Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

FEITOS & DESFEITAS > NOVAS TECNOLOGIAS

Inovação ainda é palavrão

Por Antonio Brasil em 03/04/2012 na edição 688

Desculpe a rima pobre. O título em tom de desabafo é inevitável. Como pesquisador brasileiro de novas tecnologias para o jornalismo – alguém que acorda todos os dias tentando criar algo novo em um laboratório de TV de universidade pública brasileira – reconheço que inovar, por aqui, é muito difícil. Talvez, quase impossível.

Situação diferente de colegas norte americanos do prestigioso Massachussets Institute of Technology (MIT).

Semana passada semana participei do “The Challenge of Innovation: Thinking out of the box with MIT” (O Desafio da Inovação: pensando fora da “caixa” com o MIT, ver aqui) que aconteceu no Costão do Santinho, em Florianópolis (SC).

O evento é realizado anualmente e tem com a presença de dirigentes de grandes empresas nacionais e multinacionais, lideranças do setor público e empreendedores-referência em suas áreas de atuação. O encontro procura estimular a troca de experiências e a interação com especialistas do MIT sobre temas estratégicos para o Brasil e o mundo. Este ano participei como professor da cátedra UFSC-RBS, uma ideia “inovadora” que aproxima a universidade das empresas de comunicação.

O encontro com os colegas do MIT foi um sucesso. Afinal, a instituição norte-americana gera negócios avaliados em mais de 2 trilhões de dólares. Ou seja, o MIT produz valores que equivalem à economia de um país como o México e seus pesquisadores são responsáveis por algumas das maiores inovações tecnológicas do mundo.

Confesso que fiquei com inveja. O contraste entre as condições de trabalho mais do que limitadas dos nossos pesquisadores e os incentivos de centros de excelência como o MIT comprovam que ainda temos um longo caminho pela frente. Mas diante de uma cultura avessa às mudanças, também ficou evidente que o inovador brasileiro é, antes de tudo, um herói.

Riscos e perigos

Para comprovar, temos as histórias trágicas de inovadores brasileiros como o padre Landell de Moura (ver aqui). Ele ousou inventar e patentear diversas tecnologias revolucionárias como o telégrafo sem fio, um aparelho para transmissão e gravação da voz humana, a máquina de fax, e foi um dos precursores da fibra ótica. Mas como muitos pioneiros brasileiros, o padre Landell enfrentou uma cultura avessa às mudanças e inovações. Ele teve seu laboratório destruído pela população da pequena cidade onde trabalhava, Campinas (SP), foi hostilizado pela igreja católica, não recebeu ajuda do governo e morreu pobre e esquecido em 1928.

Sua trajetória trágica relembra outro grande inovador brasileiro, Santos Dumont. Ele teve que sair do país para voar, enfrentou muitos problemas, inclusive a falta de reconhecimento internacional, e acabou se suicidando ao retornar ao Brasil.

Essas histórias tristes contrastam com as trajetórias de sucesso de inovadores norte-americanos como Thomas Edison, Steve Jobs e Bill Gates. Ser inovador no Brasil é muito difícil e também pode ser muito perigoso.

Inovação reversa

Sem dúvida, temos pessoas muito criativas no Brasil. Porém, poucos são verdadeiramente “inovadores”. Talvez não tenhamos uma cultura nacional de inovação. Não contamos com um ecossistema dinâmico que valorize, incentive e, principalmente, não tema os perigos das mudanças. Inovação envolve sempre custos e riscos.

Também não contamos com um ambiente que estimule o potencial positivo da “destruição criativa”. Como advertiu o professor Andrew McAfee, do MIT, “ainda protegemos o passado do futuro”. E isso pode ser um grande erro.

Em relação ao capital humano, não deveríamos acreditar que o único caminho para a inovação é o ingresso de mais estudantes em universidades, a construção de laboratórios sofisticados e caros ou o financiamento de incubadoras de empresas. O professor McAfee exibiu, como exemplo, imagens de incubadora brasileira que oferece escritórios ou pequenos cubículos fechados para as empresas que ainda estão engatinhando no mercado, as startups. No Vale do Silício, nos Estados Unidos, ao contrário, as empresas iniciantes compartilham o mesmo ambiente em incubadoras de negócios. Não há uma cultura de segredos revelados em espaços restritos e reservados. A inovação gera inovações.

Para criar algo verdadeiramente inovador é necessário uma mistura de ambientes, objetivos e principalmente, de pessoas. Isso demanda interação multidisciplinar e colaboração entre pares. Para inovar precisamos de um ambiente mais livre, talvez até um pouco caótico. Não deveríamos reservar nossos laboratórios somente para os cientistas bem “disciplinados”, bem comportados em institutos militares, organizações estatais ou empresas monopolizadas.

Ambientes protegidos de tudo e de todos podem não ser os melhores ambientes para o desenvolvimento de uma cultura de inovação. Mas talvez seja o cenário ideal para a “inovação reversa”, a reengenharia, tão comum em nosso país.

Roda de Copenhagen

Cultura de inovação também oferece a possibilidades de aprendizagem para aqueles que são considerados “estranhos” ou “inconformados”. Os estudantes avessos às salas de aula da educação tradicional talvez sejam bons inovadores. Bem sabemos que os alunos insatisfeitos, inconformados, desajustadas e problemáticas talvez sejam pessoas muito criativas. Nem todos precisam da educação formal para ser bem sucedidos. Steve Jobs, Bill Gates e Steve Zuckerberg foram alunos problemáticos e não conseguiram concluir seus cursos universitários. Isso pode ser uma informação significativa para o futuro de nossas instituições de ensino superior.

Por outro lado, a nossa dependência quase que exclusiva de políticas governamentais para desenvolver projetos inovadores, e a preferência por “grandes” projetos como as plantações gigantescas de soja voltadas essencialmente para a exportação, a produção de biocombustíveis ou prospecção de petróleo em mares profundos que incentivam a produção de ainda mais automóveis, não parecem os melhores exemplos de inovação.

Afinal, nem tudo que é novo e nem toda a novidade é inovação. Inovação requer agregação de valor e precisa ser reconhecida pela sociedade. Pelo menos a inovação que consideramos positiva, de verdade.

Prefiro a inovação gerada pelas pequenas e poderosas ideias de indivíduos ou heróis. No encontro do MIT em Florianópolis fomos apresentados a projetos simples, porém revolucionários. Destaco a bicicleta elétrica que se autocarrega ao ser pedalada. Em verdade não se trata de uma bicicleta elétrica, mas de uma roda geradora que pode ser instalada em qualquer bicicleta. Ou seja, não é mais uma geringonça elétrica, feia e sem graça.

A equipe do professor Sieberman, do MIT, desenvolveu um conceito novo: um aro móvel com pequeno motor elétrico que instalamos em qualquer bicicleta (ver aqui). É a roda de Copenhagen, cidade que patrocinou a inovação tecnológica.

Tinta eletrônica

Outro projeto é o monitoramento de lixo através de sensores. Afinal, para onde vai o lixo que produzimos? Como podemos encurtar ou reverter esse caminho? Como esse lixo volta para as nossas residências? Durante um ano os pesquisadores do MIT acompanharam a trajetória de centenas de objetos que foram jogados fora na cidade de Seattle, em Washington. O resultado é um mapa dinâmico que estimula mudanças, novas políticas de sustentabilidade nas smart cities – ou cidades inteligentes do futuro.

E que tal conferir um celular comum que faz exames de vista para populações carentes (ver aqui)?. Essa foi uma das diversas inovações apresentadas pelo professor Ramesh Raskar. Mas, para mim, a verdadeira “inovação” foi saber que ele saiu de um vilarejo na Índia para estudar e trabalhar no MIT.

Caminho semelhante percorrido pela jovem brasileira Ana Lopes, que queria ser cientista. Ela saiu de Brasília, fez graduação em Astrofísica na Universidade de Toronto, no Canadá, mudou para Boston (EUA) e ingressou no MIT. Ela fez uma apresentação mais realista sobre os problemas e dificuldades enfrentados pelas inovações tecnológicas desenvolvidas no MIT.

Hoje, Ana Lopes trabalha para a E-Ink, empresa que desenvolve a tinta eletrônica para os leitores digitais como o Kindle, da Amazon. Só para termos uma ideia dos obstáculos para as inovações, a empresa E-Ink levou doze anos para alcançar reconhecimento e sucesso. Durante esse período perdeu dinheiro, muito dinheiro. Mas com perseverança e muitos financiamentos – inclusive a ajuda de uma outra empresa inovadora, a Amazon, a maior livraria virtual do planeta – a E-Ink se tornou uma história de sucesso.

Depois da apresentação da professora Ana Lopes, perguntei se ela não pretendia voltar para o Brasil. Com um sorriso maroto que dizia mais do que as palavras, preferiu declarar que tinha acabado de ser contratada pela E-Ink e que não pretendia voltar para sua amada Brasília. Pelo menos, não agora. Faz sentido.

Nesse contexto de dificuldades para retornar ao Brasil, a Ana Lopes reclamou da falta de incentivos para a inovação e da cultura do concurso público. Muitos dos seus amigos estão dedicados somente a conseguir um emprego público. Astrofísica ou inovação certamente não garantem boas oportunidades de sucesso no país.

