Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > JOHN CARTER

O velho racismo norte-americano na tela grande

Por Fábio de Oliveira Ribeiro em 03/04/2012 na edição 688

Para rir ou chorar, dependendo do leitor ser racista ou vítima de racismo.

Esta semana estreou na tela grande o filme John Carter, inspirado nos livros de Edgar Rice Burroughs. A crítica enfatizou as qualidades artísticas da produção, a excelência dos efeitos especiais, a correta adaptação da obra literária ou simplesmente fez propaganda do filme. Não disse, entretanto, que o filme e a obra literária em que se inspira são refinadas expressões do velho e bom racismo norte-americano.

Na Terra, o personagem central da obra é um oficial confederado. Durante a Guerra Civil, ele lutou pelos estados norte-americanos que defendiam a preservação da escravidão. Os mesmos que depois resistiriam à Lei dos Direitos Civis. Os aspectos políticos decorrentes da sua vinculação aos estados confederados foram suprimidos da obra. Ele é o herói. Na Terra, os vilões são justamente os soldados que lutaram ao lado dos estados que apoiavam a libertação dos escravos. Ponto para o racismo.

Em Marte, as duas cidades em guerra são governadas e povoadas por humanoides brancos. Dejah Thoris, a princesa marciana que se apaixona por John Carter, é branca. Branca como deveria ser, aliás. Por que esta predominância da tez branca? Simples. O autor era branco e conhecia bem seu público-alvo. Mesmo que não fosse conscientemente racista, Edgar Rice Burroughs certamente sabia que sua obra não faria sucesso narrando a saga de um casal misto numa sociedade extremamente racista como a norte-americana do final do século 19 e princípio do século 20. O escritor produziu uma obra racista, mesmo que por submissão às preferências do público leitor.

“Propaganda” e “propaganda enganosa”

Além dos dois povos brancos em guerra pelo controle de Marte, o planeta é povoado por estranhas e brutais criaturas com quatro braços e a face semelhante à das formigas. Os Tharks são guerreiros que odeiam as tribos rivais e desprezam os humanoides das cidades em guerra. Por razões óbvias, podemos concluir que os Tharks comandados por Tars Tarkas foram inspirados nos indígenas norte-americanos que começaram a ser expulsos de seus territórios e exterminados justamente no século em que o autor nasceu.

Mas por que em Marte os índios não foram nem mesmo representados como humanoides? A razão disto me parece absolutamente óbvia: o bom e velho racismo norte-americano. Os racistas, antigos e novos, sempre usaram expressões ofensivas e depreciativas para se referir aos povos que consideram inferiores. Negros eram e ainda são chamados de “macacos”. Ninguém deve estranhar Edgar Rice Burroughs ter reduzido os índios que odiava à condição de “insetos” como provavelmente foram e eventualmente ainda são chamados. Por que a Walt Disney resolveu levar para tela grande este épico do racismo literário? Esta, meus caros, é a verdadeira pergunta. Mesmo que tenham tomado o cuidado de retirar do texto expressões racistas ou situações em que o racismo seja muito evidente, vendo com atenção o filme percebemos que ele funciona como um poderoso veículo de glorificação da raça branca.

Joseph Goebbels, o famigerado Propagandaminister de Hitler, produziu dezenas de filmes racistas e certamente gostaria muito desta superprodução da Walt Disney. Afinal, o filme é racista, sim, mas nele o racismo foi distribuído com sutileza artística e ministrado delicada e calculadamente, a conta-gotas. John Carter pode e deve ser considerado uma produção tardia de inspiração nazista. Um clássico da filmografia à moda do Terceiro Reich com as qualidades técnicas e artísticas “made in USA”.

Por que a crítica de cinema não colocou a obra de Edgar Rice Burroughs no seu devido contexto histórico? Porque os divulgadores de John Carter não procuraram ou encontraram no filme as características raciais que foram aqui apontadas? Esta também é uma boa pergunta. Mas vou deixar ao leitor o trabalho de respondê-la. Estou certo de que todos sabem qual a diferença entre “propaganda” e “propaganda enganosa”.

***

[Fábio de Oliveira Ribeiro é advogado, Osasco, SP]

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