Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ENTREVISTA / JOÃO CARLOS MARTINS

Contra a violência urbana, o poder da música

Por Simone Silva Jardim em 17/04/2012 na edição 690

O maestro João Carlos Martins é, inegavelmente, uma daquelas pessoas extraordinárias. O paulistano de 71 anos, aclamado como um dos mais talentosos músicos do mundo, combina a paixão pelas composições clássicas com um espírito talhado para a superação de grandes adversidades. Um dos mais brilhantes pianistas brasileiros e o único no mundo que gravou a obra completa de Johann Sebastian Bach para teclado, o ilustre entrevistado foi consagrado um dos maiores intérpretes contemporâneos do compositor alemão do século 18. João Carlos Martins tornou-se conhecido pela destreza no piano, chegando a tocar 21 notas por segundo, e pelo revelado talento e vocação para a música erudita.

A paralisação dos movimentos de ambas as mãos, em decorrência de uma doença degenerativa,fizeram o excepcional pianista sair de cena, mas em grande estilo. Não se afastou da música e ultrapassou todos os obstáculos ao iniciar nova carreira, aos 64 anos: a de regente. Criou uma fundação para abrigar sua Orquestra Bachiana Filarmônica e o projeto Orquestra Bachiana Jovem, integralmente custeado pelo Sesi-SP, voltado para a inclusão social de jovens através da formação musical.

Com espírito solidário e persistência de vencedor, João Carlos Martins mostra que as limitações físicas nada importam para grandes projetos de vida, haja vista que o palco do imponente Carnegie Hall, em Nova Iorque, tem dado acolhida calorosa à sua orquestra compostas de músicos de raro talento, muitos oriundos de comunidades carentes. Mais: que a música pode, sim, ser antídoto contra a violência urbana quando há genuíno interesse pelos jovens em situação de risco.Grande é a lição que nos dá o notável maestro.

A música é a “régua do mundo”

Qual a sua perspectiva daviolência urbana?

João Carlos Martins– Em primeiro lugar, não tenho uma visão desoladorasobre quem pratica violência, dentro ou fora do Brasil. Até teria uma boa justificativa, pois um assaltante da Bulgária, muitos anos atrás, ao bater em minha cabeça com uma barra de ferro, provocou a paralisação do lado direito de todo o meu corpo. Seu ato contra mim não foi um roubo, mas um crime de morte, pois essa violência contribuiu para o encerramento precoce de minha carreira como pianista. Mas insisto: não tenho uma visão desoladora, especialmente em relação aos jovens infratores. Minha perspectiva é muito prática, vem da minha própria experiência de vida.

Como o senhor entende a música no universo da violência urbana?

J.C.M.– Em qualquer canto deste planeta, se você vai lá dentro da alma humana percebe que todos acabam se parecendo um pouco. Então, não há seres humanos que não possam ser recuperados. Quando vejo que foi feita uma orquestra em que jovens judeus e palestinos convivem fantasticamente bem, no Oriente Médio, vejo que, no fundo, todos nós, seres humanos, somos, em essência, muito semelhantes uns aos outros. Os líderes políticos é que acabam criando as grandes diferenças. A música é muito poderosa, desperta amor nas pessoas, em quem toca e em quem ouve. A música pode ser melhor usada no combate ao flagelo da violência, especialmente junto aos jovens envolvidos com drogas e o crime organizado. Os administradores e formuladores de políticas públicas ainda não se deram conta do poder transformador da música. Digo sempre que a música é a “régua do mundo”. Se um governo vai bem, se uma empresa vai bem, se uma família vai bem, todo mundo fala que funciona como uma orquestra porque uma orquestra é o símbolo de harmonia.

O artista não pode ficar isolado em sua “torre de marfim”

Na sua opinião, em que outro lugar no mundo mais lhe impressiona os efeitos positivos da música na sociedade?

J.C.M.– Até praticamente quarenta anos atrás, a China não tinha ligação alguma com a música do Ocidente. Hoje, o maior “celeiro” de novos talentos, com genuína vocação para a música clássica, no mundo inteiro, está justamente na China, onde a música é o instrumento por excelência de inclusão social. Atualmente, cerca de 50 milhões de jovens chineses estudam piano.

O senhor entende que a música pode alcançar esse propósito de inclusão social também no Brasil?

J.C.M.– Em 1940, Heitor Villa-Lobos, saudoso maestro e compositor brasileiro, introduziu a música em nossas escolas. A criminalidade, na época, era muito menor. Atribuo parte importante desse bom resultado à iniciativa daquele grande artista. Em 2012, a música volta a ser obrigatória em todas as escolas do Brasil. Pode ter certeza de que, em poucos anos, nossa taxa de criminalidade vai diminuir bastante. Defendo, ainda, que nossos músicos clássicos, a exemplo do que faz Arthur Moreira Lima (pianista brasileiroconsagrado internacionalmente, idealizador do projeto Piano na Estrada, que leva apresentações paraáreas distantes do país), toquem em favelas, praças públicas e escolas da periferia. Isto motiva o jovem a abraçar um outro caminho, ter uma vida melhor. As famílias também são beneficiadas. Seguem reunidas, nessas ocasiões, e seus corações são amainados. O fato é que o artista não pode ficar isolado em sua “torre de marfim”, ele tem que levar seu talento para as ruas. Hoje, essa atitude faz uma grande diferença no combate à violência urbana.

Prometi aos jovens que eles tocariam no Carnegie Hall ou no Lincoln Center

Mais do que um talento ou profissão, a música pode ser considerada uma missão de vida?

J.C.M.– A missão do artista e, em particular, do músico clássico, é levar ao conhecimento de toda a população a sua arte, especialmente para aquelas pessoas que nunca tiveram a oportunidade de ter contato com esse tipo de música. Ele deve tomar isto como uma causa, à qual precisa dedicar muito amor e o máximo de seu talento. Quando minha orquestra ou eu sozinho tocamos em uma comunidade carente, é como se estivéssemos tocando em espaços privilegiados, como a Sala São Paulo ou o Carnegie Hall (Nova York). A música que toca as pessoas individualmente e que tem o poder de transformar toda uma sociedade é feita com muito amore não com muito dinheiro e marketing.

O amadurecimento ou a inspiração trouxe-lhe esta visão da música?

J.C.M.– Algumas coisas já estão dentro do seu coração e do seu cérebro; você nem imagina que tudo está lá, mas está. Comecei a tocar piano aos oito anos. Aos treze, recebi meu primeiro cachê porum concerto que fiz para a Prefeitura Municipal de São Paulo. Estava com meu pai no guichê do banco paradepositar o cheque referente ao pagamento quando tive a ideia de irmos ao Instituto Padre Chico, voltado para o tratamento de cegos e outras pessoas com deficiência visual. Fomos até lá, toquei piano para aquela comunidade e deixei o cheque na entidade. Posteriormente, ações como esta aconteceram várias vezes, mas de forma pontual, nunca como um projeto de vida. Se estava em Nova Iorque, em temporada de concertos, nas festas de Natal, nunca deixava de ir a um asilo para tocar piano. Eram sementes que já estavam no meu cérebro e no meu coração e das quais desabrochavam um ou outro botão apenas. As adversidades que aconteceram na minha vida fizeram com que, há quase sete anos, eu assumisse integralmente minha responsabilidade social com o meu país. Para atingir este objetivo, comecei a formar minha própria orquestra, que banquei sozinho nos primeiros quatro anos de atividade. Prometi aos jovens que estavam ali, depositando em mim um voto de confiança, gente de todas as classes sociais e de diferentes partes do Brasil, que antes de inteirarmos o sexto ano, eles teriam tocado no Carnegie Hall ou no LincolnCenter. Em 2010 este sonho se tornou realidade. De alguma forma tudo está em nossas mentes e corações. Precisamos empenhar esforços eessas coisas começam a tomar forma em nossas vidas.

Temos orgulho de ser a orquestra que melhor paga noBrasil

O trabalho com a orquestra também alcança crianças e jovens que não têm todo o talento dos músicos de primeira linha?

J.C.M.– Sim, porque digo a eles que a música também pode fazer diferença na forma como vão conduzir suas vidas no futuro. Sempre destaco uma frase: é preciso ter a alma de um poeta e a disciplina de um atleta. Tudo vai funcionar bem se a razão e o coração estiverem juntos nos momentos de traçar os objetivos. Em minhas passagens por várias cidades do Espírito Santo, de Minas Gerais e de São Paulo pude mostrar a mais de mil e quinhentos jovens e crianças como a música pode levar a um viver melhor. Nestas ocasiões, às vezes, deparo com “diamantes brutos”, como um rapaz que encaminhei para estudar na Escola de Música de Milão ou um outro, vindo do Piauí, que hoje estuda na principal escola americana de música clássica. Na antiga Febem, promovo um trabalho junto aos jovens para motivá-los a ter amor ao próximo através da música. Toda a orquestra vai comigo e ao final da apresentação há sempre momentos de muita emoção. Esses jovens se abrem para uma transformação verdadeira.

Seriam necessárias elevadas verbas do Poder Público para implementar iniciativas como estas?

