Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Beverly Hills para quem?

Por Pedro Mox em 30/10/2012 na edição 718

Virou piada, claro. Não poderia ser diferente quando uma reportagem do jornal O Globo anuncia Florianópolis como a Beverly Hills catarinense. Infelizmente, o motivo de piada é mais sério do que parece, pois tal ideário permeia quase toda publicação que se refere à capital catarinense. Comparações com Saint-Tropez e Ibiza são constantes no verão, estação na qual turistas endinheirados aportam em Jurerê Internacional para desfilar Ferraris e Porsches, tomar champanhas que custam quatro mil reais a garrafa e desfrutar os paradores à orla.

O problema é: Florianópolis não se resume a isto.

A mídia local adora esse tipo de bajulação, bem como uma parte dos moradores; final de ano sempre tem a pauta “réveillon dos milionários”, com festas cuja entrada pode chegar aos quatro dígitos. O intrigante é que tal rótulo acaba “pegando”. Como dizem, uma mentira contada várias vezes vira verdade… E tem gente pensando que Florianópolis é o paraíso na terra, uma ilha mágica, sem problemas, sobretudo por conta do tipo de divulgação Brasil afora.

Poucos parecem lembrar que o sistema viário daqui é o mesmo de 20 anos atrás e que somos uma ilha com um dos mais elevados índices de carro por habitantes: um a cada 2,3 pessoas, segundo pesquisa do IBGE feita em 2010. Não pode dar certo. Não é a toa que mobilidade urbana dá o tom da última campanha eleitoral e o candidato da oposição bate na tecla do planejamento urbano. Ainda assim, o repórter do jornal, com nome de biscoito, diz: “A ilha tem mais de 60% de sua área protegida, mantendo a natureza e impedindo a ocupação desordenada.” É provável que ele nunca tenha posto os pés na cidade. Se conhecesse, nunca teria escrito tamanha asneira. Ou negamos que há na Ilha uma favela sobre as dunas dos Ingleses, a do Siri, bem como grandes empreendimentos imobiliários. A rodovia Amaro Antonio Vieira, a rua “de dentro” do bairro Itacorubi, viu-se do dia para a noite ocupada por prédios e mais prédios, com dez ou mais andares, mas na rua não passam um carro e um ônibus em sentidos contrários simultaneamente. Trânsito péssimo com péssima estrutura viária ao redor dos shoppings Iguatemi e Beiramar, cujos entornos não suportam tamanho volume de veículos.

Questões que afligem a cidade

O primeiro parágrafo da matéria dá a entender que a população inteira da ilha é deveras abastada. Contudo, basta apenas uma volta à noite ao redor da rodoviária ou sob a marquise do Edifício das Diretorias para ver a cracolândia ilhoa.

Um entrevistado da matéria afirmou: “Aqui não tem jeito. Ou você fica rico ou sai da ilha.” O aeroporto está com planos eternos de ampliação, O Centro Integrado de Cultura ficou fechado por dois anos, numa reforma prevista para seis meses. Mas, quem se importa? O negócio é curtir passeios de iate, afinal todo mundo pode ter um segundo dá a entender o texto. A tão falada frase de Beverly Hills veio de outra entrevistada, que completa: “precisávamos ter tudo chique, branco e dourado”. Não. Precisamos, sim, de mais atenção às questões que realmente afligem nossa cidade.

Florianópolis tem muitas coisas boas, é a terra onde nasci e me criei. E uma das suas qualidades deveria ser reconhecer suas próprias características: não somos Beverly Hills, Ibiza, Paris ou qualquer outro lugar. Somos Florianópolis, para quem quiser ou puder pagar. É isso aí.

***

[Pedro Mox é jornalista, Florianópolis, SC]

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