Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA REGIONAL

Liberdade de informar é (im)preciso

Por Igor Savenhago em 24/01/2012 na edição 678

O poeta português Fernando Pessoa, num de seus mais conhecidos poemas, “Navegar é preciso”, retoma uma frase de antigos navegadores para tecer sobre ela uma breve reflexão: “navegar é preciso, viver não é preciso”. O verso intriga os aspirantes a intérpretes do poema porque traria mais de um sentido para o termo “preciso”. Num primeiro momento, o poeta parece falar de necessidade. Para os viajantes, lançar-se ao mar e enfrentar seus perigos era um ato de bravura, mesmo que, durante as viagens, fosse necessário perder a vida. Cumprir o destino significava navegar, acima de tudo.

Para alguns estudiosos em Literatura, no entanto, o poeta não fala só em necessidade, mas em precisão. Estaria ele se referindo às técnicas de navegação que permitem avaliar as condições do mar, a direção dos ventos, e localizar o território de destino. Assim, a navegação se torna precisa, seu alvo é exato, em contraposição às mudanças repentinas da vida, que se refletem na poesia, tornando a escrita da história e seu próprio curso imprecisos, incertos. Para o poeta e pesquisador em Psicologia Social Ronaldo Zenha, por exemplo, no artigo “Navegar é preciso, viver não é preciso”, o navegador pode fazer uso de instrumentos que permitem se localizar, o que não ocorre com o curso da vida. “Se o navegador é prisioneiro dos instrumentos, ou seja, só enxerga seu destino a partir destes, o poeta não se preocupa em ver, pois seu intento é viabilizar qualquer discurso, ou melhor, aviar um desejo”. Outro poeta, Mário Flecha, tem visão parecida. “Acho que a frase ganha força poética quando a palavra ‘preciso’ se liga ao senso de precisão e imprecisão, não ao de necessidade, o qual parece ser o sentido original usado para fins militares”.

As notícias e seus efeitos

Uma reflexão parecida pode ser feita quando o assunto em questão não é mais o mar físico, de águas azuis, que desmancha na praia de areia fina, mas o mar salgado – em referência a outro poema de Pessoa, “Mar Português” –, do jornalismo. Ao se navegar por este tema, corre-se o risco de cair na mesma armadilha representada pelas palavras quando postas em jogo nas relações sociais, por meio da poesia. O objetivo deste artigo, de promover uma discussão sobre a liberdade no jornalismo e buscar entender como a imprensa regional se posiciona no atual cenário da imprensa no mundo, lança-nos ao desafio de analisar, ao mesmo tempo, a premissa de que informar é preciso (necessário e com conteúdo bem apurado e checado) e a suspeita de que é, ao mesmo tempo, impreciso (influenciado por inúmeras variáveis, como a estrutura de trabalho oferecida pelas empresas e interesses envolvidos, desde políticos e econômicos até os das próprias corporações de mídia que exigem liberdade para atuar). Um contrassenso que será mais bem discutido a seguir.

Para a análise desses aspectos, o presente estudo, inserido no campo do Conhecimento do Jornalismo, será embasado em teóricos da comunicação e do jornalismo, observando-se como trabalham a questão da liberdade na imprensa e como buscam respostas para duas perguntas básicas que norteiam as pesquisas sobre jornalismo na contemporaneidade: por que as notícias são como são e que efeitos elas provocam.

Da liberdade

“Há uma grande e talvez decisiva batalha a ser travada contra a ignorância, a intolerância e a indiferença. Esta arma, a televisão, poderia ser útil”. Esta frase, dita em 15 de outubro de 1958, é uma das que encerram o discurso de Edward Murrow, então jornalista da CBS (Columbia Broadcasting System), uma das maiores redes de rádio e televisão dos Estados Unidos. Naquela data, homenageado pela Associação dos Diretores de Rádio e Telejornalismo do seu país, Murrow fez um longo discurso sobre o papel do rádio e da televisão na defesa de um jornalismo sério, que não tenha interferências do poder político e de interesses comerciais e que não poupe o público de informações de que ele precisa saber.

