Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & MÚSICA

Rolling Stones completam 50 anos

Por Sergio da Motta e Albuquerque em 17/07/2012 na edição 703

Neste ano, no dia 12 de julho, os Rolling Stones completaram 50 anos desde sua primeira apresentação em 1962 no Marquee Club, em Londres. É a mais antiga banda de rock ainda em atuação no mundo. Muita coisa mudou desde o início dos anos de 1960. Em 2003 (10/12), seu líder, Mick Jagger, recebeu do príncipe Charles o título de Cavaleiro do Império Britânico. A rainha recusou-se a participar da festa e marcou uma cirurgia no joelho real para o mesmo dia. O Daily Telegraph publicou (11/07) que a soberana nunca suportou as posições anti-regime de Jagger e suas extravagâncias sexuais, constantemente anunciadas na mídia mundial. Por isso recusou-se a participar da cerimônia de investidura do cantor em 2003.

A soberana também não apreciava a relação dele com sua falecida irmã, a princesa Margaret, que sempre manteve laços embaraçosos com a contracultura e o movimento underground. A informação veio do livro recém-lançado Mick: The Wild Life and Mad Genius of Jagger, de Christopher Andersen. Trata-se de uma biografia não autorizada e a rainha da Inglaterra não deveria preocupar-se tanto com o conteúdo da obra. Livros, no fim das contas, do ponto de vista da checagem de fatos, são péssimas fontes de informação. Biografias não autorizadas têm credibilidade próxima de zero. Sua Majestade preocupa-se muito. É muito zelosa de sua posição. Recentemente, obrigou a esposa do príncipe Willian a curvar-se diante de suas netas porque a duquesa de Cambridge “não tem sangue real”.

Banda foi filmada em tecnologia digital

Mick Jagger aceitou o título, fato que desagradou a muitos fãs e a seu principal parceiro no repertório da banda, o milagrosamente ainda vivo guitarrista Keith Richards. Mas a história registra alguns casos de recusa da honra real: o cantor David Bowie (citado no livro de Andersen como suposto amante de Jagger no passado) recusou o título no mesmo ano (2003) em que o cantor dos Stones aceitou o seu. Bowie declarou que “nunca tive a intenção de aceitar nada como isso. Eu seriamente não sei para que serve. Não foi para isso que trabalhei a vida inteira”. Outros nomes famosos que recusaram a homenagem da coroa britânica: o ator Albert Finney, o escritor Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo (Chatto & Windus Ed. 1932), o cientista Stephen Hawking, a atriz Vanessa Redgrave e o grande escritor George Bernard Shaw recusaram o título, informou a revista TopTenz (15/02).

Os Rolling Stones são muito mais do que uma banda de rock de 50 anos que sobreviveu a tudo e a todos: são um fenômeno colossal de mídia. Mick Taylor, guitarrista que já fez parte da banda em seus melhores dias, declarou ao Irish Independent, da Irlanda (10/7), que os Stones, daqui a muitos e muitos anos, serão lembrados mais por sua atitude e rebeldia do que por sua música, que é muito difícil de ser reproduzida. É muito difícil reinterpretar qualquer material deles porque sempre ficarão em falta suas marcas principais: a atitude, a rebeldia e o todo o jogo cênico da banda, que é uma coisa só deles “e não tem nada a ver com notas musicais”, lembrou Taylor. Já os Beatles, comentou o melhor guitarrista que os Stones já tiveram, serão lembrados “por suas harmonias e melodias e Bob Dylan por suas palavras”.

A revista mensal Galileu, em sua edição de julho deste ano traz um histórico que mostra o vasto uso de tecnologias inovadoras nos shows do grupo desde 1969, quando estabeleceram o formato atual dos concertos de rock, com o uso de telões, palco e iluminação próprios, até 1994, quando transmitiram 20 minutos de seu show em Dallas pela web, “tornando-se a primeira banda grande a fazer isso”. No ano seguinte, passaram pelo Brasil e utilizaram novamente tecnologia inovadora: o Jumbo Screen, um painel gigante “que toma conta de todo o fundo do palco”, explicou a revista. Em 2008, Martin Scorsese filmou em tecnologia digital a banda, em Shine a Light – o primeiro contato do famoso diretor com a nova tecnologia. Scorsese foi editor e diretor-assistente nas filmagens do legendário festival musical de Woodstock, em 1969 (ver aqui).

