Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

FEITOS & DESFEITAS > TEMPOS MODERNOS

Leitores e jornais

Por Luiz Garcia em 28/08/2012 na edição 709
Reproduzido de O Globo, 24/8/2012; intertítulo do OI

Muita gente já pode ter esquecido, mas houve um tempo em que os únicos instrumentos do jornalismo eram, imaginem só, o jornal e a revista. São relativamente recentes o rádio e a televisão. A multiplicação dos meios de informação produziu, entre outros benefícios óbvios, saudáveis problemas para os condenáveis defensores do controle e da manipulação da informação. O mais recente membro da família das notícias é, como ninguém ignora, o computador. Empresas jornalísticas aparentemente não o encaram como concorrente – talvez, entre outros motivos, porque sites patrocinados por jornais permitem um diálogo permanente entre os cidadãos e a mídia.

Alguns jornais cobram pelo serviço. No site da Folha de S.Paulo, por exemplo, usa-se um sistema chamado paywall (não há explicação para o apelido em inglês): o leitor tem acesso gratuito a um certo número de reportagens; se passar do limite, terá de pagar pelas notícias.

Temas e fatos

Num debate esta semana [semana passada] em São Paulo, um representante do The Wall Street Journal, um dos mais bem-sucedidos jornais americanos, deu sugestão diferente: os leitores pagariam menos ou não pagariam se contribuíssem com comentários e participação em pesquisas de publicidade. Esse sistema tem a vantagem óbvia de permitir ao jornal conhecer melhor sua freguesia. O que pode resultar num jornal muito mais próximo dos desejos de seus leitores. Mas também traz o risco de se afastar de fatos e assuntos que devem ser levados ao conhecimento da opinião pública, mesmo que ela não saiba disso. Ou principalmente por isso.

É certamente importante que a mídia conheça o que pensa e quer a sua freguesia. Mas é fundamental que chame a sua atenção para questões e problemas que ela – entre outras razões, pelo seu acesso privilegiado aos centros de poder político e econômico – conhece e o cidadão comum não. É sempre útil uma relação mais íntima entre quem vende o produto e quem o consome. Mas, no caso da imprensa, embora seja importante que o jornalista saiba o que o seu leitor pensa, é necessário levar-lhe temas e fatos relevantes que ele ignora. E o público certamente respeita mais o jornal que tem, entre suas mais importantes preocupações, contar e explicar fatos e temas que ele desconhecia e mexem com a sua vida.

***

[Luiz Garcia é jornalista e colunista de O Globo]

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