Sexta-feira, 20 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO & SOCIEDADE

E viva a mídia, essa maravilha do nosso tempo

Por Miguel Accacio em 15/07/2008 na edição 494

Nos recônditos da nossa consciência a idéia de tribo sobrevive. A mídia, essa maravilha do nosso tempo, nos transforma a todos numa grande família. E por esses dias foi um volume formidável de emoções.

Vínhamos já apreensivos diante de um gigantesco terremoto na China. Um terremoto interminável. Dava para sentir o espanto dos chineses diante dos tremores sucessivos. Pequenas aldeias, perdidas nas montanhas, nem por isso eram poupadas. Crianças resgatadas com vida após dias soterradas. Os velhos, idosos com quase uma centena de anos, vários deles resistiram a uma quantidade inacreditável de dias sob montanhas de escombros. E quando os heróis do salvamento chegaram, eles ainda tinha um sorriso de vida para nos mostrar.

Foi como se estivéssemos lá. Viva a mídia, essa maravilha do nosso tempo.

Depois, estivemos em Mianmar. Um país que até há pouco nos era estranho. Igualmente vítima de cataclismos naturais, lá foi diferente. Surpreendentemente, ao mesmo tempo em que havia pessoas para salvar, havia também as autoridades do país que impediam o salvamento. A ajuda internacional que chegava era confiscada pelas autoridades. E as pessoas morriam de fome, ao desabrigo, vítimas de uma natureza implacável.

E nós estávamos lá. Por esse milagre da televisão, que nos une a todos, e pelo trabalho intrépido de repórteres, verdadeiros guerreiros da notícia, nós estávamos lá. Viva a mídia, essa maravilha do nosso tempo.

‘Como é que pode?’

E Mugabe? A África, que nos legou a felicidade de sermos contemporâneos de Nelson Mandela e Desmond Tutu, tem também produzido exemplares do tipo Idi Amin Dada, de Uganda, Mobutu Sese Seko, do Zaire, e agora Robert Mugabe.

Também lá nos levou a mídia.

Ao Zimbábue, esse país de nome sonoro e bonito. E vimos que Robert Mugabe não aceitou o resultado das urnas. E não ficou nisso. Escorraçou o vencedor do primeiro turno, determinou a morte de muitos, ameaçou de morte outros tantos e, pasme, amigo, mandou cortar as mãos de pessoas que poderiam vir a votar contra ele. Amigo, vou repetir porque você pode não ter prestado atenção: ele mandou cortar as mãos dos opositores.

E a vitória de Robert Mugabe, por maioria, nos foi informada em tom compungido, por um repórter de telejornal que buscava nos passar a idéia de frustração e tristeza. De novo estávamos todos juntos, agora com o sofrido povo do Zimbábue.

E Ingrid Betancourt?

Confesso que acho que só o fato de um país ter uma parte do seu território há anos dominada por guerrilheiros já é inadmissível. Mas, além disso, uma vez que as autoridades não são competentes para livrar do cativeiro pessoas seqüestradas há longo tempo, mesmo sabendo onde estão, passei a integrar o já numeroso grupo do ‘como é que pode’. Mas eis que vem a grande surpresa: Ingrid foi libertada.

Uma só família

O mundo inteiro vibrou com Ingrid Betancourt. Aquela foto em que ela aparece doente e tristonha nos comoveu a todos. E eis que lá vem ela, aquele rosto delicado que esconde uma força gigantesca que suportou seis anos de intenso sofrimento físico e moral. Descia as escadas do avião. E sorria para nós. Sim, e nós sorríamos para ela. É o milagre da mídia novamente eliminando as distâncias, quase possibilitando um abraço de boas vindas. Foi a nota alegre da temporada.

E perdemos dona Ruth Cardoso. Que tristeza… A morte, assim, individualizada, convida-nos a refletir sobre a finitude. Compartilhamos a dor de Fernando Henrique, ali, diante do caixão. A vida laboriosa e produtiva de dona Ruth foi marcada pela discrição, essa qualidade admirável. Num mundo onde as pessoas buscam notoriedade e luzes, dona Ruth percorreu sua trajetória de sucesso em silêncio, sem alardes. Talvez exista de fato um lugar na eternidade para acolher pessoas assim.

E essa semana, meu amigo, era um pai que chorava. Quatro lágrimas desceram. Duas dos olhos dele e duas dos meus, assim, sem que eu pudesse controlar. Eram dois pais que choravam. Ele externava sua perplexidade diante da morte do filho criança, em circunstâncias difíceis de aceitar; e eu apenas murmurava: ‘Como é que pode, meu Deus…’ E ele falava, meu amigo, ele falava. Mesmo aos prantos, ainda conseguia articular corretamente seu sofrimento e sua dor. E nós, diante da televisão, éramos uma só família. Naquele momento, aquele menino era filho de todos nós. Aquele pai era irmão de todos nós. Aquela família era nossa também.

Um regimento de heróis

Assim é, caro amigo. Essa mídia que às vezes criticamos é nossa grande aliada. Se, eventualmente, é manipulada por operadores de intenções duvidosas, nem por isso deixa de ser valiosa. É essa mídia que desperta o clamor público contra as injustiças. É através dela que nos manifestamos para o mundo, como agora, que falo com você.

Há um regimento de heróis espalhados mundo afora. Suas armas são as filmadoras, os microfones e os blocos de anotação. O alvo é a notícia. Nos estúdios, outros tantos, de olhos e ouvidos atentos, armados de computadores e ilhas de edição. O tempo é curto. O alvo é a notícia.

A eles a nossa homenagem.

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Estudante, Nova Iguaçu, RJ

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