Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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FEITOS & DESFEITAS > LÍNGUA & LINGUAGEM

A face política da língua

Por Thiago Camelo em 02/10/2012 na edição 714
Reproduzido do Ciência Hoje On-Line, 24/9/2012

Centenas de pessoas – entre jovens e idosos – estiveram na terça-feira passada (18/09) no auditório da Academia Brasileira de Letras(ABL) para assistir ao gramático e filólogo Evanildo Becharafalar da importância da consolidação do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O evento fechou a série de quatro palestrasrealizadas na ABL que envolveram questões de normatização do português e tangenciaram assuntos do ramo da linguística.

Importante dizer: apesar de respeitado entre seus pares, Evanildo Bechara – formador de milhões de estudantes do ensino fundamental, médio e universitário com suas diversas gramáticas – não passa incólume pelo crivo de um sem-número de linguistas, que, entre outras críticas, não tolerama sua fidelidade a certos princípios normativos do português.

No evento da semana passada, no entanto, nenhum porém. Pelo contrário, o script contou com aplausos de pé, estudantes abraçados às suas edições da Moderna Gramática Portuguesae interjeições como “ele é fofo”, “ele é demais”, “perfeito!”.

Bechara realmente carrega doçura e humor na fala, além de transmitir fé contagiante quando defende aquilo em que acredita. E o gramático acredita com entusiasmo no novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, firmado em 1990, cujo objetivo é unificar a ortografia dos países que têm o português como língua oficial.

“O português é a língua dos países do futuro, é preciso consolidar a sua escrita”, disse Bechara, logo após ser anunciado com júbilo pelo também membro da ABL Domício Proença Filho, que o apresentou como “mestre Bechara ou, para muitos, o ‘senhor Volp’”.

Explica-se: a 5ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Porguesa, o Volp, lançado em 2009, incorpora as mudanças determinadas pelo acordo de 1990. Bechara, um dos bastiões da lexicografia e lexicologia da ABL, participou da elaboração da obra e tomou para si o legado de Antônio Houaiss (1915-1999) – aquele que, segundo Bechara, deu início à negociação do acordo. “Uma decisão mais política que linguística”, explicou.

Sobre a acentuação

O gramático discorda das críticasde diversos núcleos – de jornalistas a estudiosos – de Portugal ao acordo. Alguns deles, inclusive, acusam o Brasil de tomar atitude neocolonialista. Em outras palavras: dizem que o país se aproveita da crise econômica portuguesa e do promissor momento brasileiro para impor a nossa forma de escrever. “Não estou de acordo com essa visão”, afirmou Bechara. “O Brasil cedeu no acordo, se curvou a hábitos já estabelecidos em Portugal”.

Como exemplo da anuência a hábitos lusos, citou a retirada dos acentos nos ditongos abertos tônicos em paroxítonas. Foram-se as ‘idéias’, as ‘tramóias’, as ‘assembléias’. Para Bechara, essa exclusão faz muito mais sentido no universo dos portugueses, “que não pronunciam essas sílabas de modo fechado”.

O gramático também foi firme ao defender o fim do acento diferencial do verbo ‘pára’: “Acento diferencial em português é sempre circunflexo; tivemos de corrigir isso”.

De acordo com o gramático, o emprego de um acento agudo fazendo as vezes de marcador diferencial não era ideal. Abriria precedentes estranhos, como acentuar o substantivo ‘sede’ – de ‘a sede da ABL é no Centro’ – para distingui-lo do outro substantivo homônimo que denota necessidade de beber um líquido.

Trema e simplicidade

O trema também integrou a pauta do gramático. “Ninguém vai deixar de pronunciar o ‘u’ de ‘linguiça’ só porque não há mais trema”, disse. “Além disso, os portugueses já não usam trema há muitos anos”, completou Bechara, que usou a extinção do sinal para confirmar que o Brasil de fato cedeu a várias normas já estabelecidas em Portugal. “Nos curvamos às vontades deles, mas nos curvamos com felicidade – temos agora uma ortografia mais científica.” 

Bechara acredita que essa cientificidade tem a ver com simplicidade. As novas regras para o hífen, por exemplo, confirmariam, a seu ver, a busca pela escrita mais natural.

O gramático ainda tocou em outro assunto polêmico do acordo: a não hifenização do prefixo ‘co’. Segundo Bechara, essa normatização denota o caráter reconciliatório – e não reformativo – do acordo. “Essa era uma questão mais antiga, discordância de acordos passados que acertamos agora nesse novo documento.”

Cumprir o novo acordo 

Para Bechara, é um dever social dos escritores e “das pessoas de cultura” escrever segundo o novo acordo. “É importante ensinar aqueles que não sabem”, disse. Segundo o gramático, embora todos tenham o direito de falar, nem todos têm “a propriedade de acertar”.

“Vamos usar o acordo, vamos praticá-lo; o tempo vai mostrar o que está certo ou errado e a necessidade ou não de um novo documento”, defendeu o gramático.

Em tempo: o novo acordo, por decreto oficial, passa a valer no Brasil a partir de 2013, quando não mais serão aceitos textos com o emprego da normatização antiga – desde 2009, estamos em fase de adaptação. Em Portugal, onde a polêmica ferve, o tempo de adaptação é maior – vai até 2015.

***

[Thiago Camelo, do Ciência Hoje On-line]

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