Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

FEITOS & DESFEITAS > MÍDIA & EDUCAÇÃO

Por que a carreira de docente não é atraente

Por Ricardo Santos em 23/10/2012 na edição 717

Na segunda-feira (15/10), Dia do Professor, o iG publica uma reportagem de Priscila Borges a respeito da carreira docente, cujo título é: “Salários baixos provocam fuga de professores da carreira.” A matéria traz depoimentos de profissionais de ensino e links relacionados ao tema. No geral, o texto de Priscila é bem elaborado e informativo. No entanto, deixou de lado aspectos fundamentais que envolvem os profissionais de ensino, ou seja, situações que vão além de salários. Melhor dizendo: a questão salarial é apenas a ponta do imenso iceberg dos problemas e desafios da educação. É preciso trazer à tona os obstáculos e os conflitos – da carreira do magistério – para que a sociedade saiba e compreenda, em profundidade, o que vem acontecendo.

Por sua vez, a repórter tem razão ao afirmar que a baixa remuneração é desestímulo para os novos talentos. Saldo: faltam profissionais de ensino em todo o país para lecionar as diversas disciplinas. A cada ano que passa, muitos alunos terminam o ano letivo sem ter assistido a uma única aula de algumas matérias. A verdade é que a maioria dos docentes é obrigada a sobreviver com um salário insuficiente para suas despesas e manutenção digna de sua família. Por essa razão, muitos trabalham em até quatro escolas. Ante essa condição desfavorável, os professores não podem comprar revistas, jornais, livros e não se atualizam. Há muitos que não possuem um computador. Ainda assim, infelizmente, existem políticos e burocratas de educação que compartilham da ideia que o profissional não precisa de boa remuneração para poder desenvolver um bom trabalho e sobreviver.

Isolados e impotentes

Quem conhece de perto o cotidiano da escola sabe que educação envolve questões profundas e variáveis complexas. Por exemplo, a questão da violência. Na maioria das vezes, é ocultada. Professores e alunos são as maiores vítimas. O problema não para por aí. Em classe, o professor percebe, claramente, o comportamento agressivo de seu aluno. Essa agressividade é o reflexo das dificuldades vividas pelas famílias. Entre elas, o alcoolismo, o drama do desemprego, o consumo de alucinógenos e a desestruturação familiar.

De outro lado, nem sempre, os professores são respeitados pelos gestores – há exceções –, pelos alunos e pelos responsáveis. Muitas famílias não assumem suas obrigações. Querem que a escola eduque seus filhos. Assim, o profissional tem de lidar, diariamente, com crianças e jovens sem limite. Há casos de alunos que se sentem ofendidos quando o professor chama sua atenção. Isso é pretexto para ameaça de morte. Outra situação recorrente e perigosa: alguns alunos não aceitam a nota que obtiveram nas avaliações.

Pois bem! É na sala de aula que o professor é aviltado mais ainda. Desse jeito, acaba se tornando mero figurante. Muitos se sentem isolados e impotentes no exercício da função. Há diretores que, diante dessa e outras situações, preferem fingir que tudo está bem. Dessa forma, não resolvem os casos mais graves de violência. É comum, também, o gestor criticar a maneira como o docente desenvolve o seu trabalho em sala, porém, o mesmo inadmite opinião desfavorável ao seu trabalho. Em retaliação, o educador passa a sofrer assédio moral do gestor.

“Fora da crítica não há saída”

Diante da dificuldade de lidar com um cotidiano violento, situações estressantes e problemas de difícil resolução, muitos educadores se afastam do trabalho. Em maioria, depois de certo tempo, passam a apresentar sintomas de depressão e transtorno ansioso. Leitor, em sua opinião, por que os mestres faltam muito ao trabalho?