Michael Schrage, ex-jornalista do Washington Post e hoje professor pesquisador do MIT, procurou discutir o potencial da inovação para estimular a competitividade global. Entre diversas provocações ele disse que “o Brasil está gastando muito tempo pensando sobre o que é a inovação global em vez do que é a inovação brasileira e como ela deveria ser".

Ninguém parece ter gostado de ouvir o óbvio. Ainda mais quando o óbvio é dito por um professor norte-americano do MIT. Tinha que ser um jornalista.

Sem bagagem

Esses foram algumas das pequenas grandes reflexões e inovações apresentadas pelos professores pesquisadores do MIT em Florianópolis. Ficou evidente que os inovadores podem ser bons professores, costumam ser criativos e alguns desenvolvem produtos fabulosos. Mas todos, no entanto, possuem uma história em comum. Eles fogem da mesmice, dos padrões e dos limites. Falo de algo muito próximo. Conheço a minha tribo.

Há mais de 10 anos cometi a ousadia de desenvolver uma televisão digital de baixo custo com transmissões ao vivo pela internet voltada essencialmente para a experimentação de novas linguagens audiovisuais e para o ensino de Jornalismo. Recebemos o maior prêmio brasileiro para projetos inovadores em comunicação no Brasil, o prêmio Luiz Beltrão em 2002, conferido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação (Intercom).

Fomos objeto de pesquisa de diversos trabalhos acadêmicos e o projeto se tornou referência no Brasil e em diversos países. Mas sentimos na pele os problemas de uma cultura que pune os inovadores com críticas vorazes e limitação de recursos. No Brasil, criar algo novo, botar a mão massa, principalmente no Jornalismo e no ensino de Jornalismo, é considerado “pecado mortal”. Criar um veículo de comunicação para que os alunos de Jornalismo possam criar novos produtos, ser avaliados pela sociedade e recompensados pelo êxito do seu trabalho, é “traição”.

Mas isso não deveria ser surpresa somente no Brasil. Para alguns professores do MIT, as universidades tradicionais podem ter o mesmo destino dos monastérios na Idade Média. Eles também tinham o monopólio do saber e da difusão do conhecimento. Somente os monges copistas produziam livros manuscritos.

A máquina de imprimir de Gutenberg, no entanto, tornou os monastérios desnecessários e irrelevantes. O professor Andrew McAfee chegou a dizer no evento de Florianópolis que muitas universidades não passam de grandes supermercados. “Você entra, paga e pega os diplomas que estão disponíveis em inúmeras prateleiras. Talvez devêssemos estimular formas alternativas e inovadoras de aprendizado”, acrescentou. O constrangimento no palco e na plateia foi generalizado.

Para o cientista do MIT, inovação é “esquecer, reaprender aquilo que já conhecemos. E não ter conhecimento prévio, não ter ‘bagagem’, pode ser muito útil”.

5 Cs da Inovação

Há muitos anos tento ensinar Telejornalismo e Inovação em universidades públicas e privadas brasileiras. Não é tarefa fácil em uma cultura que privilegia o conhecimento estabelecido e a segurança do emprego, de preferência em grandes empresas de jornalismo. Talvez devêssemos prestigiar um ensino mais flexível, presencial ou a distância, porém um ensino sempre de excelência. Novas tecnologias como a TV na internet ou os videogames podem melhorar os cursos de jornalismo.

Outra inovação no ensino deveria ser o estímulo ao aprendizado entre pares. Alguns dos melhores professores facilitam e estimulam a troca de experiências entre os alunos em laboratórios abertos a inovações. Espaços de aprendizagem que não excluem a responsabilidade do professor como supervisor, alguém que tem uma visão maior do todo, do laboratório e dos alunos. Um espaço que estimule a colaboração e a competição e não a mera imposição hierarquizada do saber.

Inovação no ensino também inclui novas formas de gestão. Os alunos de jornalismo não só aprendem com os alunos mais competentes em determinadas técnicas; eles também aprendem a empreender, criam empresas, lideram projetos e desenvolvem novas rotinas profissionais. Cultura de inovação em laboratório de jornalismo deveria aceitar e estimular o erro considerado criativo. Todos os dias, procuramos cometer erros novos.

Como anunciou o professor Schrage, devemos prestar atenção aos cinco Cs da inovação: criatividade que também inclui a criação destrutiva, competição, comprometimento, custo e principalmente, coragem. Para ele, inovação pode ser definida como “a conversão de uma novidade em valor”. E para ser bem sucedida, além de perseverança, demanda ousadia e risco.

Devemos refletir se realmente queremos “inovação”. Ou se vamos continuar protegendo o nosso passado do futuro. Um dia, quem sabe, no Brasil, inovação não seja mais tão um tremendo palavrão.

***

[Antonio Brasil é jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina]

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