Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & IDIOMA

A falta que a leitura nos faz

Por Jorge Fernando dos Santos em 12/06/2012 na edição 698

Em tempos de globalização, nota-se em muitos lugares do planeta a retomada de valores regionais. Isso talvez se explique devido à necessidade natural que o homem tem de manter suas referências culturais e linguísticas ou suas raízes fincadas no chão. Diante do massacre de informações da grande mídia e da avalanche de valores impostos pela cultura de massas, o instinto de sobrevivência faz com que a humanidade reveja e reafirme valores em busca de identidade própria.

No entanto, devido à necessidade de dominar outras línguas para se sair melhor no mercado de trabalho e ter acesso rápido às informações, o que muita gente descobre é que sequer domina o próprio idioma. Sem isso, fica difícil cruzar fronteiras em busca de novas oportunidades.

Por lamentável tradição, o Brasil está longe se ser campeão de leitura. Estamos atrás dos Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Japão, Argentina e Cuba – para citar apenas alguns países – no consumo de livros. Isso significa que o povo brasileiro não domina plenamente a língua pátria e, por isso mesmo, deixa a desejar também no que se refere à cultura geral.

Tradição esquecida

Em vez de ajudar, a mídia muitas vezes piora as coisas com a introdução de barbarismos e a vulgarização do idioma nacional. Assim, a cada nova geração, decai a qualidade da língua escrita e falada no país.

Além de dominar um repertório de poucas palavras, o brasileiro médio, mesmo quando sabe as regras gramaticais, encontra dificuldades para se expressar por meio da escrita. Já houve tempo em que boa parte das pessoas letradas cultivava o hábito de trocar correspondência. Nas linhas manuscritas liam-se declarações de amor e amizade, tratava-se de negócios e percebia-se nas entrelinhas o nível de instrução do remetente.

Com o avanço da telefonia no país, a tradição missivista foi sendo esquecida e muita gente chegou a alimentar a ilusão de que nunca mais precisaria escrever sequer um bilhete. Talvez por isso o próprio sistema de ensino tenha deixado de lado o rigor com a redação e os antigos exercícios de composição. Como a escola primária muitas vezes mal ensina o bê-a-bá, ficou para o curso secundário a função de instrumentalizar os jovens no manuseio da palavra.

Português e literatura

Devido às próprias limitações do sistema e aos novos atrativos para a adolescência – como a música popular, cinema, televisão, internet, brinquedos eletrônicos etc. –, ensinar a escrever deixou de ser prioridade também no curso secundário. A responsabilidade foi de certa forma empurrada para a universidade, onde se estuda de tudo com alguma profundidade, menos a palavra escrita. O resultado disso está nos jornais e também se reflete nas provas de vestibulares e outros concursos realizados de Norte a Sul do país.

Apesar do exposto, muita gente alimenta o sonho de se tornar jornalista, escritor ou mesmo advogado sem saber sequer redigir um bilhete. Para complicar as coisas, aqueles que trocaram o hábito de escrever cartas pelo uso do telefone foram surpreendidos pelo advento da internet.

O e-mail, as redes sociais e salas de bate-papo virtual trouxeram de volta a necessidade da escrita simples, limpa e objetiva na vida cotidiana. Por essas e outras, passa da hora de escolas públicas e privadas levarem a sério o ensino de Português e literatura, atividade que exige acima de tudo a prática de leitura e de redação nas salas de aula.

***

[Jorge Fernando dos Santos é jornalista e escritor]

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