Quanto à grande mídia, lamentavelmente, está ao lado do poder. Do discurso oficial. Sua postura revela uma verdadeira apatia e total desinteresse em relação aos problemas da escola pública. Tem mais: é comum a mídia responsabilizar os professores pelo fracasso escolar. Outro inconveniente muito usado pela mídia é o de responsabilizar os docentes como os maiores vilões da educação. Um bom exemplo disso é a forma como a construção da notícia é feita em relação à escola. A informação é veiculada de forma maldosa e sensacionalista. Quem não se lembra da Escola Base? Em 1994, os donos da Escola Base, Icushiro Shimada e Maria Aparecida Shimada, um pai de um estudante e o motorista da perua escolar foram acusados de abusarem sexualmente dos alunos. As denúncias eram infundadas. Na realidade, a mídia deixa de cumprir o seu papel, que é de informar quem está do outro lado da tela. Por que isso acontece? Porque vivemos num país de nível cultural baixo. Dessa forma, a mídia eletrônica reina soberana. Comete abusos e transgressões terríveis.

Dessa forma, perante a sociedade civil, os educadores são malvistos. Quanto aos governantes permanecem em berço esplêndido. Não pesam sobre eles críticas desfavoráveis. Afinal de contas, contam com as benesses do poder e a bajulação de boa parte da mídia. É uma troca de interesses. É por isso que não sofrem críticas e deixam de ser cobrados por tudo o que deixam de fazer. É como afirma Eugênio Bucci: “Pois fora da crítica não há saída.”

Tragédia anunciada

Outra coisa: a mídia deveria ouvir os professores e deixar que falem. Não há canais de comunicação para que haja interação com a sociedade. Os profissionais de ensino não podem ser abandonados ao descaso, aliás, necessitam de apoio, da sociedade civil e demais instituições organizadas, para que possam fazer um bom trabalho. Não é novidade que prefeitos e governadores tratam os docentes com total desprezo. Afinal, educação não tem o devido valor e não é prioridade, de fato, neste país. Se fosse, não teríamos chegado ao ponto que estamos. Um exemplo: muitos prefeitos e governadores se negam a pagar o Piso Nacional do magistério (de R$ 1.451), que é referente à jornada de 40 horas semanais. Exceto os compromissados com a educação, não resta dúvida que os políticos são os maiores adversários da educação pública neste país. Não serve como justificativa, portanto, o argumento de que falta dinheiro para o pagamento do piso.

Uma boa escola não é utopia. É possível. É mais que giz e lousa. É preciso também: ambiente seguro, salas de informática, boas condições pessoais para os profissionais, fim da promoção automática, cursos de qualificação para os docentes, bons salários, envolvimento dos responsáveis, recursos didáticos e investimento do poder público. Sem isso, seguramente, não teremos qualidade. Então, por que a educação – em boa parte da rede pública – não funciona neste país? Certamente, está claro para o leitor que são muitos os obstáculos. Eles são a somatória de questões que abordamos no texto e outras mais. Entre eles, citamos: salário baixo, indisciplina, violência, estresse causado por excesso de ruído na classe, vandalismo escolar, péssimas condições de trabalho, desinteresse dos pais e discentes pelo aprendizado, ambiente inseguro, salas superlotadas, ausência de plano de carreira e gestão antidemocrática. Por outro lado, não devemos nos iludir e imaginar que na escola particular não existe problema. Que tudo é perfeito. Na realidade, o educador enfrenta dificuldades e desafios semelhantes aos da escola pública.

Por fim, há quem diga que a educação pública pode mudar e melhorar se os diversos atores – governantes, professores, pais, sociedade civil, Ministério Público e a mídia – fizerem uma parceria. Do contrário, sem o envolvimento efetivo de todos, vamos continuar assistindo a triste tragédia anunciada que se encontra a educação brasileira. Finalmente, quem se interessa pela educação pública e seus desafios, vale a pena assistir ao filme Carregadoras de Sonhos.

***

[Ricardo Santos é jornalista e professor de História]

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