Parte do discurso de Murrow foi reproduzida no filme Boa Noite e Boa Sorte, do diretor George Clooney, lançado em 2005. O filme busca retratar a atuação de Murrow na CBS, principalmente no período de confronto com o senador Joseph McCarthy, que ficou famoso nos Estados Unidos pelo movimento conhecido como “Macartismo”, “Caça às Bruxas” ou “Terror Vermelho”. Durante os dez anos em que ocupou uma cadeira no Senado, a partir de 1946, McCarthy, que morreu em 1957 devido a uma grave hepatite, liderou uma campanha contra todas as pessoas suspeitas de se aproximarem do comunismo ou de simpatizarem com as causas comunistas. Uma onda de delações, provocada pela euforia da “Caça às Bruxas”, nome dado em alusão às perseguições feitas às mulheres acusadas de bruxaria na Idade Média, tomou conta dos Estados Unidos. Com isso, profissionais de mídia, do cinema, do governo e do exército, principalmente, passaram a ser investigados, tiveram suas vidas privadas invadidas e foram levadas a cometer suicídio. Eram acusadas de espionar o governo a mando da antiga União Soviética.

Um dos jornalistas que desafiaram o “Macartismo” – que, com o tempo, passou a ser sinônimo de governos antidemocráticos, que declaram guerra à imprensa combativa e às opiniões vistas como contrárias ou desfavoráveis, sob o pretexto de que pretendem manter a segurança e a ordem nacionais –, foi Edward Murrow. Porém, na tentativa de fazer uma cobertura equilibrada e o mais isenta possível sobre os desmandos do senador, Murrow encontraria resistência dentro do próprio grupo de comunicação em que trabalhava, já que alguns profissionais do alto escalão da CBS mantinham relações escusas com o político.

Mesmo tolhido, por vezes, em seus comentários, que costumavam ser ácidos, Murrow contribuiu para que o senador entrasse num processo de desprestígio e de decadência moral e política, além do que as ações de perseguição promovidas por McCarthy ficaram marcadas negativamente na história da democracia norte-americana. Apesar disso, Murrow demonstrou preocupação com o futuro do rádio e da televisão, durante o engajado discurso de 15 de outubro de 1958, por causa da proximidade do jornalismo com o poder político e da qualidade ruim da programação.

Reafirmando conceitos cunhados pela Escola de Frankfurt, fundada em meados da década de 20 do século passado, como será visto adiante, Murrow disse, ainda, que o rádio e a televisão eram poderosos instrumentos alienantes por abarcarem, num mesmo lugar, três poderosas indústrias: a do jornalismo, a da publicidade e a do entretenimento. “Cada uma das três é uma área fantástica e exigente. E quando você coloca as três sob o mesmo teto, a poeira nunca baixa”, disse. Outra forte crítica feita por Murrow era que a cúpula dos veículos de comunicação era formada por executivos capazes de tomar as melhores decisões quando os assuntos eram publicidade, show business, administração de negócios e de dinheiro, mas não em relação a conteúdo editorial. Quase sempre, quando era preciso pensar como jornalista, os executivos pensavam como empresários, em como transformar seus negócios em oportunidades ainda mais rentáveis.

O jornalista concluiu o discurso dizendo que, se esta história de jogos de interesses não mudasse, o rádio e a televisão seriam apenas ferramentas para produzir sociedades decadentes, desinformadas, em que discussões sobre os principais problemas do país seriam simplesmente descartados, deixados de lado. Para Murrow, a televisão, por exemplo, poderia “iluminar” e até “inspirar”, desde que os profissionais envolvidos com ela quisessem isso. Do contrário, seria apenas “uma caixa com cabos e luzes”.

Eu não defendo que devamos transformar a televisão em um muro de lamentações de 27 polegadas, onde intelectuais constantemente se queixam sobre o estado de nossa cultura e nossa defesa. Eu gostaria apenas de vê-la refletindo ocasionalmente as duras e inflexíveis realidades do mundo em que vivemos. Gostaria de ver isso feito dentro da estrutura existente, e gostaria de ver os benefícios sobre aqueles que financiam e programam o conteúdo. (Trecho do discurso de Edward Murrow, de 15 de outubro de 1958)

A fala de Murrow consolidava, nos Estados Unidos, uma crítica aos meios de comunicação iniciada, conforme já mencionado, pela Escola de Frankfurt. A Escola, fundada em 1924 e que, durante o regime nazista de Adolf Hitler, funcionou nos Estados Unidos, voltando para Frankfurt apenas em 1953, despertou, no meio acadêmico, um crescente número de pesquisas sobre a atuação dos meios de comunicação na sociedade capitalista. Um dos principais conceitos, o da “indústria cultural”, atribuído aos filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer, passou a embasar análises sobre o poder da mídia, em que as estratégias são pensadas para estimular a venda de produtos e não para informar.

O mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural. A violência da sociedade industrial instalou-se nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indústria cultural podem ter a certeza de que até mesmo os distraídos vão consumi-los alertamente. Cada qual é um modelo da gigantesca maquinaria econômica que, desde o início, não dá folga a ninguém, tanto no trabalho quanto no descanso, que tanto se assemelha do trabalho. (ADORNO e HORKHEIMER, 1982, p. 118 – 119)

Esses fatores promoveriam, segundo os mesmos filósofos, uma ausência de liberdade de escolha, tanto individualmente quanto no que se refere aos próprios meios de comunicação, que não se desvencilham do poder do capital.

A liberdade de imprensa é um dos assuntos mais discutidos tanto por profissionais quanto por pesquisadores da comunicação. O filósofo da comunicação Eugênio Bucci é um dos que se dedicam amplamente ao tema. Em uma de suas obras, “A imprensa e o dever da liberdade” (2009), título inspirado numa obra clássica de Rui Barbosa, “A imprensa e o dever da verdade”, Bucci analisa a força da indústria do entretenimento para ditar regras à imprensa, a promiscuidade com as fontes de informação, o serviço que a mídia, em geral, presta ao espetáculo, a proximidade com as assessorias de imprensa, que, segundo o autor, não deveriam ser lugares ocupados por jornalistas, as dificuldades para que verdade e independência orientem o trabalho dos profissionais da imprensa e o dever dos jornalistas de preservar a liberdade.

Responsabilidade social

Em resumo, a liberdade não funciona como redoma, um manto protetor que acolhe maternalmente os profissionais, livrando-os de cobranças, de julgamentos e condenações. Liberdade não é impunidade, mas um fator que impele o jornalista a se expor a julgamentos e punições. É uma bandeira que a imprensa tem o dever de empunhar, por mais que isso lhe custe – e custa. Quando negocia algumas de suas franjas, ainda que mínimas, ela deixa de ser imprensa e se converte na sua pior negação, traindo suas origens passadas e turvando o seu futuro (BUCCI, 2009, p. 124).

Bucci lembra que o jornalismo demarcou para si, historicamente, um terreno situado fora do campo dos governos. Um lugar, portanto, de independência. Não sendo um aliado dos governos, posicionou-se, aos poucos, como vigilante do poder político, investigador das práticas que, em tese, deveriam zelar pelo que é público e pelo bem estar social. E parece óbvio que, tendo esse papel de vigilância, o jornalismo não pode se associar, de forma alguma, aos políticos. A distância é mais que necessária, no sentido de desvincular-se dos polos de poder e de influência, sem desmerecer, no entanto, segundo Bucci, a legitimidade que eles possuem.

Além do poder político, exige-se do jornalismo uma prática constante de vigilância do poder econômico constituído, sobretudo do poder dos próprios meios de comunicação, que podem promover a defesa de causas próprias, visando à legitimação e a consolidação ainda maiores do poder de influência social que detêm, em detrimento de informações de interesse público. Com base nessa teoria, permite-se dizer que se espera da imprensa que ela aja na contracultura, não vangloriando o consumismo exacerbado incentivado pelo sistema, mas alertando, chamando a atenção para as mazelas que o apego desenfreado aos valores ideológicos de mercado pode causar.

