Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1045
Menu

FEITOS & DESFEITAS >

Enfrentamento na TV paga, disputa na TV aberta

Por Valério Cruz Brittos e Anderson David Gomes em 06/03/2012 na edição 684

Se, desde o início, 2011 foi um ano pródigo de disputas por direitos de transmissão de eventos esportivos, com destaque para a disputa vencida pela Rede Globo pelo Campeonato Brasileiro de Futebol, 2012 começa como a maioria dos últimos anos na TV aberta: filiadas e afiliadas da emissora da família Marinho transmitindo a maioria dos estaduais do país. O futebol brasileiro teve suas primeiras partidas oficiais de 2012 em janeiro. No dia 14 deu-se início a alguns campeonatos, casos de Alagoas e Pernambuco. O Rio Grande do Sul teve partida adiantada para o dia 18/01 por conta da participação do Internacional na fase classificatória da Libertadores, enquanto Minas Gerais só começou no dia 28 de janeiro.

Como os dois maiores e mais valiosos estaduais do país, o Paulista e o Carioca, só começaram no dia 21 de janeiro, a transmissão oficial da Rede Globo por todo o Brasil começou nesta data. Assim, mesmo, com dois times recém-ingressados na Série A do Brasileiro, os pernambucanos só puderam ver jogos do seu campeonato a partir da terceira rodada. Para piorar, em vez de assistirem a algum jogo da primeira rodada do seu estadual no dia 15, a Globo Nordeste transmitiu o amistoso entre Flamengo e Corinthians, realizado em Londrina.

O mapa divulgado pela Central Globo de Afiliadas e Licenciamento, em janeiro, mostra que apenas 12 dos 27 campeonatos regionais do país serão transmitidos por Globo e afiliadas. A divisão assinala que os outros estados irão retransmitir o Campeonato Carioca, em mais uma prova do não cumprimento das finalidades regionais garantidas pelo artigo 221 da Constituição Federal, havendo concentração cultural. Só Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, enquanto não começarem seus respectivos campeonatos, transmitirão o Paulistão.

Duas afiliadas da Record transmitem estaduais

Este processo de difusão a partir do eixo Rio-São Paulo – no caso da Globo, o Rio de Janeiro, onde está sua sede, é uma prática antiga, que remete aos primórdios da radiodifusão nacional (da velha Rádio Nacional) e que muito serviu, e ainda serve, para ampliar as torcidas dos principais clubes do Brasil afora. O que justifica, por exemplo, que o Flamengo seja o time com mais torcedores em regiões tão distantes do clube quanto Norte e Nordeste.

A Globo “se liga em você” a partir da imposição de uma cultura com finalidades fortemente ligadas a seus interesses e com produção a partir de um padrão tecno-estético definido, com um sotaque que não se encontra em nenhum lugar do país, querendo ser nacional sem que a nação tenha uma característica generalizada e definitiva. O que interessa a um morador do Pará saber às vésperas de todo feriado que as ruas de São Paulo estão congestionadas? Por que não mostrar um jogo local em que o torcedor possa ver seu time?

Dos estados que “sobram” na lista, com campeonato na ativa, em poucos alguma concorrente resolveu apostar na transmissão dos torneios. Após a iniciativa estimulada pela Record em 2007, só duas de suas afiliadas continuam a transmitir estaduais: a TV Pajuçara, de Alagoas, e a TV Atalaia, de Sergipe. No Rio Grande do Norte, a transmissão é da TV União (cabo), enquanto no Pará a transmissão vem da TV Cultura, emissora público-estatal.

Concentração vertical

Já na na TV fechada, a entrada do canal Fox Sports continua gerando mais e mais desdobramentos. Mesmo em ação desde o dia 05 de fevereiro, com uma equipe experiente e cuja base veio dos canais SporTV, até agora não conseguiu um acordo para estar nas principais operadoras do setor, Net e Sky – ambas tendo as Organizações Globo como sócia e detendo cerca de 70% do mercado. Assim, a Copa Santander Libertadores segue sendo transmitida para poucas pessoas, em meio a uma forte briga que já ultrapassou os bastidores.

Repórteres e narradores da Fox Sports pedem nas transmissões e em redes sociais para os telespectadores pressionarem as operadoras a incluírem o canal no seu line-up, com direito até à divulgação dos números de telefone das centrais de atendimento de cada uma no site oficial do canal. Como resposta, a Sky pede que os consumidores pressionem a News Corp. para transmitir os jogos da Libertadores em seus outros canais, FX e Speed. Além disso, a propaganda do Fox Sports é transmitida sem áudio pela operadora.

Um dos problemas para a falta de acordo seria que, apesar da Fox Sports querer entrar no pacote básico das operadoras, estaria cobrando um valor acima do normal. Porém, pesa a questão da concentração vertical presente no setor, apesar da recente aprovação da Lei nº 12.485/2010, que regula a comunicação audiovisual de acesso condicionado. As Organizações Globo podem usar do fato de serem proprietárias de operadora e de canais de transmissão para evitar que seus concorrentes entrem no rol oferecido pelas empresas do setor.

Briga sem rumos definidos

Com aporte financeiro estimado em US$ 200 milhões para os dois primeiros anos, a empresa do grupo News Corporation, de Rupert Murdoch, não contava que a antiga parceira na própria Sky/Directv – cuja participação majoritária o Grupo News Corp. repassou ao grupo Liberty em 2007 – fosse estabelecer barreiras tão fortes para sua entrada. Ainda mais quando se está num processo de transição para uma presença maior do capital estrangeiro no setor de transmissão paga, com a permissão das empresas de telecomunicações distribuírem conteúdo.

Esta disputa já dá sinais que vai respingar na TV aberta. Após a tentativa frustrada em adquirir o canal de esportes BandSports, pertencente ao Grupo Bandeirantes, a News Corp iniciou conversas com a Rede Record. O grupo brasileiro visualiza o final do contrato de exclusividade da Rede Globo, em 2018, para a transmissão da Copa Santander Libertadores. A briga entre um poderoso conglomerado internacional e o maior grupo comunicacional da América do Sul segue forte e sem rumos definidos, mostrando o que será 2012.

***

[Valério Cruz Brittos e Anderson David Gomes dos Santos são, respectivamente, professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos e mestrando no mesmo programa]

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem