Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

FEITOS & DESFEITAS > NO AR

O que há no rádio

Por Arnaldo Bloch em 23/10/2012 na edição 717
Reproduzido de O Globo, 20/10/2012; intertítulo do OI

Lulu, como era conhecido Luís Alberto Oliveira, fotógrafo em Paris entre os anos 1970 e meados dos 90, era amigo de Pelé, fumante furioso e dono de um francês macarrônico. Morava num apartamento de frente para a garçonnière de Napoleão e fritava farofa de ovo para Celso Furtado. Mas, apesar de tantos atributos, morreu sem entender como funciona um rádio: para ele, aquilo era ilusionismo ou obra do sobrenatural.

O problema de Lulu era o fio: como é que vozes, música e outros ruídos podiam chegar de locais distantes e de outros continentes, penetrar num objeto inanimado sem fio e chegar aos nossos ouvidos?

– Telefone tem fio. Televisão tem fio . Tudo tem fio. Como é que pode?

– Mas Lulu, o rádio tem pilha e antena!

– Mas não tem fio. É mágica.

Não adiantava mencionar ondas eletromagnéticas ou dizer que a tomada da TV só traz energia, enquanto as imagens vêm pelo ar (a TV a cabo ainda não se popularizara).

Para Lulu, som sem fio era antinatural, e ponto. Como o é, para muita gente, até hoje, o avião: inexplicável, inconcebível.

Último recurso

Lulu não conheceu a era dos celulares nem o uso globalizado do computador e do wifi.

Mas, com sua implicância irracional, acertou num alvo futuro: o rádio atravessaria a revolução tecnológica sem desafinar, ao contrário dos outros meios, que penaram, e ainda penam, para encontrar o tom. Pode não ser um milagre de outro mundo, mas é, sem sombra de dúvida, um fenômeno.

Ainda que tenha perdido audiência, o rádio continua a ser ouvido em grande escala em casa, no carro, na cama e nas regiões mais remotas. Mas seu grande feito está no fato de que seu tom pessoal, dirigido individualmente ao receptor, e sua capacidade de gerar fantasias permanecem intocados, mesmo quando seu conteúdo é transferido para outras mídias, como o computador e os celulares.

Não à toa, os comunicadores, sejam eles esportivos, jornalísticos, de variedades ou religiosos, ainda falam ao ouvinte naquela segunda pessoa informal, atingindo-o em sua solidão: você, caminhoneiro de madrugada cruzando o país; você, dona de casa, em suas tarefas; você, dando duro no batente; você, da terceira idade, que tem saudade; você que quer mandar o seu recado; seu protesto; sua indignação.

Mesmo quando se dirige a grupos, o rádio ritualiza o momento: você, que está com o seu amor no aconchego de uma cama redonda com teto espelhado; você, que está na balada e sintoniza na batida eletrônica do funk.

Nelson Rodrigues dizia que o verdadeiro jogo de futebol é aquele que se ouve no rádio, e não o que acontece no estádio. Não estava apenas produzindo uma frase de efeito. Da mesma maneira que o Nero de Cecil B. DeMille é mais real que o Nero histórico, as transmissões categorizadas de Waldyr Amaral, o grito vigoroso de Jorge Curi; o “entroooooou” malandrão de José Carlos Araújo (o único e verdadeiro Garotinho); o “guardoooou” de Luís Penido; os discursos embriagados de João Saldanha: prosódias que enchem a mente do ouvinte de imagens que, circunstancialmente, ele não pode ver.

O que se perde não assistindo ao jogo ganha-se ao imaginá-lo, deslumbrante, remoto e vivo, em variações enriquecidas pelo jeitão de cada locutor. Depois, comparar essas sensações com a realidade dos VTs, dando à experiência anterior novo significado. Ouvir o jogo no rádio ao mesmo tempo que se assiste, defasagens à parte, é outra possibilidade. E o jogo continua à saída do estádio, no papo de vestiários; ou antes de se chegar ao estádio, no Aterro, a caminho do Maraca, domingo, aquele cheiro de morteiro no ar. O Maraca vai voltar!

O rádio é fogo. Os jornais mudaram para adaptar-se, mas, hoje, percebem que, no papel, o tom é de papel, enquanto o conteúdo digital tem, obrigatoriamente, que ser diferente, com outras categorias, outra indexação, outra linguagem. A televisão se segmenta cada vez mais no cabo e as imagens abertas se fragmentam ao cair na rede.

Com o rádio isto não acontece: não importa o meio de difusão, o conteúdo de um determinado veículo é o mesmo na caixa retangular com pilha e antena ou no celular, e só depende daquilo que se quer transmitir. No rádio, o meio não é a mensagem, pois a mensagem é que faz o rádio.

Essa qualidade vem sendo amplificada por um fator: o rádio é, e deverá permanecer, gratuito. Os aplicativos para se ouvir rádio em celular são meras replicações. Além disso, o rádio, como meio de transmissão pura e simples de mensagens, pode ser o último recurso em grandes colapsos de energia. Se não é bruxaria, o rádio, como dizia o Lulu, espanta, ao lidar com o que há de mais sensível na afetividade e na cognição humanas.

***

[Arnaldo Bloch, de O Globo]

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