J.C.M.– No estado de São Paulo, nestes últimos anos, todos os projetos musicais custaram verdadeiras fortunas, na minha opinião. Passam a falsa ideia de que só se faz música de qualidade com orçamentos milionários. Esse tipo de iniciativa acaba sendo dirigida só para a elite. Quando se faz música com muito amor e pouco orçamento, o trabalho alcança todos os segmentos da sociedade. Sou contra gastar milhões para fazer um festival como o de Campos do Jordão, cujo alcance é muito restrito quando sopesados os milhões investidos e o público beneficiado. Para ter uma ideia, em 2010, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), mantida com recursos públicos do governo estadual, tocou para cerca de 200 mil pessoas, com orçamento superior a 60 milhões de reais. A nossa Orquestra Bachiana Jovem, que hoje possui 45 integrantes, conta com um orçamento de 3 milhões de reais, montante doado pela iniciativa privada, e no mesmo período tocamos para cerca de 350 mil pessoas.Temos orgulho de ser a orquestra que melhor paga no Brasil e que vai ao encontro do grande público.

A Bachiana Filarmônica e a bateria da Vai-Vai

Como atrair os jovens para a música erudita?

J.C.M.– Eu aposto naquilo que chamo de “diálogo criativo” com todos os ritmos. Tive toda uma formação clássica, mas sempre reconheci a importância da música popular brasileira e seus ritmos. Prova disso são os arranjos que faço para as apresentações da Filarmônica Bachiana, que unem o erudito ao popular. A cada 50 concertos clássicos que realizo, um, necessariamente, faz a ligação da música clássica com outro tipo de ritmo. Já fiz esta aproximação com o samba e o sertanejo. Em 2010, fiz cinco dessas apresentações públicas, em meio a outras duzentas, e elas atraem um público diferenciado e numeroso que desconhece a música clássica ou a considera “coisa de velhos”. O que muito me gratifica é vê-los frequentando os próximos espetáculos de música clássica. Em outra oportunidade, tive a ideia de fazer a apresentação do primeiro movimento da 5ª Sinfonia de Beethoven com a bateria da Vai-Vai, tradicional escola de samba paulistana. Começou ali, em 2007, uma feliz união da música erudita com o samba. De lá para cá, temos participado,juntos, de vários concertos, sempre ovacionados pelo público.

Em apresentações internacionais essa mistura de ritmos também é aplaudida?

J.C.M.– Em setembro último, tocamos no Lincoln Center, em Nova York. Na primeira parte da apresentação, a Bachiana Filarmônica executou Bach e Vivaldi. Na segunda parte, a bateria da Vai-Vai entrou em cena para mostrarmos a influência da rítmica africana no Brasil, desde o século 18, com músicas de Villa-Lobos e outros grandes compositores brasileiros.

A adversidade é o começo de uma nova jornada

Esse mesmo otimismo e força que o senhor demonstra, na música, também serve de exemplo para os portadores de necessidades especiais?

J.C.M.– Sim porque tenho o que trocar com essas pessoas. Tenho as mãos fechadas, mas não deixo ninguém me ajudar, apesar de todo o dia ser um drama fazer barba, pela manhã. Como não tenho controle sobre os movimentos dos dedos, colocar o cinto na calça é outro grande desafio. O problema que tenho nas mãos é bastante sério e raríssimo entre pianistas. Tudo começou aos 26 anos, numa queda que tive jogando futebol, quando perdi temporariamente a mobilidade dos dedos da mão direita. Mais tarde, sofri de uma síndrome causada pela repetição de movimentos. Depois, fui vítima daquele assalto na Bulgária. Tive de dedicar um longo período para tratamento e exercícios dolorosos. Assim que me recuperei e voltei a tocar piano, recebi dos médicos a notícia de que teria de passar por uma cirurgia na mão direita que me impediria de tocar para o resto da vida. Sem me dar por vencido, aprendi a usar a mão esquerda para tocar. Mas, depois de algum tempo, esta também ficou comprometida pelo diagnóstico de um tumor maligno. Hoje sou incapaz de segurar a batutaou virar as páginas das partituras dos concertos. Tenho de memorizar nota por nota para reger corretamente a orquestra. O fato é que, diante de todas essas adversidades, procurei fazer o jogo do contente. Afinal, meu problema é mil vezes menor que o de uma pessoa que perdeu as mãos, os braços ou o movimento das pernas, a visão ou a audição. Pela exposição que a mídia me dá, acabei virando exemplo para milhares de pessoas. Sinto que tenho a responsabilidade de levar ao público essa postura de confiança, de determinação, de superação. Acresço, apenas, que minha família4 me dá muita força.

O senhor tem algum novo projeto?

J.C.M.– Aos 80 anos, quero ver realizado meu sonho de ter formado mil novas orquestras: é o meu projeto O Brasil é uma orquestra. Quero dar aos maiores talentos que descobrir em nosso país a oportunidade para que alcancem, como eu, uma carreira de projeção internacional. Confio que vou atingir meu objetivo porque acredito que, se corremos atrás de um sonho, a vida toda, chega o momento em que ele corre atrás de nós. O segredo é fazer da adversidade uma plataforma de esperança. Para a maioria das pessoas, a palavra adversidade é considerada como um fim de linha. Para mim, a adversidade é sempre o começo de uma nova jornada.

***

[Simone Silva Jardim é jornalista, São Paulo, SP]

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