Apartidário, equilibrado – e livre. Se quer ser fiel à sua responsabilidade social, o jornalista não deve permitir que agendas, causas ou doutrinas totalizantes de uma parte da sociedade – venham elas de ONGs, de igrejas, de governos, grandes corporações, de partidos, de onde vierem, contaminem o seu trabalho (BUCCI, 2009, p. 116-117).

Jornalismo e novas tecnologias

A imprensa assume, com isso, uma importância ímpar na construção de regimes democráticos. Tomar uma postura de valorização de grupos cujas vozes não costumam circular na imprensa, focar a cobertura no cidadão e assumir o compromisso de levar a informação a quem, historicamente, não teve acesso a ela são estratégias que poderiam contribuir para aumentar (ou recuperar) a credibilidade do jornalismo.

No dia 25 de janeiro de 1984, por exemplo, um comício que reuniu centenas de milhares de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo, em prol das eleições diretas, foi noticiado pela Rede Globo de Televisão, segundo o próprio Eugênio Bucci, em Sobre Ética e Imprensa (2000), e Mário Sérgio Conti, em Notícias do Planalto (1999), como sendo um ato que fazia parte das comemorações de aniversário da cidade.

Dez anos depois, uma sequência de erros em publicações de notícias não checadas praticamente destruiu a reputação de seis pessoas que estariam supostamente envolvidas no estupro de alunos da Escola Base, localizada no Bairro da Aclimação, na capital paulista. O delegado responsável pelo caso, sem investigar a veracidade das acusações, feitas por pais de alunos, divulgou o caso rapidamente à imprensa. Ao final do inquérito, os réus foram absolvidos. Não foram encontrados quaisquer indícios que comprovassem o envolvimento deles com o crime.

Já em 2003, nos Estados Unidos, outro caso abalou o jornalismo. O New York Times protagonizou um dos maiores escândalos da história da imprensa. O jornalista Jayson Blair, que fazia parte do quadro de funcionários do jornal, admitiu que fraudava reportagens, inventando lugares, personagens e frases. Ele foi demitido do jornal e, logo, abandonou a profissão.

Situações como essas foram agravadas, nos últimos anos, pelo advento da internet, que invadiu a casa dos usuários com uma profusão de discursos. O desenvolvimento de tecnologias digitais permitiu que a rede mundial de computadores fosse habitada, a cada segundo, por uma infinidade de informações vindas das mais diversas fontes, confiáveis ou não. Ao mesmo tempo em que facilitou, não só, a troca de mensagens, como também a comunicação em tempo real entre pessoas de lugares distantes uns dos outros e com culturas completamente distintas, além da localização de dados em apenas um clique, a internet trouxe à tona uma importante questão: a da identidade. É possível disseminar informações rapidamente pela rede sem que haja a identificação do primeiro remetente. O risco maior é quando essas informações são encaradas como notícias, provocando reações das mais controversas e perigosas.

Carne humana

No final de agosto de 2010, a imprensa de todo o mundo se viu envolvida num caso curioso, que mostra os riscos de informações que circulam na rede produzidas por anônimos e não devidamente checadas. Grandes jornais, inclusive a Folha de S.Paulo, no Brasil, publicaram a notícia de que um restaurante de Rondônia especializado em servir pratos à base de carne humana teria a intenção de abrir uma filial em Berlim, capital alemã, e, por isso, estaria recrutando interessados em fornecer a matéria-prima. Repórteres se mobilizaram na tentativa de entrevistar o suposto dono do restaurante. A notícia sobre o estabelecimento, que teria o nome de “Flimé”, provocou reações de revolta na Alemanha. E mesmo após a confirmação de autoridades de Rondônia de que a informação era falsa porque o restaurante sequer existia, relatos, opiniões e discussões sobre o caso continuaram circulando nas redes sociais. Abaixo, a reprodução de parte da notícia veiculada na ocasião pela Folha de S.Paulo, em sua página na internet (Folha.Com), no dia 26 de agosto de 2010.

