Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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De costas para o futuro

Por Lúcia Guimarães em 06/11/2012 na edição 719

A indignidade deste ano da eleição presidencial, que será decidida amanhã, foi resumida em meio ao trauma da passagem do furacão Sandy. Um programa da Fox News, também conhecida como máquina de propaganda do Partido Republicano, recebeu o esgotado Chris Christie, governador de Nova Jersey, que interrompera a viagem de campanha por Mitt Romney, quando ficou claro que seu Estado sofreria a maior destruição com Sandy. O âncora Steve Docy tentou levantar a bola para inserir a campanha na tragédia e perguntou se Christie ia convidar Romney para fazer um tour do desastre. O republicano Christie cortou na hora: “Estou pouco me lixando. Tenho devastação, enchentes, 2.4 milhões de pessoas sem eletricidade e um trabalho a fazer.”

Christie, que passou o ano ridicularizando Barack Obama, elogiou a presteza e a liderança do presidente em alocar recursos federais para ajudar seu Estado. E foi imediatamente ridicularizado por colegas de partido, acusado de ajudar o candidato democrata.

A visão dos republicanos para os Estados Unidos já havia sido anunciada em 2010 pelo líder do partido no Senado, Mitch McConnell: “Minha prioridade número um é fazer de Barak Obama o presidente de um mandato só”.

Slogan cool

Se dependesse dos republicanos, milhões de americanos não teriam direito de votar amanhã, graças à campanha que moveram de combate a uma endêmica – e inexistente – fraude nas listas de eleitores registrados. Tropas de choque de contratados pelo partido vão aparecer nos locais de votação para confundir minorias e idosos, pedir identidade mesmo quando não é preciso apresentar o documento. E, caso a votação termine numa margem muito apertada num Estado decisivo, podemos contar com uma nefasta reprise da disputa de 2000, quando a recontagem da Florida foi parar na Suprema Corte e a vitória foi depositada no colo de George W. Bush, a quem devemos duas guerras e parte do desatino econômico que desaguou no crash de 2008. Um frio me passou pela espinha quando liguei a TV e peguei o advogado de Bush, em 2000, hoje contratado pela campanha Romney, dizer que já deixou sua agenda livre de compromissos a partir de amanhã.

Eu estava em Times Square na noite fria de 4 de novembro de 2008, quando a praça irrompeu numa comemoração memorável, assim que o telão anunciou a eleição do primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Conversei com eleitores negros de todas as classes e eles expressavam orgulho e incredulidade com o caminho percorrido pelo país onde, 45 anos antes, a lei os tratava como cidadãos de segunda classe. Estudantes universitários de todas as combinações étnicas, parte da chamada Geração Obama, se identificavam como o primeiro presidente que mantinha contato com eles por SMS. Um líder que falava em ciência, aquecimento do planeta, igualdade entre os sexos e havia transformado a palavra esperança num slogan cool. Ninguém pensava na nuvem da Grande Recessão, que já se formava naquela noite.

Qualidade suspeita

No fim da noite de sábado, um enrouquecido e muito mais grisalho Barack Obama reclamou de volta o slogan “Hope” num discurso em Iowa. O slogan de 2012, Forward (para frente) ganhou um ponto de exclamação de última hora nos pôsteres dos comícios. Mas não há pontuação ou oratória que possa produzir uma explosão de ufania como a de 2008 amanhã, em Times Square ou no Grant Park de Chicago, onde Obama tem chance apertada de fazer um segundo discurso de vitória. Obama, o presidente da esperança, é também o presidente que manteve aberta a prisão de Guantánamo e mata civis com drones controlados do deserto de Nevada. É o presidente que não consegue tomar um cafezinho com seus adversários e detonou sua arma mais poderosa de campanha, Bill Clinton, sem ter servido uma refeição ao casal Clinton, depois que chegou à Casa Branca.

Dizem que a vitória tem muitos pais e a derrota é órfã. Uma vitória de Mitt Romney terá a custódia de extremistas que hoje dominam seu partido. A vitória de Obama, que eu gostaria de ver amanhã, já tem pelo menos uma paternidade confirmada: Mitt Romney, o candidato escolhido porque exibe a qualidade necessária para prevalecer entre os republicanos – a qualidade de um invertebrado.

***

[Lúcia Guimarães é jornalista, em Nova York]

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