Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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FEITOS & DESFEITAS >

E o colunista só queria ironizar

Por Paulo Cezar Guimarães em 28/10/2008 na edição 509

Muitas pessoas têm dificuldade de entender o que ouvem e lêem. Saber se comunicar não é para qualquer um. Escrever também. Dizem que escrever é fácil: ‘Você começa com maiúscula e termina com ponto’. Nem sempre. E a ironia? Nem todas as pessoas conseguem entender a ironia.

Luis Fernando Verissimo já sofreu por causa de um artigo chamado ‘A audácia’, em que questionava o então ‘eterno candidato’ Lula por ter tomado um certo vinho francês em uma solenidade. Aquele que começava assim:

‘Quem o Lula pensa que é, tomando Romanèe-Conti? Gente! O que é isso? Onde estamos? Romanèe-Conti não é pro teu bico não, ó retirante. Vê se te enxerga, ó pau-de-arara. O teu negócio é cachaça. O teu negócio é prato-feito, cerveja e olhe lá. A audácia do Lula!’ (ver aqui).

Para quê? No dia seguinte, choveu cartas no Globo. ‘A coluna de Verissimo é um amontoado de besteiras preconceituosas contra o candidato do PT. Luiz Inácio Lula da Silva foi chamado de retirante, pau-de-arara, gentinha, pé-rapado brasileiro (…)’, escreveu um leitor. ‘Ao ler a coluna de Verissimo `A audácia!´ fiquei indignada com o tamanho do preconceito desse intelectual (…)’, escreveu outro. ‘Eu e minha família estamos indignados com a opinião do Verissimo em sua coluna, por ele ter demonstrado claramente que não gosta de pobre decente, capaz de ser alguém na vida e na sociedade. Ele não só humilhou o Lula como toda uma nação que luta para um país melhor’, detonou outro. ‘Como pode um escritor do quilate, do berço, da inteligência e da elite de Verissimo escrever um texto racista e elitista como esse? A humildade tem que fazer parte desse escritor, que exclui uma enorme parcela da sociedade das coisas mais finas que ele julga ser só para os ricos e para ele’, exagerou outro. ‘Verissimo foi infeliz, sobretudo, ao chamar-nos de gentinha. Posso não ser dotado de uma situação que me permita tomar Romanèe-Conti, mas vale lembrar que a maior parte desse país também não (…)’, reclamou mais um leitor.

No mesmo dia, na mesma seção, Verissimo se ‘defendeu’:

‘Quando o leitor não entende o que um jornalista escreveu, a culpa é sempre do jornalista. Peço desculpa a quem não entendeu a intenção da coluna. O alvo era o preconceito social implícito na reação desmedida ao fato do Lula ter tomado um bom vinho. Talvez tenha faltado o aviso ´Atenção, ironia´. De qualquer jeito, culpa minha’.

‘Carta aberta para Luisa’

Mais recentemente, o cineasta Henrique Goldman, radicado em Londres, foi duramente criticado por diversos leitores da revista Trip pelo artigo ‘Carta aberta para Luisa’. No texto, que tem como subtítulo ‘Nosso colunista pede desculpas públicas à empregada da família com quem transou, contra a vontade dela, quando tinha 14 anos’ (ver aqui), o colunista conta como teria transado com uma empregada de sua família, chamada Luisa. Começa assim:

‘Será que você lembra de mim? Sou filho da dona Fany, do Bom Retiro. Provavelmente você lembra, mas talvez por desgosto tenha removido aquela absurda tarde da memória. Só me permito lembrar – lavando estes panos sujos assim tão publicamente – porque o mundo é cheio de Luisas. Porque já se passaram 32 anos e porque, lamentavelmente, o que aconteceu entre nós não é tão incomum’.

Diz que Luisa deveria ter uns 20 ou 30 anos, que tinha seios fartos e que ele tinha 14 anos.