Anúncio de restaurante brasileiro causa polêmica em Berlim ao oferecer carne humana:

“Da EFE, em Berlim (Alemanha)

Atualizado às 17h16

O restaurante brasileiro Flimé causou polêmica e duras críticas na capital alemã, Berlim, ao anunciar em vários jornais que vai abrir uma filial na cidade no próximo dia 8 de setembro e que os clientes interessados podem fazer um cadastro e oferecer partes do seu próprio corpo. Segundo jornais alemães, há suspeitas de que a polêmica propaganda é um grande golpe de publicidade.

(…) O site do restaurante não inclui no cardápio nenhuma referência direta à carne humana, mas diz seguir a cultura indígena wari – tribo da selva amazônica conhecida pela cultura do canibalismo –, na qual 'comer é um ato espiritual com o qual ganhamos a mente e a força da criatura comida'.

A Folha.Com tentou entrar em contato com o restaurante, mas não obteve resposta. A edição digital da revista Spiegel diz ter entrado em contato com um porta-voz do restaurante que 'sem muita convicção confirmou que a propaganda não é um engodo'.

No site trilíngue (alemão, português e inglês), os clientes interessados podem preencher um cadastro com uma série de perguntas sobre hábitos médicos e de saúde, como fumo, consumo de bebidas alcoólicas e frequência de atividade física.

No fim, há um alerta: 'Os membros associados do Flimé concordam, com este, em doar para o Flimé qualquer parte de seu corpo, que será determinada pelo próprio associado. (…) A finalidade do uso da parte doada é de livre escolha do Flimé'.”

O endereço do restaurante de Berlim ainda é secreto.

Queda na circulação de jornais

Por outro lado, a internet permitiu o surgimento de novas formas de apresentar conteúdos jornalísticos. O exemplo mais recente foi o site WikiLeaks, especializado na publicação de documentos secretos e que provocou o furor de autoridades políticas em vários países, principalmente nos Estados Unidos. O site, liderado pelo australiano Julian Assange, e que anunciou o fim das suas atividades em outubro de 2011, por problemas financeiros, era formado por uma equipe de hackers que tinham como missão descobrir documentos importantes sobre a atuação política, econômica e militar, sobretudo de regiões estratégicas do planeta. Os documentos eram publicados na íntegra, introduzidos, geralmente, por um resumo sobre seu conteúdo. A publicação, no entanto, só era feita após uma avaliação criteriosa sobre a veracidade do que seria divulgado.

O WikiLeaks, que ganhou prêmios de destaque, como o Media Award 2009 (categoria Nova Mídia) da Anistia Internacional, pela publicação de relatórios sobre a política de extermínio no Quênia, país africano, começou a gerar maior repercussão em meados de 2010, quando publicou mais de 90 mil documentos secretos do governo norte-americano que desmascaravam, por exemplo, versões oficiais sobre operações de guerra no Afeganistão, em 2006.

Em reportagem especial publicada pela revista Época, em 29 de julho de 2010, o WikiLeaks era classificado como um sintoma das transformações fascinantes por que passa a imprensa em função das novas tecnologias. Em carta escrita pelo diretor de redação da revista, Helio Gurovitz, na mesma edição, uma afirmação surpreendeu, principalmente pelo fato de ter saído de um veículo impresso de circulação nacional. Disse Gurovitz que, diante do WikiLeaks, jornalistas continuariam sendo necessários, mas teriam de mudar sua forma de trabalhar. Ele escreveu, ainda, que, mesmo que a informações do WikiLeaks eram divulgadas de forma diferente a da imprensa tradicional, elas não abandonavam exigências típicas do jornalismo, como preservação de fontes, certificação da veracidade do material e omissão de informações que poriam vidas em risco.

