Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > IMPRENSA & MENSALÃO

Folha divulga informações de maneira pouco criteriosa

Por Joca Oeiras em 21/08/2012 na edição 708

“O advogado do ex-ministro José Dirceu, José Luís Oliveira Lima, rebateu ontem no STF (Supremo Tribunal Federal) as acusações contra seu cliente que constam no memorial do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, último documento apresentado aos ministros com um resumo das acusações. No documento protocolado ontem (9/8) no Supremo, o advogado Oliveira Lima apontou 49 ‘omissões’, incluindo trechos de depoimentos de integrantes do primeiro escalão do governo Dilma.

A presidente Dilma Rousseff é mencionada seis vezes pelo advogado, assim como quatro ministros do governo dela. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é citado dez vezes; o vice-presidente Michel Temer, quatro. Ao apresentar Dilma como peça de defesa, o advogado tenta afastar rumores de que ela torce pela condenação de José Dirceu para conquistar amplo domínio no PT. Uma das omissões pontuadas pela defesa do ex-ministro está no depoimento de Emerson Palmieri, ex-assessor do PTB e um dos 38 réus do julgamento.

À CPI, Palmieri disse que viu o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares telefonando para José Dirceu depois de negociar ‘ajuda de R$ 20 milhões’ ao partido. A PGR omite o interrogatório judicial em que ele não confirma as supostas ligações telefônicas para José Dirceu. A defesa de Dirceu exaltou ainda uma avaliação do atual presidente do Supremo, Ayres Britto, de que não se poderia atribuir exclusivamente ao chefe da Casa Civil o poder conferido ao cargo.

Outra estratégia foi desqualificar depoimentos à CPI na chamada fase pré-processual, sem que fossem formalmente reproduzidos à Justiça, fórum no qual há a obrigação de se falar a verdade. ‘A PGR [Procuradoria-Geral da República] não apresenta um único testemunho judicializado para sustentar o pedido de condenação. Ao citar a descompromissada fala dos acusados [à CPI], que não têm obrigação de falar a verdade, a PGR ignorou sumariamente toda a farta prova testemunhal, construída sob o crivo do contraditório, que rebate e infirma todos os trechos dos interrogatórios citados no memorial’, acrescenta Lima” (Folha de S.Paulo, “Defesa de Dirceu lista omissões de procurador”, editoria Poder, de Catia Seabra e Filipe Coutinho).

A notícia acima reproduzida é uma das, entre tantas outras, produzidas pelos jornalistas sobre o julgamento do chamado mensalão. E é também apenas mais um exemplo da maneira pouco criteriosa como são divulgadas as informações sobre aquele julgamento. Se este, realmente, fosse o “julgamento do século”, a cobertura jornalística do fenômeno seria irremediavelmente condenada pela História. A “pérola” maior da matéria é a “revelação” de que uma das preocupações do advogado era tentar “afastar rumores de que ela [Dilma] torce pela condenação de José Dirceu para conquistar amplo domínio no PT”, (sic) isto porque – e esta estatística é um dado relevante da notícia – “a presidente Dilma Rousseff é mencionada seis vezes pelo advogado, assim como quatro ministros do governo dela. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é citado dez vezes; o vice-presidente Michel Temer, quatro.”

De posse destes cruciais dados, o leitor está devidamente instrumentalizado para saber que “outra ‘estratégia’ foi desqualificar ‘depoimentos à CPI’, na chamada fase pré-processual sem que fossem, formalmente, reproduzidos à Justiça, fórum no qual há a obrigação de se falar a verdade” embora seja óbvio que o mesmo leitor “sabe” muito bem de que CPI eles estão falando.

O que menos pesa é a vontade de informar

A única informação de real valor na reportagem é que “à CPI [Emerson] Palmieri [um dos réus do mensalão] “disse que viu o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, telefonando para José Dirceu depois de negociar ‘ajuda de R$ 20 milhões’ ao partido. A PGR omite o interrogatório judicial em que elenão confirma ‘as supostas ligações telefônicas para José Dirceu’”.

Vale notar que desqualificar depoimentos onde a mentira não acarreta perjúrio é, para a dupla de repórteres, apenas, uma “estratégia da defesa”. Eles, simplesmente, desprezam um fato que salta aos olhos de tão evidente: mostrar que nenhuma das testemunhas arroladas confirmou seu depoimento em juízo é a pedra angular do arrazoado defensivo do “companheiro” Zé Dirceu.

Uma coisa é necessário concluir da análise desta notícia: o que menos pesa nela é a vontade de informar.

***

[Joca Oeiras é jornalista]

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