Reclamações mesquinhas e egoístas

Mas a conexão mais importante que liga Mick Jagger à mídia e suas questões mais contemporâneas foi sua posição desassombrada diante da questão dos direitos autorais e a internet que, segundo a indústria musical, vinha e vem destruindo o negócio com os downloads praticados pelo mundo afora. Jagger abriu o verbo e declarou à BBC em 2010 (11/07) que os empresários do setor musical, no início dos anos dourados do rock, nunca pagaram ninguém. O pagamento nunca foi em dinheiro, naquela época. Os músicos eram recompensados por orgias, mulheres, hospedagens caras, carros de luxo e muita droga. Os profissionais eram propriedade de seus produtores, que nunca abriram o jogo quando o assunto era dinheiro. Embolsavam o grosso dos lucros e empurravam o pagamento dos impostos aos músicos. O assunto já foi brevemente abordado por mim na edição nº 678 deste Observatório (“O Templo dos downloads sagrados”).

O cantor explicou que, desde o início das primeiras gravações, no princípio do século, os direitos autorais nunca se traduziram em grandes lucros para os músicos – que efetivamente criavam o produto que era vendido no mercado. Quantidades enormes de royalties negociados traduziam-se em quantias ridiculamente pagas aos músicos. O sistema de direitos autorais sempre beneficiou muito mais os empresários do setor do que os trabalhadores e criadores do produto musical. Houve uma pequena brecha, entre 1970 e 1997, em que alguns músicos fizeram muito dinheiro, explicou sir Mick à BBC. “Mas hoje isso acabou”, acrescentou logo depois o cantor.

 

Os direitos autorais nunca garantiram boa vida aos músicos, mas os produtores musicais e empresários de vendas do setor acumularam fortunas com dinheiro escondido dos músicos em acordos em que eles controlavam completamente o processo de comercialização e distribuição de música. A internet obrigou os músicos a voltarem à estrada, de volta aos concertos e as apresentações ao vivo. E a serem mais criativos e atentos a respeito de como vender seu produto. A internet garante o acesso dos artistas a todas as partes do globo, e serve como plataforma gratuita de propaganda em escala mundial. Se os músicos quiserem voltar a auferir grandes lucros com vendas de material gravado digitalmente, vão ter que refazer o modelo de comercialização e distribuição de música, que parou no tempo e nas reclamações mesquinhas e egoístas dos antigos e ultrapassados empresários musicais.

Reformular os modelos de trabalho

O modelo empresarial da indústria musical estava viciado, pesado e pouco lucrativo para os músicos antes da chegada da divulgação digital livre pela web. Com a chegada da internet, os músicos aprenderam duramente que precisam controlar o processo produtivo e de distribuição daquilo que produzem. Vão ter que afastar os parasitas que nada produzem, e fazer eles mesmos o trabalho que antes era realizado por seus exploradores da indústria musical. Acabou-se o tempo do criador genial e isolado do mundo comercial. Agora, todos têm que trabalhar para construir um novo modelo de vendas que garanta a sobrevivência dos músicos na era digital.

Seja na música, nas artes ou no jornalismo, a internet é um grande nivelador: ela dá poderes insuspeitos a quem nunca teve e obriga os profissionais a reformularem seus modelos de trabalho, financiamento e monetização. Apegar-se aos antigos modelos inevitavelmente significará o fim da viabilidade econômica de qualquer atividade afetada pelo surgimento e popularização da internet.

Fontes: Mick: the Wild Life and Mad Genius of Jagger,de Christopher Andersen, 2012, (ed. Amazon Books), U$ 12,99; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, 2001, (ed. Globo), R$ 32,50

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[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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