Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

FEITOS & DESFEITAS > THE WORD

Uma revista que vai fazer falta

Por Michael Angelo Matos em 31/07/2012 na edição 705
Reproduzido do Estado de S.Paulo, 28/7/2012, tradução de Augusto Calil; título original: “Word vai fazer falta”; intertítulos do OI

As revistas de música são fechadas com tamanha frequência hoje em dia que a notícia da morte de outra publicação do tipo pode parecer apenas parte de um cotidiano já insensível. A maioria dos leitores importantes está agora na rede, assinando canais do Tumblr e Twitter, encontrando nos blogs e fóruns de debate as opiniões antes oferecidas na forma impressa. A ironia está no fato de que cada vez mais as revistas de música parecerem voltadas ao tipo de pessoa que logo se entedia porque prefere a internet, na qual ao menos as listas disfarçadas de artigos trazem vídeos do YouTube.

Basta pensar na Entertainment Weekly ou na extinta Blender: poucas palavras, muito ruído visual. Somente a Spin parece perceber que as revistas não vão superar a internet ao se tornarem mais parecidas com a rede; recentemente a publicação foi reformada, tornando-se principalmente um site que inclui um componente impresso trimestral.

Mas o recente fim da revista Word, publicação mensal britânica voltada para o rock, dói mais do que seria de se esperar. Ela fazia algo além da maioria das concorrentes: respirava. Mesmo nos seus momentos menos inspirados, não havia nela nada que lembrasse uma linha de montagem. Quando sua derradeira edição foi às bancas, a melhor de todas as revistas de música publicadas na última década estava oficialmente morta.

Familiaridade, profundidade e ternura

A sua tiragem nunca chegou perto de suas concorrentes britânicas Mojo e Uncut – com melhor distribuição nos EUA –, mas, além disso, sua morte aponta para um último suspiro das revistas de rock voltadas especificamente para um público mais velho. Ela foi lançada mais ou menos na mesma época que duas publicações americanas dedicadas a um nicho parecido: a Paste, que eliminou sua edição impressa dois anos atrás, sobrevivendo apenas na versão online, e a Tracks, que durou menos de dois anos. A Word tinha uma voz editorial mais cheia de personalidade do que a Tracks, que atraía a geração do pós-guerra, e a Paste, de tendência mais indie. Na época, os leitores com mais de 40 anos eram vistos como o público natural da mídia impressa. Hoje, no entanto, eles acompanham os demais leitores na rápida migração para os tablets e aplicativos para celulares.

Um dos principais motivos pelos quais as revistas de música elaboram tantas listas e paradas é o fato de este tipo de coisa ter se provado uma estratégia bem-sucedida, e as pessoas que mostraram isso são as mesmas que estão por trás da Word. O editor da revista, David Hepworth, e seu diretor, Mark Ellen, trabalharam juntos no fim dos anos 70 e início dos anos 80 na Smash Hits, revista britânica pop que definiu aquela era. Mais tarde, a dupla ajudou a dar início à Mojo, considerada até hoje o padrão-ouro na historiografia mensal do rock, favorecendo matérias em profundidade a respeito de artistas lendários.

A Mojo é uma revista de editores, na qual prevalece o tom de reverência da casa. Graças aos céus, a Word era uma revista de escritores. Ela não se preocupava em ter uma voz coletiva identificável, preferindo em vez disso preencher suas páginas com mais parágrafos em primeira pessoa do que qualquer revista americana e moderna de rock consideraria apropriado. Criada principalmente por e para os britânicos com mais de 40 anos, a publicação projetava familiaridade, profundidade e ternura ao encorajar seus colaboradores a escreverem como indivíduos e como entusiastas.

Edições antigas

Sem dúvida, a acessibilidade de leitura da Word tem muito a ver com o fato de seus colaboradores serem profissionais experientes que sabem empregar a primeira pessoa. Mas tem muito mais a ver com a atmosfera positiva que a revista emanava. Ela dava a impressão de ser uma amiga mais velha e amante da música que ainda prestava atenção sem se obrigar a “acompanhar as tendências”.

Os gostos principais da revista não eram surpreendentes: cantores-compositores, rock de raiz, soul das antigas. Mas nunca tínhamos a sensação de que os colaboradores dispensariam um artista por capricho pessoal. Talvez eles fossem fãs mais velhos de rock que se mostravam cautelosos em relação ao pop das paradas de sucesso, mas não se consideravam acima disto, e aceitavam a dance music em seus próprios termos. Eles davam destaque regularmente aos álbuns de hip-hop, embora não preparassem muitas matérias a respeito deste estilo – e, se pensarmos que sua ênfase era voltada para britânicos brancos e mais velhos, não se poderia esperar que a cobertura do rap fosse um dos pontos fortes da revista.

Mesmo que os editores estejam satisfeitos com o fim da publicação, eu não estou. Vou revisitar com frequência minhas edições antigas, o que já faço com certa regularidade.

Leia também

A morte de uma revista – Álvaro Pereira Júnior

***

[Michael Angelo Matos, do The Atlantic]

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