Domingo, 23 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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FEITOS & DESFEITAS > OS “MARAJÁS”

Os jornalistas aguardam o dinheiro que falta

Por Vera Lucas em 07/02/2012 na edição 680

Quando a gente não sabe o que falar, o melhor é ficar de boca fechada. Caso contrário, corremos o risco de dizer alguma asneira. Durante coletiva realizada na quarta-feira (1/2), o presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Léo Burguês, afirmou que os jornalistas ganham mais do que os vereadores, talvez o dobro ou o triplo. Ele soltou essa pérola para justificar a proposta de aumentar os vencimentos dos vereadores da capital mineira. Detalhe, ele ganha mais de R$ 9 mil e pretendia que a partir de janeiro de 2013 os vereadores recebessem R$ 15.031,76 – o prefeito Marcio Lacerda (PSB) vetou o aumento. Vai mexer com quem está quieto…

Os jornalistas presentes na entrevista, indignados, protestaram. Ao perceber que dissera besteira, perdendo uma ótima chance de ficar calado, Léo Burguês tentou justificar o injustificável. Assegurou que, na verdade, quis dizer que os salários maiores são dos jornalistas-apresentadores. E continuou defendendo a proposta de aumentar os salários na Câmara de Belo Horizonte como se nada tivesse acontecido.

Presidente… O piso salarial de jornalistas de Belo Horizonte é de cerca de R$ 1.700,00. Vamos fazer as contas, R$ 9 mil menos R$ 1.700 dá um resultado de R$ 7.300. Proponho, assim, que cada jornalista da capital mineira cobre do presidente da Câmara de Belo Horizonte onde se esconde essa diferença.

Ou é babá, ou vai para a rua

E para não dizer que só falei de Minas Gerais, vou tentar explicar como as coisas funcionam. A situação em outros estados também está caótica para os jornalistas. Em São Paulo e no Rio, a Band demitiu 12 profissionais da equipe de esportes e 15 do programa Cidinha Livre. No final do ano passado, a Folha de S.Paulo mandou embora cerca de 40 jornalistas.Ainda em São Paulo e também no Rio, a relação entre a Rede TV! e seus profissionais não é nada boa. De acordo com o sindicato da classe, não há respeito profissional, as condições de trabalho são ruins, os salários atrasam e o FGTS não está sendo depositado. A jornalista Rita Lisaukas, que apresentava o Rede TV News, por exemplo, foi demitida ao denunciar as irregularidades trabalhísticas no Facebook. A Record acabou com programas e mandou para a rua dezenas de profissionais.Na Paraíba, os Diários Associados fecharam os jornais Diário de Borborema (Campina Grande) e O Norte (João Pessoa). A Agência Folha acabou com a sucursal de Cuiabá. E por aí vai…

Os veículos de comunicação trabalham com o número exato de jornalistas – pode até ser menos, mas nunca mais. O orçamento com a folha de pagamento é feito na ponta do lápis. Quando um programa, uma publicação, está há algum tempo dando prejuízo – por falta de anunciantes –, dança e, consequentemente, seus profissionais, se não forem aproveitados em outras editorias, rodam também…

Mas nem todas as demissões em massa são causadas por isso. Muitas traduzem-se apenas em substituir os jornalistas mais experientes, que ganham um pouco melhor, por iniciantes, que topam receber qualquer ajuda de custo. E tem ainda aqueles que, embora não sejam jornalistas, querem mesmo é que o nome ou a imagem apareça. Trabalham de graça. E aí entram aspirantes a celebridades, socialites, mulheres frutas… Já vi esse filme várias vezes. Manda-se embora uma Redação e contrata-se uma turma que está começando. Claro que, por ser inexperiente, essa turma não fica solta. Ela tem um jornalista responsável, um pobre coitado que ou aceita a função de babá ou vai para a rua.

Entendeu agora, presidente Burguês?

***

[Vera Lucas é jornalista e escritora, Rio de Janeiro, RJ]

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