O WikiLeaks acabava fazendo o papel que deveria ser da imprensa tradicional, de pesquisar, investigar e fiscalizar o poder político constituído. Em função disso, a internet e o surgimento dessas novas formas de divulgação de conteúdo jornalístico têm provocado um significativo impacto negativo, principalmente na circulação de jornais impressos em todo o mundo. Em sua edição de 29 de abril de 2009, a revista Veja publicou uma reportagem, “Inferno na Torre do Times”, que mostrava a situação financeira caótica por que passava o New York Times, justamente o maior jornal do planeta. Segundo a matéria, assinada pelo repórter André Petry, o jornal estava sufocado por dívidas, causadas por dois motivos: queda na receita publicitária e migração de leitores para a internet. O prejuízo do jornal, de acordo com a reportagem, havia sido de 74,5 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2009, contra 335 mil dólares de prejuízo nos primeiros três meses de 2008.

No Brasil, os maiores jornais também enfrentam queda no número de leitores. Levantamento divulgado pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação) revela que, entre 2000 e 2009, vários grandes jornais do país tiveram sua participação no mercado reduzida. Nesse período, a tiragem da Folha de S.Paulo, que era, no início da década, de 430 mil exemplares diários em média, passou para pouco mais de 298 mil. O Estadão, que soltava 390 mil exemplares por dia, passou para 217 mil. Outros também tiveram queda expressiva, como O Globo (de 334 mil para 260 mil), Correio do Povo (de 271 mil para 155 mil) e Diário de S. Paulo (de 161 mil para apenas 51 mil).

Não bastasse isso, o Jornal do Brasil, o mais antigo jornal impresso do país em circulação, fechou suas portas para a edição impressa justamente por causa dessa crise, sobrevivendo, somente, em formato digital. Com 119 anos de existência, o Jornal do Brasil circulou nas bancas de revistas pela última em 31 de agosto de 2010, para, segundo seus diretores, deixar de circular apenas no Rio de Janeiro para ganhar o mundo. Uma decisão que pode abrir novas portas para a imprensa brasileira, mas que coloca um ponto de interrogação no futuro dos grandes impressos: eles vão mesmo acabar?

E o jornalismo regional com isso?

Enquanto as discussões sobre a sobrevivência dos grandes impressos estão na ordem do dia, quando se fala em jornais pequenos e de porte médio de cidades do interior, a realidade é bem diferente. Na contramão dos “jornalões”, eles crescem em ritmo acelerado, aproveitando a alta demanda das populações por informações locais. Segundo o IVC, as publicações interioranas impressas tiveram alta de mais de 83% de 2001 a 2009, enquanto que, nas capitais e regiões metropolitanas, houve queda de 25%. Outra informação que contribui para delinear esse quadro é que, de 2006 a 2009, de acordo com o mesmo instituto, os jornais com valor acima de R$ 1,15 cresceram apenas 1%, enquanto os jornais populares, com preços abaixo de R$ 1, tiveram alta de 32%.

Conforme afirma Peruzzo (2005), no artigo “Mídia regional e local: aspectos conceituais e tendências”, esse movimento de regionalização – que não acontece só nos impressos, mas em outras mídias também, como a televisão – tem ocorrido porque o processo de globalização da informação impulsiona a revalorização das culturas locais, ao invés de sufocá-las. Acreditava-se, inicialmente, que, por praticamente forçar a integração dos povos na realidade produzida pelas novas tecnologias, de romper com as fronteiras locais e regionais para participar exclusivamente de tendências planetárias, a globalização jogaria no silêncio, no esquecimento, as manifestações típicas de uma região específica. Mas, de acordo com a autora, ocorreu justamente o contrário. Isso pode ter sido resultado, justamente, do receio dos pequenos grupos de perder, em meio à profusão de informações que atravessam o planeta de ponta a ponta a cada segundo por meio da internet, a identidade construída localmente e suas características peculiares. Por isso, passaram a armar um movimento de defesa dos seus modos de vida e a querer saber, cada vez mais, o que se passa ao seu redor, o que está mais perto, o que pode ameaçar mais seriamente a sua integridade.

Já está bastante claro que o fato da globalização – da universalização ou da ocidentalização do mundo, como preferem alguns – impulsiona uma revalorização do local, ao invés de sufocá-lo, como se prognosticou num primeiro momento. Houve, assim, a superação da tendência pessimista de considerar que as forças globalizadas – da economia, da política e da mídia – detêm o poder infalível de sufocar as sociedades e as culturas nos níveis nacional e local. A realidade vai evidenciando que o local e o global fazem parte de um mesmo processo: condicionam-se e interferem um no outro, simultaneamente (PERUZZO, 2005).

Na área da comunicação, esse crescimento dos veículos locais e regionais, que Peruzzo classifica como “jornalismo de proximidade”, não tende a se dar somente nas publicações impressas, como já foi mencionado. Em outros meios, como a televisão, a programação tende a se concentrar no local/regional com a expansão da TV digital, que dará ao telespectador mais poder de escolha em relação ao que pretende assistir.

No entanto, para que o desenvolvimento seja pleno, os desafios ainda são muitos. Os entraves para minimizar a influência de conceitos e comportamentos que, com o tempo, ficaram arraigados no jornalismo de proximidade, que se consolidaram sócio-historicamente na maneira de fazer imprensa no interior, oferecem resistência e permanecem presentes, firmes e fortes. Entre eles, a ligação com os poderes político e econômico, a falta de estrutura nos veículos – que compromete a qualidade do trabalho –, os constantes erros de informação produzidos pelo esquema amador que ainda impera nas redações, entre outros. O que está em jogo, portanto, é a liberdade. Ou a falta dela.

Jornalismo regional e liberdade

No contexto discutido até o momento, com as transformações por que passa a imprensa no mundo todo e os reflexos que tais transformações provocam no desenvolvimento do jornalismo de proximidade, torna-se imprescindível refletir sobre a liberdade conjugada pelos veículos de comunicação e discutir os principais gargalos que comprometem o exercício de um jornalismo voltado às questões que envolvem o acesso à cidadania por meio do direito de ser informado, de forma séria e com qualidade.

Este cenário acaba se configurando com um “calcanhar de Aquiles” para a imprensa como um todo, principalmente a brasileira, foco deste trabalho. Como fazer jornalismo de qualidade e isento de interesses políticos e comerciais em municípios ou regiões pequenas, em que as fontes de receita dos veículos, na maioria das vezes, estão justamente no meio empresarial e nos cofres públicos?

Ao financiarem a produção de informações, políticos e representantes do mercado executam um acordo: bancam as publicações e, em troca, impedem questionamentos, por parte dos jornalistas, dos desmandos políticos promovidos pelas prefeituras e exigem que a atuação social das empresas patrocinadoras sejam exaltadas, de forma que seus reais interesses sejam maquiados ou ocultados. Dessa forma, a única justificativa para que os pequenos jornais e programas de rádio e TV locais/regionais continuem na ativa está em fazer propaganda escancarada de produtos e/ou ações políticas. Quando existe algum desrespeito político ou comercial ao interesse público, simplesmente é ignorado, fazendo parecer ao público que o município ou a região não enfrenta problemas estruturais típicos de áreas urbanas ou na própria condução da administração pública.

É comum a existência de tratamento tendencioso da informação e até a omissão de fatos, em decorrência de ligações políticas com os detentores do poder local e dos interesses econômicos de donos da mídia. Claro que não se trata apenas de um problema da imprensa regional, mas nela parece que essas relações se tornam mais explicitas, justamente porque as possibilidades de confronto entre o fato e sua versão, por parte do leitor, são mais fáceis de acontecer (PERUZZO, 2005).

É nesse cenário que reside um contrassenso. Enquanto a imprensa, historicamente, luta contra a censura promovida pelas ditaduras mundo afora, os veículos de comunicação aceitam pôr uma mordaça, se calar, por meio de uma censura promovida internamente, pelos próprios donos de mídia, quando se “vendem” a outros tipos de poder. Enfraquece-se o poder da imprensa, de denunciar os abusos políticos, cobrar soluções, ouvir o que o povo tem a dizer, mobilizar grupos na busca por direitos, e emergem os discursos apoiados pelos poderes político e mercadológico. Jornais, rádios e emissoras de TV embarcam na onda do capital e se consolidam mais como uma indústria de notícias – mal apuradas, redigidas e editadas –, do que como uma ferramenta de jornalismo sério e de qualidade.

A falta de esmero na produção da informação é ainda mais prejudicada por comportamentos como o uso abusivo da internet. A rede, que veio para facilitar contatos, trouxe, também, comodismo aos profissionais. O esforço para procurar assuntos inusitados, temas curiosos, personagens exclusivos, deu lugar ao uso além da conta das informações via computador. Isso faz com que, em muitas situações, ideias de pauta sejam procuradas em locais virtuais parecidos, o que gera uma uniformidade na confecção de reportagens por veículos diferentes. Não é raro ver os mesmos assuntos e com as mesmas fontes em um curto espaço de tempo em jornais diferentes, por exemplo. No interior do Brasil, é comum, inclusive, que as informações veiculadas em um sirvam de pauta para outro, em que se replica até mesmo os erros, quando eles acontecem.

Configura-se, portanto, uma realidade recorrente e intrigante, que nos deixa questões como: É possível pensar em outra perspectiva, em que o jornalismo de proximidade sirva ao interesse público e não aos interesses dos poderes político e mercadológico? É possível que, neste cenário de transformações da imprensa, o jornalismo de proximidade cresça com qualidade? Como irá se posicionar, nos próximos anos, a imprensa local/regional neste cenário de crise da informação?

Perguntas como essas vão provocar inúmeras outras reflexões. E, ainda, muitas outras dúvidas. Com certeza, não haverá respostas definitivas.

Considerações finais

Com este estudo, foi possível perceber que o jornalismo atual, com todas as transformações que enfrenta, pode ser comparado ao ofício de navegar. Para o poeta português Fernando Pessoa, é possível que a navegação seja precisa, no sentido de exatidão, desde que haja os instrumentos apropriados para colocá-la em curso. Problemas de orientação dos equipamentos ou uma tempestade no meio da viagem pode provocar mudanças de rumo ou, até mesmo, fazer o barco ficar à deriva.

O atual cenário da imprensa no planeta enfrenta turbulências. Novos rumos estão sendo definidos para a prática do jornalismo, principalmente com a tempestade provocada pelo advento das novas tecnologias. Para que o barco da imprensa não se perca, é preciso encontrar uma direção segura. Como abordado acima, os interesses, que não o público, que direcionam a forma de fazer jornalismo podem ameaçar a integridade de uma função, a do profissional de imprensa, que se consolidou, sócio-historicamente, como defensora da cidadania e instrumento de denúncia das ações que a ameaçam, além do que põem em risco a liberdade conquistada durante anos de luta contra as ditaduras.

Diante disso, parece evidente que informar é preciso, no sentido de necessário. Ao mesmo tempo, o destino do jornalismo se mostra estimulante e preocupante. Impreciso, portanto.

Referências

ADORNO, Theodor, HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.

BUCCI, Eugênio. Sobre Ética e Imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

______________. A imprensa o dever da liberdade. São Paulo: Contexto, 2009.

CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

GUROVITZ, Helio. A internet, o WikiLeaks e o futuro do jornalismo. Revista Época, 29 de julho de 2010. Disponível em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI159171-15217,00.html. Acesso em 11 de agosto de 2010.

NOGUEIRA, Paulo; LAMAS, Julio. As bombas e o jornalismo. Revista Época, 29 de julho de 2010. Disponível em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI159263-15227,00.html. Acesso em 11 de agosto de 2010.

PERUZZO, Cicilia. Mídia regional e local: aspectos conceituais e tendências.Revista Comunicação & Sociedade. São Bernardo do Campo: Póscom-Umesp, 2005.

PETRY, André. Inferno na Torre do Times. Revista Veja, 29 de abril de 2009.

RABONI, André. Circulação dos jornalões em queda. A credibilidade e a sobrevivência em xeque. Disponível em http://acertodecontas.blog.br/midia/circulacao-dos-jornaloes-em-queda-a-credibilidade-e-a-sobrevivencia-em-xeque . Acesso em 12 de dezembro de 2010.

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[Igor Savenhagoé jornalista, mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade e professor de Jornalismo]

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