Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > OPINIONISMO

Faça o que eu digo, por enquanto

Por Lúcia Guimarães em 31/07/2012 na edição 705
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 30/7/2012

Não me lembro se já contei aqui como sou esquecida.

Quando fico confusa, como fiquei lendo uma coluna recente, acho logo que o problema é meu, falta de memória. A internet perpetua com facilidade nossas elocuções e, como uma intrusa impertinente, mostra que uma opinião passional de hoje vira ao avesso o que dissemos antes. Mas, às vezes, nem é preciso revisitar o passado.

Veja, caro leitor, se fica confuso como eu:

“Para mim, a lição aprendida no Iraque é bastante simples: não se pode sair de Saddam e chegar à Suíça sem ficar encalhado em Hobbes – uma guerra de todos contra todos -, a não ser que se tenha uma parteira externa e bem armada, a quem todos os presentes temam e na qual todos confiem enquanto gestora da transição. No Iraque, esse papel coube aos Estados Unidos”.

E, em seguida:

“Graças tanto à incompetência dos EUA quanto à natureza do Iraque, essa intervenção americana deu início a uma guerra civil na qual todos os envolvidos no Iraque – sunitas, xiitas e curdos – testaram o novo equilíbrio do poder, infligindo pesadas baixas uns aos outros e levando, tragicamente, a uma limpeza étnica que rearranjou o país em blocos mais homogêneos de sunitas, xiitas e curdos”.

Manifesto verde

Os dois parágrafos fazem parte da mesma coluna, “A Síria é gêmea do Iraque”, de Thomas Friedman, três Pulitzers, autor de seis livros, como O Mundo É Plano e o admirado De Beirute a Jerusalém, um dos mais influentes colunistas da língua inglesa. Se a barbárie que impediria o Iraque de ser uma Suíça foi superada graças à parteira América, como a incompetência da mesma parteira ajudou a começar uma guerra civil que levou à tragédia de uma limpeza étnica?

E em que planeta fica esse Iraque onde “todos confiam” na gestão pós-invasão, um desastre denunciado até por falcões que apoiaram a guerra? Em dezembro passado, 85% dos iraquianos queriam ver as costas de todas as tropas americanas e mais de dois terços da população se declararam aliviados com a retirada, a mesma porcentagem que não atribuía às tropas nenhuma melhoria da segurança.

Fui procurar confusos como eu e não me surpreendi com a interpretação de Matt Taibbi, da Rolling Stone, um velho crítico do raciocínio friedmaniano: “Quando a sua mulher precisa de ajuda para dar à luz, você deve contratar uma parteira que fique à porta e tenha uma metralhadora automática”.

O público de Matt Taibbi é exponencialmente menor do que o de Thomas Friedman. E o espectro curto de atenção, que é um mal do nosso tempo, parece incentivar as pessoas com acesso ao palanque da mídia a se reinventarem. Quantos saberiam procurar um obscuro videoclipe de um importante programa de entrevistas americano, gravado em maio de 2003, em que ouvimos um descontraído e eloquente Friedman dizer:

“Não há a menor dúvida de que valeu a pena invadir o Iraque. Precisávamos ir lá e esvaziar a bolha do terrorismo” (e dizer a eles) “Vocês não acreditam que nós nos importamos com a nossa sociedade aberta? Tomem esta!”

Friedman escreveu seu elogiado manifesto verde “Quente, Plano e Lotado” e fez sermão sobre os riscos da explosão do consumo de energia em economias emergentes da sua confortável mansão de 1.100 m² num subúrbio de Washington, não exatamente um exemplo de sustentabilidade.

Pecado mortal

A transformação econômica que fechou jornais e dizimou o contingente de repórteres entre os sobreviventes provocou uma explosão populacional do colunismo. Toda semana, eu recorro a um grupo de comentaristas em que confio para compreender um mundo em que a informação não verificada é epidêmica, graças ao que hoje passa por jornalismo.

O tortuoso estilo retórico de Thomas Friedman, que seus críticos apontam como um recurso para distrair atenção da incongruência de seus momentos de eureca, transformados em best-sellers e turnês de palestras, inspirou uma paródia hilariante na revista literária McSweeney's. A revista convidou o leitor a criar a sua própria coluna de Thomas Friedman sob o título “Desordem e Sonhos em (preencha aqui o nome do país)”. Em seguida , o texto oferecia múltipla escolha de diagnósticos para o que acontece em qualquer lugar visitado pelo peripatético defensor (ou crítico) da globalização, cuja opinião sobre a guerra justificada (ou desastrosa) parece evoluir como a cor do cabelo da Katy Perry.

Há alguns anos, Friedman deu a seguinte justificativa para o fato de sua carreira anterior ter sido escassa em reportagens de primeira mão: “Venho de uma geração em que publicar algo falso no New York Times era um pecado imperdoável”.

Concordo plenamente.

***

[Lúcia Guimarães é jornalista em Nova York, colunista do Estado de S.Paulo]

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