Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > ESTADÃO DIGITAL

Arquivo vivo

Por José Roberto de Toledo em 19/06/2012 na edição 699
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 11/6/2012

O arquivo de um jornal é o registro de várias dimensões da história. Marca não apenas a cronologia dos acontecimentos, mas grava as mudanças da língua, e, por tabela, plasma as transformações dos hábitos e interesses de quem a emprega. O arquivo registra quando uma expressão passa a fazer parte do cotidiano, e, atrás dessa palavra, mostra a evolução das ideias e dos conceitos que ela encerra.

Pesquisando-se o acervo digitalizado do Estado, percebe-se que poucas invenções tiveram impacto tão profundo quanto o advento da internet. Ela entrou para o léxico do jornal em março de 1990, através de reportagem traduzida do New York Times. O jornalista John Markoff relatava um ataque hacker (também a primeira menção ao termo) que roubara senhas de usuários “das centenas de milhares de computadores” ligados à rede em todo o mundo.

Quatro meses depois, outra reportagem anunciava a futura ligação da Universidade Federal do Rio de Janeiro “à rede de pesquisas internet”. Nenhuma palavra sobre o assunto em 1991 e apenas uma citação no ano seguinte. Mas em 1993 começaria a espetacular escalada do uso da palavra “internet” nas páginas do jornal.

Reportagens sobre a internet

Em 14 de fevereiro de 1993, outra reportagem de Markoff falava de uma internet visionária, que transportaria o conteúdo de enciclopédias “em segundos” através de “vidro e luz” (ou seja, de fibra ótica). Em agosto, diante da enxurrada de citações presentes no jornal, uma “Nota da Redação” explicava: “A internet não tem representante no Brasil, mas pode ser acessada por meio do BBS Canal Vip.”

Isso estava para mudar. Em 19 de dezembro de 1994, o caderno de Informática anunciava alto na página: “A internet comercial chega ao país.” Pela primeira vez, o termo foi usado em todos os meses do ano: 156 citações. Em pouco tempo a frequência de menções à internet seria diária. O volume multiplicou-se a cada ano. Foram 778 vezes em 1995, 1.593 no ano seguinte, depois 2.154, 3.910, 4.999 até bater o recorde em 2000:7.715 menções.

Outra revolução das comunicações, a televisão, nunca passou de 2.511 citações ao longo de um ano (no caso, em 2004) nas páginas do Estado. Em 22 anos, o termo “internet” foi usado 84.495 vezes no jornal, mais do que as 80.783 citações a “televisão”, que aparece no acervo desde 1922. Se você acha que o Estado deu atenção demais ao assunto, saiba que a palavra “internet” foi empregada 485 mil vezes no The New York Times desde 1982.

Com o estouro da bolha especulativa das empresas ponto.com, as reportagens sobre a rede mundial de computadores se tornaram menos frequentes. No Estado, a internet perdeu a inicial maiúscula em 2003, virou mais um assunto e nunca mais teve tantas menções quanto em 2000 – embora ainda seja mais usada do que “democracia”, “eleição” e “computador”.

Serra foi 184º colocado em 266 vagas

Não bastasse o alvoroço que causou e o espaço que ocupou, a internet deu crias lexicográficas. Até o final do século passado, “rede social” era uma forma de proteção comunitária: a rede social que protege os imigrantes de uma determinada região, por exemplo. Nos anos 2000, porém, virou aposto e, depois, sinônimo de Twitter, Facebook e Orkut. Somadas, essas quatro expressões já têm quase 3 mil citações por ano nas páginas do Estado.

E como a frequência do uso das palavras no jornal reflete a política? De maneira surpreendente. De todos os políticos, os mais citados nas páginas do Estado são presidentes, ex-presidentes e alguns candidatos derrotados à presidência. O ranking presidencial é encabeçado por “Luiz Inácio Lula da Silva”. São mais de 24 mil menções ao seu nome completo. Se forem somadas as menções a “Luiz Inácio da Silva”, a conta passa de 26 mil.

Dois Josés disputam o segundo lugar de citações: Sarney e Serra. Com quase 18,5 mil aparições, o tucano está formalmente na segunda colocação – mas ele tem muitos homônimos, o que dificulta a contabilidade. Fernando Henrique Cardoso é o quarto colocado, com 16,4 mil citações. A seguir vêm, pela ordem, Paulo Maluf, Jânio Quadros, Dilma Rousseff, Getúlio Vargas, Itamar Franco, Fernando Collor e, bem atrás, os presidentes militares.

Lula aparece pela primeira vez em reportagem sobre o novo sindicalismo do ABC paulista, no final dos anos 70. Fernando Henrique é citado desde 1957, ainda como intelectual. A primeira menção a José Serra foi em 10 de março de 1960, numa propaganda do curso preparatório Anglo Latino. Ele é um dos aprovados no vestibular para a Escola Politécnica (USP): foi o 184º colocado em 266 vagas.

***

[José Roberto de Toledo, do Estado de S.Paulo]

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