‘(…) Uma colega de classe, me disse que você já tinha trabalhado na casa da família dela e que você `dava para um motorista de táxi´. A idéia de que você `dava´ não saiu da minha cabeça (…). De tarde eu ficava rondando pela área de serviço enquanto você lavava a roupa. Era um tesão incontrolável, aflito, desesperado e covarde’ .

Em um texto leve e gostoso de ler, Henrique escreve que ele e um colega chamado Adalberto deram o ‘bote na Luisa’.

‘Meus pais e irmãs tinham saído e você estava varrendo a sala quando eu e o Adalberto demos o bote. Não lembro qual foi o nosso papo, mas imagino que tenha sido a coisa mais ridícula do mundo. Pedimos, insistimos sem parar para que você `desse´ para nós.’

Luisa, segundo o autor do texto, ‘acabou cedendo’.

Nunca houve uma Luisa

O site da revista recebeu mais de 700 cartas – a maioria repudiando o texto de Henrique Goldman. Em um deles, uma mulher escreveu:

‘Estou INDIGNADA com este texto publicado pela revista TRIP e pelo colunista Henrique Goldman. Fica evidente que este texto foi escrito para excitar outros homens com este FETICHE DE ESTUPRO de mulheres notadamente subalternas. É URGENTE QUE TANTO A REVISTA TRIP COMO O COLUNISTA MOSTRO (sic) SE RETRATEM PUBLICAMENTE E SEJAM PROCESSADOS POR ESTIMULAREM A VIOLÊNCIA SEXUAL E DESRESPEITAR OS DIREITOS HUMANOS!!! Pouca importa se o texto seja ficcional’.

Prefiro não comentar.

A revista respondeu aos leitores:

Trip esclarece o que deveria ter ficado claro já na publicação da coluna ‘Mundo Livre’ da edição de setembro: trata-se de um texto de ficção, um recurso usado com freqüência pelo colunista Henrique Goldman. Pedimos desculpas por não ter apontado o caráter ficcional do texto ‘Carta Aberta para uma Luisa’. E, ainda, pelo desastrado pé biográfico (já corrigido). As duas atitudes conferiram, involuntariamente, um tom leviano a um assunto que não pode nem deve ser tratado levianamente – seja como ficção ou como realidade. Trip considera inaceitável qualquer forma de assédio ou violência sexual (…)’.

Henrique Goldman também se ‘retratou’:

‘Prezados leitores, antes de mais de nada, preciso esclarecer algo: nunca estuprei ninguém na minha vida. Nunca tive uma empregada chamada Luisa, e nem estudei com qualquer Sheilinha ou Adalberto. Meu único `crime´ foi ter feito um texto ficcional sem deixar isso claro. Estou muito abalado com tantas mensagens agressivas que recebi. Me arrependo muito de ter criado este mal-entendido num mundo já tão cheio de merda e incompreensão. Posso ser um puta chato, péssimo colunista e pensador ordinário, mas não seria capaz de cometer crime algum, muito menos um tão hediondo. Me desculpo também com os editores da Trip por qualquer transtorno’.

O papel do jornal e da internet

Os mais antigos costumavam dizer que ‘o papel aceita tudo’. Hoje, isso se modernizou. Não só o papel; a internet também. Muitas vezes, por falta de compreensão e de entender o que é ironia, sarcasmo, humor ou seja lá que nome for, leitores despejam comentários agressivos e preconceituosos contra articulistas, amadores ou não. Dias atrás, sobrou até para o pacato Tostão, ex-jogador de futebol, médico, hoje colunista da Folha de S.Paulo e de outros veículos. Escreveu Tostão:

‘Um leitor, jornalista, não entendeu, não leu com calma ou escutou de quem não sabe ler o que escrevi no domingo. Não disse que Dagoberto é um cabeça-de-bagre. Escrevi que o atacante, que era uma grande promessa, é hoje mais elogiado por marcar o volante e que isso pode ser feito por qualquer cabeça-de-bagre. É bem diferente (…)’ (ver aqui).

Ainda bem que o jogador do São Paulo não se chama Adalberto, e sim, Dagoberto; não tomou vinho francês e não é fanho. Como é difícil escrever! Ponto final.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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