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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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FEITOS & DESFEITAS > REFLEXÃO

O que é, de fato, comunicação

Por Luiz Martins da Silva em 16/10/2012 na edição 716
Reproduzido da UnB Agência, 8/10/2012; publicado originalmente na Revista Febrafite nº 18, setembro/2012

Conta uma anedota que duas mulheres foram a um encontro, cada uma com intenção de matar a outra, mas antes cumprimentaram-se com beijinhos. Em um nível primário de avaliação da atitude pode-se dizer que eram pessoas comunicativas. Na realidade, atenderam apenas à função fática da comunicação, aquela que serve para “ajustar o canal”, quebrar o gelo, algo assim como comentar com um desconhecido no elevador que o dia está quente, apenas para atenuar o silêncio incômodo.

Outro equívoco é cotar como extremamente comunicativas pessoas capazes de encantar plateias com discursos arrepiantes ou com performances de levar a multidão a gargalhadas, pondo todos ao ponto das cãibras na barriga. Na verdade, oradores ou performers assim podem ser capazes de brilhar num dos patamares das ações interativas, que é o da “ação dramatúrgica”. O tal discurso pode ser oco de sentido e a teatralidade pode ser estritamente cômica. Com muita frequência, o hilário é non-sense. Mágicos de circo também são capazes de arrancar suspiros e aplausos, mas têm de ser absolutamente intransparentes com relação aos truques que dominam. Ora, uma das características da verdadeira comunicação é que não haja trapaça entre os interlocutores.

Há mais comunicação entre a professora de primeiras letras que transmite ao alunado o conhecimento de que o trema na língua portuguesa foi abolido do que entre uma torcida em êxtase, mas que vem a se decepcionar mais tarde, ao saber que o idolatrado campeão olímpico teve de devolver a medalha por ter sido desmascarado num exame de doping. É mais comunicativo um locutor gago, mas verdadeiro nas informações, do que um gogó de ouro a serviço de manipulações em favor deste ou daquele interesse, econômico ou político.

Capacidade humana

Um dos maiores fenômenos da história do rádio foi Orson Welles, que, adaptando uma ficção científica de H. G. Wells – A guerra dos mundos –, levou os nova-iorquinos ao pânico, semeando a verossimilhança de que os marcianos estavam, naquele momento (1938), invadindo a Terra. Os atuais códigos de ética o teriam enquadrado em vários deslizes e possivelmente seria, hoje, processado por dano moral coletivo.

Como articulista, não estarei sendo, de fato, comunicativo se continuar escondendo do leitor aonde quero chegar e qual, afinal, é o meu ponto de vista sobre o que é ser um comunicador perfeito, atento às três competências básicas para tal: ética, técnica e estética. Sou professor de uma disciplina, Ética na Comunicação, mas tenho tido dificuldade em convencer as turmas do seguinte princípio: sem ética, não há comunicação, e sim, estratégia. Contra-argumento com exemplos, de uns tantos comerciais que, a despeito de serem tecnicamente bem produzidos, são enganosos, abusivos, preconceituosos e ferem a mais elevada das estéticas, que é o decoro moral. Comerciais há que enaltecem um idiota bêbado e o mostram em situação de pleno êxito com mulheres esculturais e absolutamente fascinadas por ele, pelo simples fato de ser adepto de uma determinada marca.

Comunicação, portanto, é sinônimo de entendimento, cooperação e consenso, obtidos de forma sincera e honesta. Comunicação é o mesmo que buscar o êxito sem detrimento dos outros. Etimologicamente, tornar comum e, portanto, descentrar do egocentro a orientação dos interesses. Centrá-los na primeira pessoa do plural, nós. Mas o nós cooperativo, e não o nós corporativo. Já convivi com insinuações de que essa “comunicação perfeita” seria algo mais apropriado ao relacionamento dos anjos, e não dos humanos. Das beatitudes angelicais não duvido, mas da capacidade humana de construir cooperadamente realidades dignas, também não.

***

[Luiz Martins da Silva é jornalista e professor da Faculdade de Comunicação, da Universidade de Brasília]

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