Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
Menu

FEITOS & DESFEITAS >

É o Ibope, e não o conteúdo

Por Fernando Schweitzer em 04/11/2008 na edição 510

Cito a coluna ‘Zapping’, do jornal Agora: ‘Datena ficou irritado porque a Record entrevistou, ontem, no SP Record, o pai da adolescente Eloá, acusado de homicídios. `É um jornalismo irresponsável, uma emissora irresponsável, que fala com bandido e acoberta um foragido da Justiça. O Ministério Público deveria ver isso. É imoral, ilegal. Nem na porta desta emissora eu passo mais´, afirmou Datena, ao vivo, aos berros. E ainda acusou a Record de atrapalhar a negociação da polícia ao entrevistar também o seqüestrador Lindemberg Alves, na semana passada.’

Se é ético criticar a um apenas? Acredito piamente que não!

Na medida em que alguém diga que a culpa pela queda de qualidade em prol de Ibope, exclusiva da ganância dos empresários de TV, estaria tirando do público uma enorme parcela de culpa. Enquanto não houver alternativas palpáveis para o público, esse tipo de fato trará grandes índices sempre e quem souber aproveitar essa demanda reprimida de curiosidade e sadismo existente na sócio-cultura brasileira será o beneficiário ocasional nos índices de audiência.

Hoje, a Globo faz e desfaz dentro da sua grade que fora projetada por Walter Clark na década de 60 e continuada por Boni – o que hoje se chama ‘padrão Globo de qualidade’. Esse tal padrão nada mais é do que meramente formato que fora construído unicamente com objetivo de abarganhar audiência. E o resultado da estratagema da emissora é fator irrefutável que devemos considerar para analisarmos a TV brasileira hoje. O próprio Roberto Marinho teria dito, certa vez: ‘Eu uso o poder, eu sou o poder.’

Personagens pulverizados

O que hoje se chama de padrão Globo é uma cópia deslavada do que a TV Excelsior construiu desde sua implantação e estréia, em 60. Sendo a primeira televisão brasileira a se utilizar tanto da programação horizontal, em que a mesma atração é exibida no mesmo horário todos os dias, e a programação vertical, em que a atração que sucede a anterior visa a manter o público desta por afinidade de conteúdo, torna-se, dentro de seis meses de operação, a líder de audiência na cidade de São Paulo. Também de criação da Rede Excelsior é o top de cinco segundos para anunciar a próxima atração. A emissora foi a primeira a ter um logotipo: duas crianças, chamadas de Ritinha e Paulinho, que protagonizaram diversas vinhetas.

É engraçado o que ocorreu dentro da grade sanduíche do horário nobre global que criou o costume estratégico de se ter entretenimento e notícia como forma de amenizar ou suavizar a seus cativos os acontecimentos do dia. Para quem já teve a oportunidade de assistir Muito Além, do cidadão Kane do Channel Four, onde na quarta parte, a mais importante do filme, se mostram, em tese, os envolvimentos ilegais e mecanismos manipulativos utilizados pelas Organizações Globo em suas parcerias para com o poder em Brasília (incluindo fraudes em eleições, assassinatos encomendados por seus maiores figurões).

O cenário era complexo e é importante frisar que havia competição pesada, sim, na época. A Globo se impôs sobre uma TV Tupi bastante poderosa, sobre uma Record que durante bom período dominou a lista dos programas mais assistidos, embalada pelos festivais de música. Seria o que eu chamo de sucesso não planejado por mérito, e não por estratégia. Houve uma grande estratégia por trás do êxito da Rede Globo que se baseou, primordialmente, no estudo de comportamento social. O que até hoje pode ser visto na emissora carioca, nos famigerados grupos de pesquisa. Onde personagens de novela podem ser pulverizados da tela como o casal lésbico de Torre de Babel, que fora explodido no shopping, como alternativa à rejeição do tema abordado por Sílvio de Abreu de: ‘Um casal lésbico, bem-sucedido e feliz!’

O que vale são os índices

A questão ética na TV pode ser encarada ao pé da letra, mas também na essência. O surgimento do SBT na década de 80 é um grande exemplo, com seus hoje clássicos programas e que são considerados como cults hoje, mas que à época eram alvo de críticas severas, dado que eram amplamente rotulados por especialistas em TV de popularescas, especialmente os programas de auditório comandados por Gugu Liberato, Raul Gil, Moacyr Franco, J. Silvestre, Flávio Cavalcanti e pelo próprio Sílvio Santos. O SBT caía no gosto do telespectador de renda mais baixa. Na linha infantil, o grande sucesso era o programa do palhaço Bozo, um semi-enlatado, pois era uma versão da personagem americana criada na década de 40.

Os enlatados são também para mim uma forma de apelar, ou de redução de custos. Às vezes, com êxitos inimagináveis, dentro e fora da Globo. Em 1985, a minissérie australiana Pássaros Feridos consegue a liderança de audiência em seu horário graças à estratégia do SBT, de certa forma apelativa, de começar a exibição da minissérie quando a novela da Rede Globo Roque Santeiro terminava, o que era ostensivamente anunciado por Sílvio Santos em seu programa. A minissérie foi reapresentada várias outras vezes e teria se tornado um ‘curinga’ de programação na mão de Sílvio Santos, mas sem o sucesso inicial. O que, para mim, é uma forma também de apelar.

Quando se usa um determinado atalho na TV pelo Ibope, é uma demonstração clara de que o que vale são os índices, e não o conteúdo. E hoje quais seriam os casos em que o atalho foi pego para alavancar uma emissora ou um horário frágil?

******

Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista, Florianópolis, SC

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem