial de Atenas, em 1906, que não constam nos sites oficiais, mas que foi considerada a ‘Olimpíada’ mais bem organizada entre as primeiras edições dos Jogos modernos (e com dez medalhas de ouro, Ewry supera os norte-americanos Mark Spitz [natação] e Carl Lewis [atletismo], a soviética Larissa Latynina [ginástica], e o finlandês Paavo Nurmi [atletismo], todos com nove medalhas de ouro).

Oito reais

Ídolo popular, Ray Ewry ficou conhecido como ‘O homem de borracha’ ou ‘O homem sapo’. Trabalhou como engenheiro para a prefeitura de Nova York. Morreu em setembro de 1937, aos 64 anos.

A história de Ewry, assim como a de muitos outros notáveis campeões olímpicos, está em um livrinho de bolso de 160 páginas, lançado há quase dois meses, que custa menos de 10 reais (em alguns sites chega a ser vendido por 8 reais). Ou seja: qualquer jornalista que se interessa pelos grandes dramas olímpicos poderia estar mais bem preparado para escrever ou falar sobre os Jogos de Pequim se se dispusesse a ler esse livrinho, cujo título é Sonhos mais que possíveis. Quem sabe ainda dá tempo…

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Jornalista e escritor, tem 13 livros publicados, dos quais sete sobre esporte

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/08/2008 marcos kirst

    Meu caro Odir
    Que belo texto. E que bela homenagem ao atleta esquecido. Se isso acontece com os excepcionais, como nesse caso, imagine o que resta àqueles que quase chegaram lá. . Ao ler o seu artigo, e sem ter desejado, lembrei-me das crônicas de Pedro Bial. Fiquei triste.

  2. Comentou em 25/08/2008 Odir Cunha

    Rogério, grato pela força. Escrevi: ‘Oscar Schmidt, a biografia do maior ídolo do basquete brasileiro’ (que serviu de base para o seu recorde extra-oficial de pontos); ‘Heróis da América, a história completa dos Jogos Pan-americanos’; ‘Time dos Sonhos, a história completa do Santos F.C.’; ‘Donos da Terra, a história do primeiro título mundial do Santos’; ‘A história do tênis feminino brasileiro’; ‘Pedrinho escolheu um time’; ‘Sonhos mais que possíveis’, adaptei para o português a biografia não autorizada de Ronaldinho Gaúcho, escrita pelo jornalista italiano Luca Caioli, intitulada ‘O Sorriso do Futebol’ e estou terminando ‘Desafio Alvinegro’, com Celso Unzelte, sobre a história da rivalidade entre Santos e Corinthians, e ‘Na Raça’, que conta a história do épico triunfo do Santos sobre o Milan, que deu ao time de Vila Belmiro o título de primeiro bicampeão mundial do futebol.
    Mas não escrevo só sobre esportes. Tenho mais cinco livros sobre outros assuntos.

  3. Comentou em 20/08/2008 Fernanda Nogueira Schuttz

    Mas ao menos os jornalistas que estão lá em Pequim estão vivendo de perto o drama dos atletas brasileiros. Por isso é que não criticam tanto os fracassos, pois estão vendo como é difícil chegar a uma final olímpica, muito mais ainda subir ao pódio e muitíssimo mais conquistar uma medalha de ouro. Daqui de longe tudo parece fácil.
    Mas é muita hipocrisia não se interessar pelo esporte durante quatro anos e em uma Olimpíada querer que os atletas brasileiros superem adversários de outros países em que o esporte é tratado com mais respeito o tempo todo.
    Eu, por exemplo, não li o livro citado no artigo, mas tenho outros sobre esporte e Jogos Olímpicos. É o mínimo que alguém que escreve sobre esporte deveria fazer, mas, pelo que ouvimos, muitos dos jornalistas brasileiros que estão em Pequim foram fazer turismo e certamente voltarão cheio de fotos para mostrar aos amigos. Mas esqueceram o principal: preparar-se bem para cobrir uma competição que é a mais importante do planeta.

  4. Comentou em 20/08/2008 Carlos N Mendes

    O que se viu em matéria de jornalismo televisivo até agora em Pequim foi ufanismo desembasado e esquecimento seletivo. Cobrança indevida por medalhas, sutil humilhação do atleta através de perguntas capciosas, maternalismo amplamente estimulado pela imprensa – registre-se que a mãe do nadador Thiago Pereira foi ‘abandonada’ pelas câmeras depois que ficou evidente que ele não era a estrela que o oba-oba panamericano sugeriu que fosse. Tem ainda muito ‘já ganhou’, o que leva a tombos espetaculares : os analistas não sabiam o que fazer com a derrota-quase-presente-de-Natal da Seleção de futebol, onde Ronaldo Gaúcho brincou de estátua. Quanto aos atletas, persiste a tremenda falta de preparo psicológico, tão evidente em alguns casos que, em entrevistas antes da disputa, já se pedia desculpas pela derrota. Se o cara pode ser campeão do mundo, como explicar o fracasso na Olimpíada ? Se em outubro o Rio for escolhido para a sede da Olimpíada de 2016, alguma coisa vai ter que mudar. Radicalmente.

  5. Comentou em 19/08/2008 Jurandir Cássio Oliveira

    É, meu caro Odir, enquanto os jornalistas esportivos do Brasil não merecerem o pódio, continuarão perdendo seus lugares para ex-atletas nessas grandes competições. Tirando os erros de português, os atletas nos ensinam muito mais do que os jornalistas.

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