Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Algumas mal traçadas

Por Ivan Berger em 23/10/2012 na edição 717

Um dos muitos equívocos que cometi na vida foi querer ser advogado, pensando em ser juiz lá na frente. Levei dois anos para perceber que não tinha nada a ver com o cipoal de leis e regras que precisava decorar ao pé da letra, sem direito, ops, a improvisações, por mais obsoleto que já na época – vinte e poucos anos trás – me parecesse um código penal lavrado na década de 40. A ficha caiu quando um professor sentenciou, ao comentar minha propensão a contestar aquilo tudo: já que você gosta de dar asas à imaginação, deveria ser jornalista.

Não sei dizer se a troca foi boa ou não, mas o fato é que segui o douto conselho e encarei os quatro anos de curso para obter o, ainda então valorizado, canudo, à época ainda imprescindível para exercer a profissão. Precisei de mais dez anos para descobrir que afora a satisfação pessoal, o glamour, o ofício não era bem o que eu esperava. Basicamente porque não se sobrevive de idealismo, de brisa. Com o tempo, fui percebendo que se bobeasse ia acabar como antigos colegas que, depois de trinta e poucos anos de labuta, se aposentavam, quando não simplesmente eram descartados, como qualquer burocrata. No bolso, que é bom, um reluzente relógio (ou cartão de prata, que é mais barato) e pouco mais da metade do salário irrisório que a grande maioria ainda recebe hoje em dia.

Bem, longe de mim querer desencorajar ou desestimular os pretendentes à profissão, pois é claro que não há uma regra geral para ser bem-sucedido. Há vários fatores pessoais que devem ser levados em conta. Vejo muita semelhança entre a carreira jornalística e a futebolística, já que em ambas o sucesso e a fama normalmente estão restritos a uma pequena minoria dotada de talento e personalidade. Além de uma boa dose de sorte, é claro. Se bem que personalidade, talento, sorte, são atributos básicos para ser bem-sucedido em qualquer profissão.

Azarão na eleição

Isto sob o ponto de vista material, já que em termos de realização profissional o buraco tende a ser mais embaixo, na medida em que o exercício correto e digno da profissão se sobrepõe à busca de status propriamente dita em função da condição sine qua nom de obediência aos preceitos morais e éticos inerentes ao ofício. Bússola que deveria nortear não só o jornalismo como a administração pública, a magistratura e por que não dizer, a conduta dos artistas da bola e das artes de um modo geral, posto que vistos como modelos e espelhos pela sociedade.

Obviamente, há um ônus a pagar pela exposição, notoriedade, fama, atrelado ao conceito se granjeia ao longo do tempo. Conceito que não deixa de ser uma espécie de rótulo modelado por um comportamento sob constante observação e escrutínio popular. Nesse contexto, ninguém está rigorosamente imune as consequências de seus atos, sejam jornalistas, artistas, esportistas ou juízes da Suprema Corte. Pode não parecer e às vezes demorar, mas cedo ou tarde a opinião pública acaba atinando com os embusteiros que proliferam nas redações, gabinetes e tribunais.

Nesse sentido, as recentes eleições e o próprio julgamento do chamado Mensalão são exemplares, como demonstra o fracasso de vários candidatos apontados como favoritos ou celebridades, a ponto de colocar em xeque a credibilidade de alguns veículos de informação. Caso do grupo A Tribuna de Santos, que apontava como certas as vitórias de Caio França e Farid Madi às prefeituras de São Vicente e Guarujá, respectivamente, deixando no ar suspeitas de pesquisas encomendadas. Afinal, diferentemente do ocorrido na capital, onde as pesquisas já sinalizavam a queda de Celso Russomanno na reta de chegada, em São Vicente, mais escancaradamente, em nenhum momento os veículos do oligopólio dos Santini acusaram a subida do azarão Bili na preferência popular.

Sobras da paixão pelo jornalismo

Na vida pública, vale o mesmo preceito da mulher honrada; não basta ser honesta, é preciso parecer honesta, ou seja: ter uma postura condizente. Escrever, legislar, governar ou atuar com o máximo de lisura e honestidade de propósitos. Atributos básicos, elementares, mas nem por isso menos raros, fáceis de encontrar, em meio ao emaranhado de interesses e objetivos inconfessos que permeiam as esferas do poder. Telhados de vidro é o que não falta, mas nem por isso os farsantes profissionais se intimidam e deixam de agir como se não tivessem culpa no cartório, o rabo preso com alguém ou alguma coisa.

Não obstante, as anomalias são tão evidentes que não passam despercebidas nem aos mais desatentos. Como as protagonizadas por jornalistas manjados, que agem feito jagunços ou como meros bonecos de ventríloquo dos patrões. Por governantes demagogos e oportunistas que, quando não comprometidos com relações espúrias, se limitam a falar grosso, mas nada fazem de efetivo para sanar ou minimizar os problemas crônicos que afligem a população, como acontece mesmo no estado mais próspero do país, São Paulo.

Empulhações, como agora se vê claramente, extensivas a juízes que não honram suas togas, como o revisor Ricardo Lewandowski, nitidamente empenhado em livrar a cara dos mensaleiros. A ídolos mequetrefes que não fazem nada sem motivação pecuniária, como o ex-fenômeno Ronaldo e esse novo desafio de superação para perder peso – por um cachezinho de R$ 6 milhões sorrateiramente omitido dos incautos telespectadores do Fantástico. E por aí afora.

Conheci e convivi com uma penca de personagens similares e bem poucos correspondem à imagem que a mídia mercantilista se esmera em passar ao público. O tempo foi passando e, como não sou de fazer vistas grossas e me prostituir nunca chegou a ser uma opção, fui fazer outra coisa na vida. Da paixão pelo jornalismo ficaram as mal traçadas que de vez em quando ouso perpetrar nesse ilustre fórum.

***

[Ivan Berger é jornalista, Santos, SP]

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