Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > JORNALISMO PRIMÁRIO

A pobreza das notícias

Por Rafaela Medeiros em 09/10/2012 na edição 715

Por favor, respeitem a pirâmide invertida, mas não sejam tão leais assim. Já está dando vergonha abrir o jornal e ler o pobre noticiário com matérias com tão pouco interesse e informação que não passa do básico, na verdade das seis perguntas básicas (o quê; quem; quando; onde; como e por quê) que formam o lead– uma das primeiras palavras que o jornalista aprende, enquanto ainda é um mero aprendiz. E pelo que parece, há alguns que só aprenderam isso.

Muitas matérias andam se limitando a responder essas perguntas e ponto final, mas onde fica o resto da história? Onde está o jornalismo por sua essência informativa? E o compromisso com o leitor? Vale lembrar que este não é um trabalho manual. Quando falaram de indústria de massa, talvez você não tenha prestado muita atenção, mas não estavam falando na industrialização do jornalismo, como se as redações fossem uma manufatura ou, quem sabe, maquinofatura.

Há uma clara diferença entre ser objetivo e ser preguiçoso. O leitor não é burro, apesar de termos que partir do princípio que aquele que vai ler nossa matéria não sabe de nada, mas esse não saber não significa falta de inteligência ou algo do tipo, mas apenas uma falta de informação sobre determinado assunto ou fato. E geralmente eles sabem, muitas vezes até mais do que nós mesmos, jornalistas.

Ultrapassar limites

A pirâmide invertida não foi criada para incentivar o trabalho do preguiçoso, ela é uma forma de organização, de estruturação da matéria e nessa estrutura cabem informações que vão além daquelas perguntinhas. E quando falo dos jornalistas, falo de todo um sistema de hierarquia que é condescendente a isso. Épor isso que gosto tanto de ler revistas, elas ultrapassam essa barreira, quebram limites, permitem muito mais ao jornalismo e normalmente não deixam espaço para a preguiça. Tudo bem que o ritmo de produção é outro, há mais tempo, mas não estou falando de quantidade de linhas, e sim, da qualidade dessas linhas.

Em seu livro A Arte de fazer um jornal diário, o jornalista Ricardo Noblat diz: “Topo ler sobre o que já sei se vocês acrescentarem informações que desconheço ou se explicarem o que não entendi direito.” Por favor, não sejam tão fieis à pirâmide invertida. Mudem, ultrapassem limites, façam o novo ou o incomum, mesmo respeitando sua estrutura. Dentro dela pode caber o mundo.

***

[Rafaela Medeiros é jornalista, Salvador, BA]

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