Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & FUTEBOL

Amadorismo profissional

Por Thiago Corrêa Silva em 12/06/2012 na edição 698

Na última semana, a saga do jogador Ronaldinho Gaúcho e sua tumultuada saída do Clube de Regatas do Flamengo, após um ano e cinco meses de contrato, tomou conta do noticiário esportivo. A mais polêmica e conturbada transação do futebol brasileiro nos últimos tempos foi iniciada de forma nebulosa. O empresário-irmão do jogador havia se apalavrado com o Clube Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, time que revelou o craque para o mundo, porém logo em seguida Flamengo, Palmeiras e Corinthians entraram no páreo. Ronaldinho Gaúcho fechou com o Flamengo e sua chegada ao Rio de Janeiro foi cheia pompa e circunstância.

Ter o craque no elenco seria à solução para a combalida vida financeira do clube de maior torcida do Brasil, que está afogado em dívidas trabalhistas e não consegue se aproveitar desse fator, apesar da sua sede estar localizada em um dos metros quadrados mais caros na Zona Sul do Rio. A situação do Flamengo é periclitante, assim como a da maioria dos clubes brasileiros, que definham enquanto a Confederação Brasileira de Futebol enriquece “mercantilizando” os jogos da seleção.

O dia era de festa, a sede social do clube estava lotada de jogadores, rubro-negros famosos, grupos de pagode, um cenário perfeito para a chegada de um craque aclamado e reconhecido internacionalmente. Ronaldinho Gaúcho era ansiosamente esperado por uma torcida apaixonada e carente de ídolos, mas o craque começa a dar sinais que já não era mais mesmo jogador que encantou o mundo com dribles insinuantes e jogadas esfuziantes, deixando os torcedores ensandecidos. A torcida e a imprensa começavam a questionar o que havia acontecido com a magia. Será que o craque de outrora havia esquecido como jogar futebol?

Pensamento europeu

A sua genialidade dependia do físico e, muito mais do que isso, dependia da sua vontade e de sua cabeça, mas o jogador de cifras astronômicas não queria saber disso. Não havia mais necessidade de tanto esforço, já tinha ganhado tudo que havia disputado, foi campeão por onde passou, sendo coroado por duas vezes o melhor do mundo e aos 22 anos era campeão da Copa do Mundo com a Seleção brasileira. O que poderia motivar Ronaldinho? Capitanear a seleção nas Olimpíadas de Londres? Jogar a sua última Copa do Mundo em casa? Ser o ídolo da maior torcida do Brasil? Os questionamentos não paravam de surgir e o passe do jogador se desvalorizava a cada atuação pífia.

A impressão era que Ronaldinho Gaúcho estava cansado não queria mais brilhar nos gramados, como na maioria dos casos de jogadores de futebol, a genialidade está sempre ligada ao vigor físico. Em tempos modernos, o talento não resolve mais sozinho e o craque agora brilha em outros campos. As noites cariocas têm encantos e atrativos que podem ser devastadores para atletas de alto rendimento. Até o um serviço idealizado por um torcedor intitulado de “Disk Dentuço” foi usado como uma forma de fiscalizar e controlar as peripécias do craque durante as noites de folga.

Independente do time, o torcedor é movido à paixão, cultiva ídolos, idealiza, endeusa e excomunga, exigindo dos jogadores atuais o mesmo comportamento e comprometimento dos jogadores do passado. Não consegue discernir que hoje se vive outra época, que os fenômenos são outros, que os questionamentos podem até ser semelhantes, mas o atravessamento e o olhar são diferentes. Não há como exigir que o comportamento de um craque da atualidade seja o mesmo de um craque do passado. No caso de Ronaldinho Gaúcho, o nome evidencia a origem devendo ser levada em consideração o tipo de colonização que foi praticada no Sul do país, o clima subtropical da região, a tentativa de tornar a população mais branca, o comportamento separatista, o futebol aguerrido, além do típico pensamento europeu. A ausência que foi vista durante a entrevista concedida ao Fantástico talvez possa ser explicada por esses fatores, que foram reforçados a partir do momento em que o jogador se transfere para o Velho Continente.

O clube foi conivente

Não cabe à imprensa esportiva comparar o comportamento ausente do atleta durante as entrevistas que concede ao de pessoas que sofrem de autismo, essa visão reforça os preconceitos e os estereótipos. Será que o comportamento do jogador não é o mesmo reproduzido por senadores e deputados ao se sentirem acuados pelas reais denúncias, de mau uso do dinheiro público? Será que as respostas evasivas, a dissimulação, a omissão não são as mesmas armas usadas pela elite quando esta é questionada pela sua falta compromisso e comprometimento? Ronaldinho Gaúcho é um produto do futebol de negócios, de uma sociedade atravessada pela corrupção e pelo “Você sabe com quem está falando?”

A imprensa que faz esse tipo de questionamento é aquela que afaga quando o jogador, mesmo não sendo profissional, resolve em campo, dando-lhe uma espécie de salvo-conduto, ou então o execra quando não concede a entrevista após jogo considerado importante. Essa é a mesma imprensa que cria apelidos como “Alegria do Povo”, “Rei do futebol”, “Fenômeno”, “Animal”, “Imperador” etc. Que eleva os jogadores ao status de celebridades, fato que lhes permite acreditarem que estão acima do bem e do mal – podem matar, atropelar, ameaçar e saquear lojas de material esportivo por terem a certeza da impunidade, pois eles são os artistas da bola. Nessas histórias não existem heróis, mas também não existem vilões.

O clube deveria ter punido o jogador quando soube pela primeira vez do seu comportamento inadequado, pois todo e qualquer trabalhador que não cumpre as regras que são estatuídas pelas instituições é demitido. Mas o clube decidiu ser conivente e, portanto, não pode se comportar como se tivesse sido pego de surpresa. Os jogadores apenas reproduzem o mesmo comportamento de uma imprensa provinciana que vive de estereótipos tolos, de dirigentes despreparados e de uma sociedade neoliberal e pós-moderna.

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[Thiago Corrêa Silva é estudante de Jornalismo, Rio de Janeiro, RJ]

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