Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & PRECONCEITO

O espírito de ser brasileiro

Por Natasha Maximilian em 21/08/2012 na edição 708

“Brasil, mostra a sua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim.” Parafraseando Cazuza, hoje mais que nunca quem paga é uma mídia tendenciosa, arrogante e elitista. Pior do que o preconceituoso assumido é aquele que se traveste de boas intenções, mas na verdade tem mais preconceito que o dito preconceituoso.

O Brasil já foi um país de brasileiros simplesmente, um país que era representado por mil faces distintas, não importando muito suas origens. Éramos apenas brasileiros e nada mais. Não éramos afrodescendentes, ítalo-descentes, nipo-descendentes. Não cometíamos esses erros grotescos já cometidos em tantos outros países, de apartar as pessoas por suas origens, e isso que sempre nos tornou belos porque se você tinha um olhinho puxado, uma pele vermelha, cabelos encaracolados ou olhos azuis, você era apenas brasileiro.

Podia, sim, ser um brasileiro mais pobre ou mais rico, ter tido mais condições ou menos, mas o espírito de ser brasileiro estava em você, o espírito de um povo capaz de se misturar de uma forma que nenhum outro país conhece. Um espírito que sempre disse a cada um: “Você pode e você consegue e não tem um lugar que não seja para você e aqueles que tentaram alcançaram o seu lugar.” Um país criativo, que vence a adversidade inovando e sendo atrevido a fazer o que ninguém mais faz. Um país tão diferente dos demais que não temos pares. É, meus caros, não somos americanos nem sul-americanos porque nossa colonização não foi hispânica –aliás, nossa imagem nos livros de história da América Latina é muito diferente daquela que aprendemos: somos considerados os imperialistas.

Erros e saídas

Nós não somos europeus arraigados a uma pureza de raça, tradições e nobrezas que distanciam o povo e o confinam a uma eterna plebe. Somos um país que ao longo da nossa curta existência fomos criando um próprio estilo, uma própria língua. Temos defeitos, sim – quem não os tem? –, e muitos erros foram cometidos. Infelizmente, a ignorância não escolhe pátria e muito do preconceito aqui sofrido por parte do nosso povo advém dessa ignorância. Mas fica um alerta: cuidado porque por trás de supostas mentes bem intencionadas, se camuflam essas pessoas que hoje tentam discriminar as pessoas de uma forma por assim dizer mais sutil, mas não menos ofensiva ou agressiva, a meu ver até mais porque estão tentando furtar o que há de melhor em nós.

Não confine um índio a uma taba, um negro aos atabaques, um asiático a tecnologia, um branco a roqueiro e mauricinho. Pobre não tem que ser escrachado, como as novelas de hoje mostram e, não se contentando em mostrá-los de forma inferior, ainda afirmam que mesmo que estes subam posições na vida e tenham dinheiro, sempre serão pobres. Isso é um preconceito horroroso, me assusta ver uma novela desmerecer tanto o nosso povo, me assusta essa discriminação disfarçada que fala em favela e confina seus habitantes a serem eternamente passistas de escola de samba e jogadores de futebol, como se não existisse mais nada para essa gente. Você é afrodescendente? Então está condenado a rufar tambores e chutar bola até a eternidade. Isso chama-se preconceito. Ninguém fala de um sem número de brasileirinhos que saíram de condições totalmente adversas, dessas favelas, e hoje são primeiros bailarinos dos maiores corpos de balé do mundo, ou catedráticos em universidades renomadas pelo mundo, musicistas clássicos maravilhosos, gente que cria, inova, sai do lugar-comum e com muita coragem se desprende desses rótulos.

São todos brasileiros, negros, brancos, índios, são todos tingidos de verde e amarelo na pele e são brasileiros nas diversas formas de se ser um brasileiro. Nem melhores, nem piores uns dos outros, mas um povo que pode ser lindo porque pode explorar todas as formas de ser uma pessoa sem precisar rebaixar outras. Não vamos nos tornar como os outros países. Temos erros, sim, mas são os nossos erros e vamos encontrar as nossas saídas e não um arremedo caricato de outras nações que ainda lembram Maquiavel – dividir para conquistar. O preconceito pode ter uma face inofensiva, mas altamente danosa.

***

[Natasha Maximilian é analista de sistemas, São Paulo, SP]

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