Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO FEMININO

Helen Cosmopolitan Brown

Por Fatima Ali em 21/08/2012 na edição 708
Reproduzido do suplemento “Aliás” do Estado de S.Paulo, 19/8/2012; intertítulos do OI

O jornalismo feminino não foi mais o mesmo depois de 1965, quando Helen Gurley Brown assumiu a Cosmopolitan. Pioneira na revolução sexual, prestou enorme contribuição à liberação e à autovalorização da mulher. Pequena, magrinha, frágil, de fala quase sussurrada. Mas uma personalidade excêntrica, afiadíssima profissional, o motor que impulsionou uma das revistas mais bem-sucedidas de todos os tempos. Em sua gestão, a circulação de 800 mil chegou a 3 milhões de exemplares nos anos 1980, a quinta maior revista em vendas em bancas nos EUA, uma das femininas com maior número de páginas de publicidade, a mais publicada no mundo – mais de cem países.

1980. Copacabana Palace. Lançamento do filme Tubarão para a imprensa. David Brown, produtor do filme está presente. Sua mulher, Helen Brown, diretora da Cosmopolitan, também. Eu, diretora da revista Nova, a Cosmopolitan brasileira, acompanhava o casal. Ela ficou 15 minutos no coquetel. Usando seu charme e uma postura profissional, seguiu um roteiro preestabelecido que durava de dois a três minutos com cada pessoa: fazia um elogio (“Que colar bonito! Que interessantes os seus óculos!”), contava algo pessoal que a aproximasse da pessoa, ouvia os comentários e se despedia gentilmente. Quando se aproximou do ator José Lewgoy, percebeu que era mais alta do que ele. Ligeira e sutilmente, descalçou os sapatos. Humilde? Gentil? Manipuladora? Calculista? Helen era tudo isso e muito mais.

Um ano antes de Betty Friedan dar início ao movimento feminista, com seu livro A Mística Feminina, em 1963, Helen chocou o mundo com o best-seller Sexo e a Mulher Solteira, que revelava que as mulheres solteiras não somente tinham vida sexual, como sugeria que tivessem muito prazer com ela.

Vida pessoal e trabalho

Como diretora da Cosmopolitan, de 1965 até 1997, foi a primeira a falar abertamente sobre sexo. Incentivou as leitoras a reconhecer seu valor e buscar as próprias conquistas, para que nos encontros com os amigos as perguntas fossem sobre seus trabalhos e não os dos seus maridos. Pode parecer óbvio hoje, mas era revolucionário em 1965.

Helen nasceu em 1922, segunda filha de um modesto casal de professores. Aos 10 anos, perdeu o pai em um acidente e a família mudou-se para Los Angeles. Sua mãe entrou em depressão e sua irmã Mary contraiu poliomielite e ficou paralisada da cintura para baixo. As duas passaram a depender de Helen.

Começou sua carreira em 1942, como secretária, e passou por vários empregos até chegar a uma agência de publicidade. As cartas que escrevia chamaram a atenção do departamento de criação, para onde foi transferida. Tornou-se uma das mais bem pagas redatoras de publicidade dos Estados Unidos. Aos 37 anos casou-se com David, jornalista que nos anos 1950 começou a escrever roteiros de cinema e tornou-se executivo da Fox e produtor de grandes sucessos, como Tubarão e Golpe de Mestre. Foram casados por mais de 50 anos. David morreu em 2010.

A Cosmopolitan era Helen. Helen era a Cosmopolitan. Raramente uma revista foi tão identificada com sua diretora de redação. Tinha 43 anos quando assumiu a revista, que era dirigida para mulheres de 20 a 35 anos. Descrevia a leitora como a jovem que ela havia sido – ou sonhou em ser – 20 anos antes. Todos na redação se referiam sempre ao que “Helen acha, o que Helen quer”. Exercia enorme controle sobre tudo – pautas, espelho, fotos. Lia absolutamente cada linha de texto antes de fechar as matérias e fazia mudanças até o último instante. Trabalhava 12 horas por dia, sete dias por semana. Das 11 da manhã a no mínimo 11 da noite. Vida pessoal, nada que não fosse relacionado com o trabalho: jantares, almoços, festas, entrevistas na TV. Sua sala no prédio da Hearst, na Rua 57, em Nova York, lembrava as fotos da Cosmopolitan: papel florido rosa nas paredes, vasos com flores, móveis em tom pastel, almofadas com estampas de animais.

Até o fim

Tinha medo de multidão. Chorava quando era criticada. Se achava “feinha”. Fazia tudo para melhorar sua aparência e falava disso com tranquilidade. Exercitava-se uma hora por dia, fazia dieta permanentemente. Plásticas, fez muitas: nariz, silicone no seio; no rosto, lifting, olheiras, injeções de gordura, implante de cabelo. Usava perucas e cílios postiços. E vestidos, camisas de seda, salto alto, joias grandes, um fio longo de pérolas com uma corrente com coisas penduradas.

Rica, morava em um apartamento de quatro andares em frente ao Central Park, repleto de obras de arte. Mas se comportava como se ainda fosse a menina pobre de Arkansas. Não tolerava desperdício de dinheiro. Contava cada centavo das despesas da redação e pensava muito antes de comprar qualquer coisa para si própria.

Ela, que começou como datilógrafa no porão de uma loja de departamentos, tinha como lema “Você pode ter tudo, desde que trabalhe muito e seja organizada”. Só faltou dizer que precisava ter talento também. E isso sobrava para Helen. Não teve filhos. Trabalhou no escritório da Hearst todos os dias até o fim. Morreu na segunda-feira, 13/8, aos 90 anos.

***

[Fatima Ali é jornalista e foi diretora-fundadora da revista Nova, da MTV no Brasil, vice-presidente do Grupo Abril. É consultora editorial]

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